Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

Patrões



As sociedades europeias fazem gala de terem legislação que protege o povo da "tirania intrínseca" dos "patrões", olhando com alguma sobranceria e nojo para sítios mais liberais ou libertários, sendo o exemplo mais comumente apontado o dos EUA, onde se admite que a sociedade é menos "solidária", menos sensível à pobreza dos desgraçados e às desigualdades sociais (que, como se sabe, e por nossa definição, é sempre culpa de circunstâncias alheias ao indivíduo, ou por outrras palavras, culpa dos outros, dos "mais abastados").

Há pois por cá essa cultura de culpabilização do sucesso, e de desculpabilização de tudo o resto. O mérito é sorte. O trabalho é privilégio. A inteligência é arrogância. Do outro lado, o demérito é azar, a preguiça é discriminação, a ignorância é condição natural da qual se é sempre inocente.

Enfim, de acordo com esta cultura que é a minha, tenho que confessar sentir-me violentado pelo meu "patrão". O meu patrão contratou-me por x, e retirou 10% ao meu salário sem apelo nem agravo. Depois, apesar de termos acordado 14 salários anuais aquando da minha contratação, decidiu unilateralmente passar a pagar-me apenas 12. Finalmente, depois de anos a obrigar-me a trabalhar mais horas que aos demais trabalhadores (o meu patrão legisla as leis que depois executa, não sendo passível de ser levado à justiça, que já agora convenientemente não funciona quando dá jeito que não o faça), pagando-me em função dessas horas que me obrigava a fazer, decidiu agora que me iria pagar metade pelas mesmas (e ainda que tenha recentemente voltado atrás, não interessa, fê-lo apenas por ter constatado que de facto não conseguia assegurar o meu trabalho de outra forma, ou seja, com a minha precaridade).

Este "patrão" é o sacro-santo Estado, que por esta Europa fora se endeusou como forma suprema de garante da justiça que falta aos outros modelos sociais.

Mas eu estou farto deste patrão, que a mim parece cada vez mais um caloteiro hipócrita, na medida em que, tendo esse poder, não permite que eu tome as mesmas decisões para com os meus credores. E já tentei, dizer ao meu banco que passava a pagar menos 25% da prestação da casa, aos senhores da luz, do gás e da água a mesma coisa, aos senhores das gasolineiras, dos carros e dos bens de consumo em geral que não pagava mais os 23% do IVA. Tentei e não resultou....

Ou seja, apesar de toda esta aculturação, acho que aqui há gato. Começo a ficar curioso de saber como será ter um patrão que celebra comigo um contrato, e que o cumpre. Ou que, se não o cumprir, é levado à justiça e é punido de acordo com leis claras e que não mudam em função das suas conveniências. E esse patrão imaginário, desgraçadamente "liberal" ou "libertário", parece-me, curiosamente, muito atractivo à luz dos presentes dias.

Julgo que vou desde já é começar a procurá-lo, porque do outro começo a ficar farto....

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

We (Don't) Want You


Vou contar uma pequena história da minha vida (bem sei que o interesse é relativo, mas o espaço é meu, por isso...).

Cresci no seio de uma bela família de classe média-baixa, quiçã mais abastada que a média, fruto de terem procurado os meus progenitores sustento por outras bandas que não este ingrato rectângulo onde vivemos agora.
Deram-me uma educação (na altura não era para todos essa possibilidade), e sem me ter apercebido de onde teria vindo a ideia, a minha mãe a partir do meio da minha adolescência começou a ventilar aos nossos próximos que eu "gostaria de ser médico".
Nunca fiz muito caso desse seu delírio, mas enfim, sempre fui bom aluno na escola, e à falta de melhor alternativa, chegada a altura, lá optei por enveredar por Medicina.

Vocação? Nem sei bem o que é isso ao certo, acho que as vocações que eu eventualmente tive era ser polícia para aí até aos 10 anos de idade, futebolista até ao 14 e jornalista desportivo depois disso. Medicina? Não, não me apetecia descobrir a cura para o cancro nem partir para África em missão humanitária aos 18 anos. Como disse, à falta de melhor "vocação", parecia-me engraçada a perspectiva, para um rapaz espertinho como eu, de atingir um estatuto que eu próprio dava aos médicos, que sempre vi como entidades estranhas que conseguiam saber coisas que me pareciam simplesmente fora do alcance do comum dos mortais, para além que me parecia que todos ganhavam a vida pelo menos de uma forma bem satisfatória, isto adicionado ao facto que nunca me pareceu que trabalhassem por aí além.

Ou seja, na minha doce ilusão, iria aprender a ser assim naqueles 6 anos de curso (depois descobri que eram mais 2 de Internato Geral e mais 5 de Internato Complementar), e que depois disso teria dinheiro e tempo para desfrutar da vida. Era a recompensa por ter sido bom naquilo que todos me pareciam pedir para fazer bem: estudar.

No 4º ano da faculdade, tinha eu uns 22 anos, entrei pela 1ª vez na minha vida num Hospital, e contactei pela 1ª vez com doentes internados, e até hoje, bem, aí não vos vou maçar mais com o desenvolvimento desta história.

Grosso modo não me enganei (ou a minha mãe, melhor dizendo, não se enganou). De facto, quase 20 anos volvidos, sinto-me bem com os meus conhecimentos na matéria, confortável no exercício da profissão, sinto-me realizado (muito à custa -e esta é uma característica da "Classe" em geral- de um ego que se alimenta a si próprio), ganho bem a vida (mesmo que isso não queira dizer que seja jogador de golf, que passe as minhas férias no estrangeiro ou que me deleite em SPA's no fim-de-semana), e só a parte do volume de trabalho é que me saiu um pouco furada, relativamente às minhas expectativas.
E, sorte suprema, até gosto muito do que faço, ou seja, desenvolvi a tal "vocação", que me parece improvável que possa existir honestamente aos 18 anos (ainda que não exclua a hipótese de haver por aí muito adolescente borbulhento muito mais maduro do que aquilo que eu era...).

E esta historieta para dizer o quê, perguntam os pacientes leitores que chegaram a este parágrafo?

Para dizer que caso tenham uma progenia semelhante à que eu tive, não se deixem enganar, porque as coisas mudaram.
Não enveredem, jovens pré-universitários, na sequência da excelência no desempenho do que vos pedem no liceu, por este ramo. Invistam noutras áreas, porque aqui em Medicina, o objectivo desta sociedade em que nos encontramos parece ser apenas e só um: desvalorizar tudo aquilo que vocês fizerem ao longo da vida, para vos nivelar pelo mais baixo que conseguirem, e têm-no conseguido muito bem.

Vão-vos começar por chamar "privilegiados", como se alguém vos tivesse oferecido o curso e ele não tivesse sido alcançado fruto do vosso esforço, do vosso trabalho e de privações. Estão a fazer proliferar Universidades e médicos com o único intuito de provocar desemprego, para, dizem, tornar mais "competitivo" o sector, quando na realidade têm por único objectivo poderem-vos pagar o que quiserem, com a alternativa de vocês não conseguirem ganhar nada. E dir-vos-ão, se não estiverem satisfeitos, ou se não comerem e calarem, que podem sempre emigrar (o que, vá lá, não será muito difícil, caso se mantenham por cá os actuais padrões de qualidade na formação). Vão-vos dizer que vocês são "técnicos de saúde", e não médicos. Vão-vos tratar, fazendo publicamente gala disso, como se trata "qualquer funcionário público". Vão insinuar que aquilo que fazem pode ser feito com a mesma eficácia por diversos outros profissionais, que não tiveram que trabalhar metade do que vocês trabalharam para depois reivindicar competências equivalentes às vossas.
E o povo, esse que tanto vos admirou por serem trabalhadores, atinadinhos e dedicados aos estudos, é o mesmo que vai deixar de gostar de vós a partir do momento em que lerem o juramento de Hipócrates, passando a aplaudir e a votar naquele que mais vos achincalhar com voz grossa.

Ou seja, nem reconhecimento (que eu ainda pude ter), nem dinheiro (que eu ainda pude ter), e muito menos qualidade de vida no trabalho (que, salvo raras excepções, de facto nunca existiu para a maioria).

Não desperdicem as vossas capacidades intelectuais, quando chegar a hora de escolher um caminho terminado o liceu, em Medicina. Dá trabalho, muito trabalho, e deixou de compensar por todos os motivos que referi.
Deixem que se vulgarize o que de qualquer forma vai sendo vulgarizado, pois aqui vocês deixam de ser "inteligentes" a partir do momento em que escolhem Medicina, e passam a ser "marrões" com motivações meramente mercenárias.

Mas gostam da área de "Saúde"? Não sejam parvos, há milhentos de alternativas à Medicina bem menos trabalhosas e bem mais compensadoras, mesmo em "Saúde", onde as probabilidades de brilharem com muito menos esforço são bem melhores. E com mais futuro.

Quem vos avisa....

Sábado, 7 de Janeiro de 2012

"O Amor à Camisola": Retrato de uma Insatisfação Colectiva


"O Serviço Nacional de Saúde funciona 24 sobre 24 horas, 7 dias por semana, semana após semana. Como é isso é feito?
Os enfermeiros e os auxiliares trabalham por turnos. Os médicos não.


Os médicos têm um horário “normal”, X horas por semana (35, 40 ou 42 horas, conforme o regime de trabalho), em que fazem tarefas “normais”: cuidam dos doentes internados nas enfermarias, fazem consultas, exames complementares, cirurgias.... Dentro dessas horas “normais”, estão incluídas 12 horas de “urgência”. São horas em que prestam serviço nos Serviços de Urgência, Unidades de Cuidados Intensivos, Urgências Internas de apoio aos serviços, etc...


Porém, as 12 horas semanais de “urgência” de todos os médicos não chegam para assegurar o funcionamento 24 sobre 24 horas, 7 dias por semana, semana após semana, de todos os serviços de saúde que não podem parar.
Por esse motivo, há mais de 30 anos que, por lei, os médicos podem ser obrigados, mesmo que não queiram, a fazerem até 12 horas extraordinárias de trabalho por semana.


O problema é que, mesmo essas 12 horas extraordinárias de todos os médicos não chegam para assegurar o funcionamento 24 sobre 24 horas, 7 dias por semana, semana após semana, de todos os serviços de saúde que não podem parar.

Então, já há muito tempo, os médicos trabalham o seu horário semanal habitual, trabalham as 12 horas extraordinárias a que são obrigados por semana, e, muitas vezes, trabalham ainda mais períodos de 12 ou 24 horas extraordinárias a que não são obrigados, mas a que se dispõem mesmo assim. Porquê? Por motivos de dois tipos:



1) motivos financeiros: as horas extraordinárias são pagas a um valor que permite aos médicos aumentarem o seu vencimento mensal.
2) “amor à camisola”: os médicos trabalham para instituições às quais sentem pertencer. O prestígio da instituição é o seu prestígio. O desprestígio da instituição é também o seu. Quando um colega lhes diz “tenho um buraco na escala de urgência da próxima semana, não me fazes um favor e fazes mais 12 horas?”, com frequência dizem que sim, por sentirem ser um pouco o seu “dever” assegurar o funcionamento sem falhas da “sua” instituição.


O problema é que este “amor à camisola” já há alguns anos que não existe, que é passado. Porquê?
Os médicos deixaram de pertencer ao “quadro” do hospital, passaram a ser contratados a Contratos Individuais de Trabalho. As vantagens não financeiras desapareceram (ADSE, apoio na doença, segurança no trabalho e nas regras de contratação, etc..). Deixou de haver impedimento às mudanças de médicos de um hospital para outro, o que passou a acontecer com frequência. Passaram a trabalhar nos hospitais, nomeadamente nas urgências, médicos “free-lance” que fazem 12 horas de urgência neste hospital, 12 horas no outro hospital, sem pertencerem propriamente a nenhum. Os médicos deixaram de “pertencer” a este ou àquele hospital, e passaram a existir no hospital muitos médicos que lá vão trabalhar só umas horas. E daqui a uns meses já são outros.
Desapareceu o “amor à camisola”.
Sobraram os motivos financeiros. Mesmo com estes, sempre foi difícil arranjar médicos para assegurarem todos os serviços, 24 sobre 24 horas.


E agora...
Com o novo Orçamento de Estado, o Ministro da Saúde acabou com este último incentivo às horas extraordinárias. E abriu uma Caixa de Pandora da qual não se apercebeu.


Após anos e anos a fazerem horas intermináveis extra nas urgências, os médicos já não têm agora nenhum motivo para as fazerem. Já não são obrigados por lei a fazerem horas extra. Já não lhes é financeiramente compensador fazerem horas extra. Já não sentem os problemas da instituição como “seus”.


Os serviços não funcionam sem as horas extra dos médicos. Mas estes estão fartos. Aceitaram o corte de 10% no vencimento em nome da crise (como todos os outros funcionários públicos). Aceitaram o corte de 2 ordenados em nome da crise: total 23% do vencimento (como todos os outros funcionários públicos).


E até aceitam o corte no preço pago pelas horas extra.
Só não aceitam é fazê-las."


Dr Tiago Tribolet Abreu "dixit", aqui reproduzido a partir das redes sociais onde foi originalmente publicado, com a sua autorização

Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

"Ultra-Liberais"


Ventos de esperança sopram dos EUA, através da impressionante campanha do "republicano" Ron Paul, liberal convicto (o único?) da escola económica austríaca, que defende menor intervenção do Estado na Economia e na vida das pessoas em geral.
As aspas, para os que não são seguidores, devem-se ao facto dele estar encaixado no partido por razões meramente conjunturais, dado que naquele país não se faz política fora de um dos dois grandes (ele tentou no passado e não conseguiu). Razão pela qual, aliás, ele é odiado por uma facção maioritária do mesmo, só se verificando algum destaque da sua parte por ausência de alternativas realmente consensuais do verdadeiro senso da maioria daqueles eleitores. E ele lidera nos menores de 40 anos, e nos independentes que chegam ao partido (única e exclusivamente pela sua presença no mesmo).

Liberal deve advir de liberdade.

Como ele tão bem ensina, e demonstra, não há liberdade com muito Estado. O Estado retira liberdade expropriando o dinheiro dos contribuintes, para depois redistribuir uma pequena parcela pelos mesmos, arbitrariamente e sem sentido meritocrático, guardando uma significativa parte para os seus boys e girls, sob a forma de administradores de empresas públicas e tachos que tal. E o Estado perpetua-se, porque, lá como cá, dois partidos revezam-se sazonalmente, não estando por isso nada interessados em mudar um estado de coisas que tanto os favorece e aos seus enraizados lobbys.

Mas isto não é uma Democracia? O povo não pode optar diferentemente?
Não, não pode. Qualquer alternativa política, por mais séria que seja, é aniquilada por algumas tiradas mainstream dos media (controlados, evidentemente, pelo omniprsente Estado), pela desacreditação desavergonhadamente caluniosa, e pela cultura do medo. E esse medo resulta do simples facto do Estado estar em todo o lado, por tirar muito a todos (particulares, empresas...), para depois voltar a dar alguma coisa a alguns (que até podemos ser nós), mas esse "alguma coisa", de tanto que nos tiram, passou a ser quase imprescindível para a nossa sobrevivência, já não conseguimos viver sem esse "alguma coisa" que nos devolvem, e aqui estamos todos a embarcar na caravana para não morrermos de fome amanhã, ainda que estejamos a ficar gravemente desnutridos a médio-longo prazo.

Estamos reféns das migalhas que nos dão, após nos terem roubado o pão.
Mas como sempre nos roubaram parte significativa do pão, já não sabemos bem se o saberíamos gerir se, por milagre, ele ficasse inteiro para nós. E isso também assusta.
Saberíamos guardar o pão para a velhice? O Estado diz que consegue (ainda que as reformas sejam cada vez mais uma miragem, e cada vez mais insuficientes para aqueles que as têm).
Saberíamos poupar o pão para uma eventual doença intercorrente? O Estado é o"garante" da saúde "universal" (e, não se riam: "gratuita"!!), ainda que todos no meio saibamos, e até comecem a abundar exemplos, de como se consegue fazer melhor com menos.

A inveja que tenho deste empresário que agora desertou, deslocando-se para local mais civilizado, onde não lhe roubam tanto do fruto do seu trabalho e da sua boa gestão, para depois desperdiçarem o saque com uma corja de rotativos mamões. Eles, os mamões, esperneiam, mas sabem bem que são a causa dessa fuga, e só cá fica quem, como eu, não tem tanta certeza que o abandono do conforto do "país Natal" compense. No lugar dele teria seguramente feito o mesmo, só que há mais tempo, prometendo não voltar enquanto fossem os mesmos símios a mandar nisto (o que se arrisca a significar muito, muito tempo).

Somos ingleses em Nottingham, o xerife tira-nos tudo e não há Robin dos Bosques à vista, nem qualquer floresta de Sherwood a acalentar no seu seio alguma esperança de mudança futura.

Não há? Talvez haja. Talvez Robin seja Ron Paul, e talvez Sherwood seja esse país de boa inspiração no passado (que foram os EUA pré-colonialistas). Gosto de imaginar isto nestes tempos deprimentes, de ideias esclerosadas e sem ideais viáveis à vista.

Pouco Estado nas nossas vidas, ou Estado mínimo para garantia da propriedade privada, da segurança Interna e Externa, e da Justiça. E que resulta num regime de "Imposto Mínimo", a ser usado rigorosamente para aqueles fins (e, conceda-se, numas quantas alíneas sociais que importa assegurar, nem que seja para não dificultar ainda mais o desmame da "subsidio-dependência"), acabando-se as mamas para "decisores públicos" para tudo e mais alguma coisa, de "gestores públicos" de empresas insolventes, inviáveis e falidas, e dessa tacharia toda sem fim.

Não queremos Estado a dizer-nos o que podemos comer, o que podemos fazer nas nossas horas livres, o que devemos ver na televisão, nas ruas, nas salas de cinema ou no teatro.

Não queremos Estado a obrigar o nosso filho a estudar acolá, pelo simples facto de morarmos ali. Queremos pôr o nosso filho a estudar no sítio onde lhe proporcionam melhor educação, onde eles se sinta melhor e onde existam melhores condições de apoio aos pais na função educativa, de acordo com o NOSSO critério. E também não queremos que o Estado condicione professores e gestores escolares, nem que obriguem ao ensino disto ou daquilo porque assim alguém de duvidosa capacidade arbitrariamente decidiu, eles têm que poder orientar-se autonomamente, para depois nós decidirmos se optamos ou não pelo modelo que nos estão livremente a oferecer.

And so on, and so on....

Este post não tem fim à vista mas tem mesmo que acabar, e Ron Paul não será presidente dos EUA, já sou demasiado velho para começar agora a acreditar no sobrenatural que seria tanta evolução no espaço de uma única geração. Mas a semente está aí, já tem raízes e vai crescer, até secar secar definitivamente o Keynesianismo reinante de uma vez por todas. Vai levar é algum tempo....

Mesmo que o senador chegasse a tornar-se numa ameaça, ele seria seguramente liquidado, pelo simples facto de haver demasiados interesses, e demasiado grandes e poderosos, na manutenção do status quo.

Talvez num amanhã se cante.
Bem haja Ron Paul!

Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Coisas Numeradas


A OCDE volta a visitar a saúde dos seus países membros, e publica um relatório interessante, que se pode consultar na totalidade aqui.

Da leitura transversal, algumas "surpresas":
-Os indicadores principais de saúde não nos envergonham no panorama global, bem pelo contrário, e a evolução ao longo dos anos é positiva;
-Não se gasta muito em saúde, quando comparados com outros países (e face aos resultados);
-Tratam-se muito mal os dentes por cá;
-Não há assim tão poucos médicos, e estão mal distribuídos;
-Há relativamente poucos de enfermeiros no activo, para demasiados formados;
-A Nefrologia (incluindo os transplantes renais) tem números impressionantes à escala mundial;
-Não há cuidados continuados em Portugal, e o investimento é praticamente nulo;
-Parece haver ainda algo a melhorar quanto à produtividade médica, mas os números são confusos;
-Consomem-se demasiados remédios, ainda que no capítulo dos "antibióticos" não estejamos tão mal quanto eu pensava;
-Há demasiadas cesarianas;
-Há cada vez mais gordos, e demasiada diabetes "do adulto";
-Morre-se muito menos "acidentalmente".

Isto é um cheirinho do documento que poderá e deverá ser esmiuçado de formas muito mais diversas.
Mas lá que este sector parece não merecer a espremidela financeira que se avizinha, proporcionalmente semelhante (ou até superior) à de outros neste país cujos méritos estão muito menos bem definidos, lá isso não.

Enfim, não é nada que me parece que vá sensibilizar muito os nossos gestores de mercearia....

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Isabel Vaz


“Isabel Vaz aponta a vantagem da nova PPP de Loures: “o Dr. Vítor Gaspar inscreveu uma verba no Orçamento, que é exactamente quanto lhe vai custar”.
O novo Hospital de Loures – a primeira Parceria Público-Privada do grupo Espírito Santo Saúde – abre portas a 19 de Janeiro. Este foi o mote para uma conversa com a presidente do Espírito Santo Saúde, Isabel Vaz sobre a reorganização do parque hospitalar de Lisboa, sobre os riscos das PPP e sobre o contexto actual da Saúde, sem esquecer a invariável discussão sobre o papel dos privados: “É por essa mentalidade, do medo do lucro, quando o lucro é o que faz a sociedade andar, que continuamos um país atrasado”, defende.
Fala-se que anda a contratar médicos com propostas irrecusáveis e ordenados milionários, numa altura em que os médicos do SNS vão sofrer cortes nas remunerações. É verdade? 
Primeiro ponto: o hospital de Loures é público. Todos os médicos que vêm trabalhar para Loures vêm fazer serviço público. Segundo, nós comprometemo-nos com o Estado a fazer mais barato do que aquilo que o Estado consegue fazer. Não consigo perceber o que as pessoas querem dizer com propostas irrecusáveis. Estamos a pagar aquilo que no nosso país, com o contracto que temos, nos é permitido. Temos uma grande vantagem em relação aos nossos colegas, é que Loures é um hospital de raiz e como tal estamos a escolher as equipas. Ou seja, não tenho que subsidiar médicos, enfermeiros, auxiliares, que não querem trabalhar, e que não contribuem para o sucesso das organizações. Não tenho que conviver com funcionários que não produzem aquilo que deviam produzir, com a qualidade que deviam prestar.
O Hospital de Loures é a primeira PPP do Espírito Santo Saúde. Haverá diferenças na gestão entre os hospitais do grupo ESS e Loures? 
As diferenças vêm da estrutura de financiamento do hospital. Ou seja, as seguradoras, os financiadores privados trabalham hoje com uma estruturação completamente diferente daquilo que são os hospitais públicos. No terreno o que é importante é tratar os doentes exactamente da mesma forma.
Mas numa PPP o risco é maior?
É muito maior. Nas PPP o Estado passa para os privados uma quantidade total de riscos.Posso dizer-lhe que desde a nossa proposta o IVA aumentou de 19 para 23%. É um risco nosso. Quando fizemos a proposta ao Estado o mundo era um, agora é outro. Os ‘spreads’ tiveram aumentos violentíssimos e o acesso ao crédito na banca faz-se em condições completamente diferentes. E tudo isso foi assumido pelo sector privado. O Dr. Vítor Gaspar inscreveu uma verba no Orçamento, que é exactamente quanto lhe vai custar.
Mas nas PPP não há o risco da quebra da procura.
Nesse aspecto, dentro do Serviço Nacional de Saúde, não há o que é no fundo o risco-mor do sector privado que é o de os doentes não nos escolherem.”

Esta entrevista é um hino à meritocracia, e um atestado de disfuncionalidade e incompetência das instâncias públicas que regem o SNS.
A Dra Isabel Vaz propõe-se fazer aquilo que o governo faria por 100, cobrando ao Estado apenas 90. Cobrando 90 ao Estado, ela ainda vai dar 10 de lucro aos privados que serve. Ou seja, vai fazer por 80 aquilo que o Estado faria por 100, e vai fazê-lo melhor. Porque tem melhores condições físicas, estruturas melhor pensadas, produtividade optimizada. E, sobretudo, porque tem melhores profissionais ao seu serviço. Porque paga melhor, apesar de ter 80 ao invés dos 100 das entidades públicas homólogas para distribuir.
A Dra Isabel Vaz, sei-o de fontes que lhe dão serventia, só encontra paralelo à sua generosidade para com quem trabalha bem, na sua intolerância para as abéculas inúteis que por cá proliferam, e que pelos vistos nem ela consegue filtrar a 100%. E a generosidade traduz-se em flexibilidade nos horários de trabalho (os serviços existem para servir eficazmente o público, e são flexíveis, sempre em torno desse único objectivo, não havendo medidas autistas de "pôr dedos" e de horários rígidos onde o que se pretende é 100% de funcionalidade), em incentivos pela boa produtividade, adaptada a cada especialidade, e em bons salários base, em boas condições de trabalho, em boas condições de descanso e lazer sempre que esse é possível (sem haver "tabus" de estar alguém numa dada altura "sem fazer nada", desde que o seu serviço esteja bem assegurado e a disponibilidade seja total).
A Dra Isabel Vaz não corta a direito. A Dra Isabel Vaz discrimina! E a discriminação da Dra reflecte-se muito positivamente nos que trabalham bem, sendo desagradável a todos os outros.
Valha aos primeiros a Dra Isabel Vaz, esta ilhota de sanidade deste país esquizofrénico. Para os outros resta sempre o SNS....

Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Fossa (s)Ética (com acordo ortográfico, porque fica bem no trocadilho...)


Não tem a ver com Filosofia Política, sou segura e convictamente mais Liberal (ou Ultra-Liberal, neste país tão amante das hipérboles e rótulos) que este pseudo-liberal governo que se nos afigura, antes cristalizador do status quo anti-meritocrático de sempre, por mais fragrâncias de mudança com que nos pretendem distrair as narinas que pulverizem.

Mas até para a estupidez e cretinice devia haver limites, e há lapsos demasiado graves para serem simplesmente esquecidos em desmentidos e explicações bacocas de aparelhistas auxiliares.

E falo, evidentemente, da sugestão de orientação além-fronteiras que o nosso 1º decidiu fazer a uma determinada classe que este país um dia escolheu formar (sim, porque os numerus clausus não surgem de uma entidade abstrata). Agora percebe-se melhor qual a motivação do alargamento dos numerus clausus das Medicinas nacionais, mesmo em instituições com capacidade duvidosa, para aqueles que acreditavam noutra mais nobre, e a motivação afinal só pode ser mesmo aquela que agora foi revelada: precariedade para os que ficam e emigração para os outros todos.

Mas voltando ao tema, e explicando muito rapidamente, existe um diferença, caro 1º, entre emigrar para um determinado país, e passar lá 2 ou 3 semanas de férias ou alguns meses em estágio. Percebe-se a confusão, quando atentamos à sua profícua experiência de vida, mas não é por esse motivo que lhe deveremos perdoar as infames palavras.

Emigrar implica cortar laços criados desde a nascença com uma língua, com uma cultura, com uma geografia, com uma gastronomia, com amigos e com familiares. Implica deixar atrás de si tudo, ou pelo menos muito, do que nos identificava enquanto pessoas até à tomada e efectivação da decisão de emigrar. E o corte de laços é profundo, duradoiro e doloroso, são meses entrecortados por eventuais férias, assim o permita o novo status financeiro que se pretendia em primeiro lugar, com novo corte duradoiro de seguida, e assim repetidamente ao longo de uma vida de sucessivas recorrências desse enorme desgosto. E há a tal saudade, que esfaqueia a alegria do dia-a-dia. Há a tristeza de ser estrangeiro e cidadão de segunda num sítio estranho, a troco de comida, educação e bem-estar para os filhos. E temos por cá muitos exemplos disso, homens e mulheres bravos e doridos por um passado destes que agora recomenda, e S.Exª saberia isto tudo se, em vez de lhes invejar o carro, a casa ou a reforma, lhes tivesse alguma vez dirigido a palavra e conversado com eles....

Não são férias, caro 1º.
Não é como passar as semanas a estudar numa cidade "longe da terra" onde se nasceu.
Não é como fazer um doutoramento ou um estágio com prazo, ou até um curso, tudo isso tem prazo.

E mais do que constatar que o nosso "timoneiro" afinal é um cretino imaturo, secundado por uma abécula comensal ainda mais pueril ou carente de hormona tiroideia, desespera-se perante esta afinal total incapacidade de colocarmos alguém capaz a governar-nos, de uma vez por todas.

Os alemães e os franceses, que me perdoem os crentes, não podem fazer pior que isto....

Domingo, 18 de Dezembro de 2011

Corporativistas de Pacotilha


É o que somos, os médicos enquanto classe.

Um leitor, julgo que Enfermeiro, faz uns comentários ao post anterior que acabei por perceber serem uma crítica ao que ele julga ser uma "excesso" de rendimentos por parte de alguns médicos com as horas extraordinárias. E levanta a lebre de uma mudança nos horários para contornar esse "despesismo".

O pantanal é tal que se torna difícil delinear um caminho por onde iniciar a resposta....

Para começar, não discordo do que ele diz. O problema, repito, está na dependência, por cretinice de sindicatos e afins ao longo de décadas, dessas horas extraordinárias para o vencimento ser decente. Está no facto de se ter achado normal intergrar-se horas extraordinárias no horário normal de trabalho, camuflando assim uma base salarial insuficiente.

O salário já é excessivo para alguns? Meu caro, não é a mim que precisa de fazer essa pedagogia, estou cansado de o saber e de amargar com essa realidade, mas lamento informá-lo que isso não vai lá com cortes a direito através da classe. Com isso, só vai conseguir que os que trabalhavam afincadamente em prol das suas instituições e dos doentes, e que merecem muito mais do que alguma vez receberam, se desmotivem e revoltem contra essa perseguição cega, que pune quem merece e quem não merece, sendo que os primeiros acabam sempre por sair por cima na contabilidade (quanto mais não seja porque qualquer coisa é mais do que deveriam receber).

Então como é que, com Directores de Serviço incapazes, se melhoram as coisas? Responsabilizando-os pelos resultados dos Serviços que dirigem, exigindo qualidade e responsabilidade, exigindo poupança onde se pode poupar e parabenizando os que fazem um bom trabalho, substituindo higienicamente os outros até se acertar nas fórmulas para cada sítio, com critérios iguais para todos.

Então e não há já Directores de Serviço muito bons por esse país fora? Há sim senhor, só que ter bons Directores com as actuais leis laborais em vigor na função pública, aliadas à escassez de mão de obra médica e à total ausência de avaliação dos Serviços, é o mesmo que lá ter um trolha ou um sapateiro. Não adianta de nada, e de menos ainda adiantará a chamada "avaliação dos funcionários". O único que deve "avaliar" os seus funcionários é o respectivo Director, e não é com uma "nota", é pelo seu desempenho, devendo o Director deve ter total liberdade de fazer uma equipa por ele escolhida, à sua imagem e de acordo com as capacidades dos seus elementos, para depois, repito, SEREM OS DIRECTORES E APENAS ELES RESPONSABILIZADOS PELOS RESULTADOS OBTIDOS com a sua gestão! Mas enfim, isso vale para toda a administração pública, e não custa a perceber que não interessa nada implementar um sistema desses neste país dos cargos com rotação rosa-laranja, em que a competência das chefias é o que menos interessa avaliar pelo status quo que se auto-perpetua, e em que fazer bem ou não fazer nada vale o mesmo.

Para poupar, e poupar a sério, não esta merda que querem fazer com as horas extraordinárias sem consideração pelo facto de terem sido sempre "ordinárias" (e fazer de conta que se desconhece o facto é o melhor remédio para o "povo" não perceber as razões que se possam invocar neste conflito):
-Porque não olhar para os "SIGIC's", o tal "combate às listas de espera", que não são mais que um prémio a quem não trabalha quando devia para depois "resolver" o que não fez no seu horário de trabalho a preço de ouro nas horas livres?
-Ou porque não olhar às "prevenções" que abundam por esse país fora, porque não escrutinar quantas vezes são necessárias, e se vale mesmo a pena continuar a pagá-las?
-Porque não averiguar se é mesmo necessária a presença de todas as sub-especialidadezecas em qualquer chafarica provincial, quantas vezes pagas a peso de ouro, quando a 100 ou a 200 quilómetros (ou infinitamente menos nas grandes cidades) existem os grandes centros para onde poderiam perfeitamente ser encaminhados os poucos casos que delas precisem (chama-se: racionalização de meios)? Ou averiguar da real necessidade de "Urgências" de todas as especialidades "centrais", essas sim horas não raras vezes inúteis, quando desenquadradas de grandes Serviços com real capacidade interventiva?

Pequenos exemplos: adianta-me alguma coisa ter um cardiologista de Urgência sem uma Unidade de Hemodinâmica aberta? Serve para quê, para fazer trombólise (que hoje em dia é eficazmente administrada por qualquer enfermeiro numa qualquer SIV)? Para pôr pacemakers provisórios (que qualquer Unidade de Cuidados Intensivos digna do nome é capaz de assegurar)?
Adianta-me alguma coisa ter um neuro-cirurgião de Urgência? Quando a poucos quilómetros existe uma Unidade com uns poucos?
Adianta-me alguma coisa ter um Neurologista de Urgência? Quando qualquer Hospital com uma boa articulação informática com neuro-imagiologistas faz trombólise sem a sua presença física? E os casos clínicos mais complicados da Especialidade podem facilmentre ser encaminhados para um Centro, ou se não for emergente ser vistos algumas horas depois no horário regular desses especialistas, sem prejuízo para o doente?
Adianta-me alguma coisa ter Unidades diferenciadíssimas, para tratar algumas dúzias de doentes por ano que poderiam perfeitamente ser encaminhados para outras instituições (assim se ARTICULEM as coisas), em todos os hospitais desta praia onde vivemos?

E porque não observar e analisar, para depois poupar, porque é que Serviços semelhantes gastam montantes brutalmente diferentes no seu dia-a-dia? Porque é que uns justificam os antibióticos que prescrevem e outros não? Porque é que nuns sítios se monitoriza os doentes com 500 euros e noutros com metade? E por aí fora....

Mas não, vai ser nas horas extraordinárias a eito. Em muitas ilícitas, bem o sabemos, como ilícito é o próprio salário base de muita gente que chula o Estado com a sua mera presença nos seus quadros, tolerada pelas infames leis laborais que nos "protegem" de nos vermos livres dos incapazes, de podermos repartir o trabalho com gente válida em vez de sermos parasitados no nosso dia-a-dia por aqueles, mas não interessa, no essencial é importante não mexer, e o essencial seria alguma promoção da meritocracia, do trabalho com qualidade, da discriminação positiva (bem como da negativa).

O problema, meus caros, é que também há muita boa gente que vai ver o seu salário reduzido, não de 10% (há um ano), nem de mais 15% sobre o restante (os subsídios de Natal e de Férias), nem de mais não-sei-quantos % de subidas de IVA e outros impostos, mas ainda de uma fatia ainda mais significativa dessas todas no seu salário "base", que incluía as tais "horas ordinárias".

E aí vai incidir sobre toda uma franja de profissionais com a qual seria prudente não mexer muito, porque andam calados e a fazer um trabalho demasiado penoso e ingrato a troco de demasiado pouco, e que menos ainda pretendem que agora seja. Falo de Especialistas nucleares, de Medicina Interna, de Pediatria, de Cirurgia Geral, as grandes especialidades generalistas sem as quais nenhum hospital consegue sobreviver.
Se quer a minha opinião, salvo equívoco total acerca de como se sente esta boa gente, este governo e este ministro, por mais fundamentais que estejam a ser as medidas que vão tomando, não sabem no que se estão a meter.

Estão a liquidar a pouca vontade que às vezes restava para trabalhar em condições que nunca foram boas, e a pouca motivação que havia em nome de um "mal menor".

E eu acho que este imposto discriminatório sobre os nossos rendimentos (que são "trocos" para quem se alimenta das privadas), desta feita, vão ser retribuídos. E vão ser retribuídos em tempo livre, para passar em casa ou a fazer outra coisa qualquer.
E que seja, maneira de dizer, "o que Deus quiser"....

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Horas Ordinárias



Pois o prefixo "extra" só pode ser uma anedota, na realidade actual e passada das ditas horas....

A realidade, para os desconhecedores do meio, e para a generalidade dos incautos que ingressam na profissão entre os quais eu me incluía, é que os horários de "35 horas" ou de "42 horas" eram, na realidade, respectivamente de 47 e 54 horas semanais de trabalho, pois se assumia (e é obrigatório por lei) a prestação de mais 12 horas extra de Urgência (a somar às 12 incluídas no horário de trabalho "regular").

Ou seja, todo o médico podia ser obrigado, e era-o com a excepção dos raros grandes centros hospitalares que vivem na abundância de médicos, a fazer o seu horário + 12 horas "extra" de trabalho de Urgência.

Essa pérola legislativa, exclusiva da profissão, remonta a 1979, altura em que terá havido negociação dessa cláusula, e em que, por carência de médicos, se admitiu essa ímpar imposição no panorama laboral português, a troco de serem horas extra "mais bem pagas" do que seriam noutras circunstâncias.
Isto é, obrigava-se a trabalhar mais, mas também se pagava melhor.

E esse facto foi catastrófico para a negociação salarial futura da classe. Como o salário médico passou a incluir rotineiramente o "basal" somado ao que advinha das "horas extra", aquele basal foi negligenciado nas sucessivas negociações, desde que tudo somado desse (e dava) uma boa quantia. De extraordinárias como se vê só tinham a formalidade, uma vez que na prática pertenciam à regular folha salarial de todos os meses. E tratando-se de uma quantia que, note-se, nunca permitiu melhor reforma (porque era rendimento "extraordinário", ainda que praticado com regularidade semanal), autoriza até que agora, hipocritamente, se insinuem ilegitimidades na sua atribuição por parte de governantes que de burros não têm nada na manipulação da opinião pública, espremida até ao tutano pela austeridade.

É claro que, após 3 décadas de rotineira prática de 12 horas extraordinárias obrigatórias (praticadas em serviços de Urgência) somadas às 35 ou 42 horas de trabalho semanal (incluindo-se nestas últimas, repito, 12 horas de Urgência), as 47 ou 54 horas de trabalho semanais foram sendo consideradas por quem as praticava as horas "basais" das quais resultava um determinado salário, com o qual se passou a contar no final do mês. E passou-se também, na classe, a só contar como realmente "extraordinárias" as horas que efectivamente eram praticadas voluntariamente para além dessas (e que acresciam à "base" que já incluía as 12 horas obrigatórias).

É de uma desonestidade sem limites insinuar-se que há excesso de médicos num contexto em que os mesmos são obrigados à prática dessas horas "extraordinárias" de trabalho.
É de uma falta de vergonha colossal (pois é, eu também sou de modas...) pretender-se que os médicos continuem a ser obrigados a fazer essas horas "extraordinárias", pagando-lhes metade pelas mesmas por decisão unilateral do ministério respectivo.

E por isso julgo ser DEVER de todo e qualquer médico neste país, pelo menos aqueles que pugnam pelo seu bom nome (e não de forma lata no "bom nome" da classe), o qual é posto em causa nestas atitudes grotescas da tutela do momento, de NÃO FAZER GREVE NENHUMA, mas sim de, simplesmente, cumprir religiosamente o seu horário regular de trabalho, deixando, como é da vontade destes senhores, de fazer uma única hora extraordinária que seja no SNS, sendo meramente coerente que deixe de ser obrigatório fazê-las.

Vai custar? Vai pois, o dinheiro do "salário base que nunca o foi" é pouco, comparativamente ao que estávamos habituados incluindo as "horas extraordinárias que nunca o foram", para mais privados de dois dos nosso 14 salários anuais e de 10% do seu total, como sucedeu com a restante administração pública. Mas é vital, nem que seja por uma questão de honra (o que por seu lado não está nada na moda, mas que fica sempre bem invocar de quando em vez...).

Eu cá, que não tenho actividade privada e que vivo exclusivamente das funções públicas que desempenho (e já agora bem, modéstia à parte), não irei fazer nem mais uma hora "extraordinária", como aliás é anseio deste orçamento, a partir do momento em que se esclareça legalmente essa questão da obrigatoriedade das 12 horas, que passa a ser infame no contexto actual em que nos pretendem obrigar a fazer mais que a nossa obrigação por metade do preço, sem sequer nos pedir licença, e com insultos pelo caminho.

E vou viver, com menos meios, mas com mais tempo para a minha família e outras coisas às quais nunca me habituei mas não me importo de experimentar, como por exemplo não passar sistematicamente uma ou duas noites acampado fora de casa a atender Urgências, por períodos de 24 horas consecutivas, ou viver sem a sensação de cansaço ao ter que assegurar um dia normal de trabalho exausto depois daquelas Urgências de 24 horas, ou viver sem passar sistematicamente fim-de-semana sim, fim-de-semana não no Hospital.

E sabem que mais? Sou bem capaz de passar a viver melhor, muito melhor....

Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011

Carlos Martins, Gustavo e a Leucemia


Uma criança está doente, corre risco de vida e precisa de um transplante com uma medula o mais compatível possível, é filha de uma estrela de futebol e, como tal, o seu drama comoveu o nosso pequeno mundo rectangular à beira-mar plantado.

Somos muito hipócritas, todos, quando nos julgamos bons samaritanos ao mobilizarmo-nos neste caso, como se não existissem outros semelhantes, todos os dias de todos os meses, há muitos anos a esta parte.

Por isso não se iludam: os que doarem a sua medula por terem sido chamados à atenção neste caso particular (nunca tendo sido sensibilizados para esta questão), e mantiverem disponibilidade futura para casos sobreponíveis, bem como os que já antes doavam, esses sim, mas só estes, são verdadeiros e dignos altruistas, merecedores da nossa admiração e respeito. Porque são maiores, e tão maiores, ainda que anónimos, que a esmagadora maioria miudinha que os rodeia.

Todos os outros são patéticos indivíduos que se vão incomodar apenas e só para fazer o frete da moda, por se tratar do filho de um futebolista famoso, imbuindo-se de uma moralidade que não têm nem passarão a ter.

Ou seja, não são altruistas, não são melhores que os outros, aliás não valem mesmo um chavelho, numa perspectiva social e global de cuidados de saúde, e estão-se a marimbar para todas as crianças e adultos que, desde sempre e para sempre, se depararam, deparam e depararão com este e outros problemas semelhantes, em que o seu destino vital passa por haver uma dádiva orgânica de alguém a troco de nada (seja sangue, um rim, medula, e por aí fora...).

E isto é um sintoma nauseante de hipocrisia, esse exercício travestido de benevolência, que não deixa de me revoltar as entranhas.

Posto isto, que Gustavo viva muitos e bons anos com saúde e sem leucemia, e que os seus pais tenham a possibilidade de lhe dar todo o amor que ele merece, e que este sofrimento de ter um filho em risco de vida, que ninguém devia ter que padecer, tenha fim a curto prazo. Assim dito, com a sinceridade de um Pai, e com a empatia de quem espera nunca ter que passar por calvário sequer parecido.

O Gustavo, MAS TAMBÉM o Miguel, o Pedro, o João, o Paulo, o Gonçalo, o André, o Nuno, o Diogo, o Fábio, o Tiago, o Abel, e todos os (muitos) outros que existem e de quem não se fala, e todos os seus sofredores pais, que não têm a bênção mediática de Carlos Martins.

Estes sofrem, e às vezes morrem, na sombra onde sempre me encontrei.
Talvez seja só por isso que me ofusca tanto, nestes dias, este tão iluminado tema da nossa praceta....