terça-feira, 7 de junho de 2011

Lógica, Prioridades e Reflexões


A clarificação das questões relacionadas com o fim de vida (suicídio ou morte assistida, eutanásia, testamento vital, cuidados paliativos, etc...) permitirá controlar o non-sense em que se tornou alguma gestão de recursos em Saúde. Mas não só.


Não faz sentido que se coloquem válvulas cardíacas percutaneamente que custam 30.000 euros, cardio-desfibrilhadores implantados, pacemakers topo de gama, quando ANTES (de precisarem dessas intervenções) esses mesmos doentes não tinham recursos nem acompanhamento adequado para tratarem a sua hipertensão arterial, a sua diabetes, a sua dislipidemia, a sua obesidade, ....


Não faz sentido que se administrem paliativamente (ou simplesmente sem critério...) quimioterapias caríssimas em doentes em estádio terminal, quando esses mesmos doentes não tiveram dinheiro ou não havia recursos para fazerem rastreios colonoscópicos, mamografias, citologias do colo, ....


Não faz sentido que se faça diálise a doentes acamados, escariados, dementes, que não têm família e vivem abandonados em lares sem qualidade de vida, ou sem dinheiro para sequer se alimentarem adequadamente.


E por aí fora.


Uma das minhas actividades consiste em seguir doentes com certas patologias, alguns dos quais requerem um tratamento (de fornecimento exclusivamente Hospitalar) que custa cerca de 1500 euros mensais ao Estado (sendo gratuito para o doente). O Estado Social, e bem, permite que qualquer cidadão com critérios para esse tipo de tratamento o obtenha, independentemente dos seus recursos financeiros.
Esse tratamento é a única solução às dores que sentem. Ou, nos piores casos, a melhor. Muito gratificante para quem trata estas doenças, como podem calcular.
O drama, é que estou convencido que alguns dos meus doentes, pelas más condições de vida em geral em que vivem, se soubessem quanto custa o tratamento e lhes colocassem a alternativa de ficarem com o (muito) dinheiro que custa ao invés do remédio, optariam pela primeira opção, e aguentariam as dores.
"É porque não lhes dói que chegue", dirão alguns. Mas dói.


O problema é que concebendo-se a saúde, não como uma colecção mais ou menos grande de patologias, mas sim (como aliás diz, e bem, a definição da OMS) como sendo um estado genérico de "bem estar físico e psicológico", esses doentes teriam razão na troca, tal o sofrimento que a falta de meios materiais lhes provocam.


O que será melhor, as dores articulares, ou o frio, a fome, o desamparo?
A vida não é fácil....

2 comentários:

Izabel Xavier disse...

O que a OMS divulga como sendo saúde e/ou bom para a saúde é algo IDEAL mas não alcançável à maioria das populações do mundo. Se a mesma [OMS] declara que saúde é bem estar físico e psicológico então todos os países que seguem a linha de tratar APENAS dos sintomas não estão preocupados com a saúde e sim com a doença. Se trouxermos a problemática para a esfera brasileira a questão é realmente preocupante... onde está a medicina preventiva? em que lugar deixamos o bem estar? ele é apenas para quem, a priori, pode bancar? E a saúde de todos?
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Até quando vamos permitir que a industria alimentícia e farmacêutica brinquem com nossa saúde?

Até quando será normal quem empresas vendam produtos já conhecidos como maléficos à saúde, lucrem com isso e perpetuem por nosso país as estatísticas de diabéticos, hipertensos, cardíacos, obesos, anêmicos, etc, etc, etc?
"Até quando você vai levando porrada, porrada. Até quando vai ficar sem fazer nada?"

Mauro_G disse...

Tomei a liberdade de o citar no meu blogue: Espero que não se importe.

http://saudeeportugal.blogspot.com/2011/06/eutanasiasporque-agora.html