02 Julho, 2009

Confissões de um Médico

Já que praticamente só amigos e família se deslocam aqui bimensalmente para ler estas linhas, decidi dissertar sobre um facto banal da minha vida pessoal.
Banal, que não é sinónimo de pouco relevante (para mim): vou-me mudar deste apartamento, em que ainda me encontro, para uma moradia, em parcela de terreno rodeante significativa.
Aviso desde já os 3 ou 4 anónimos que aqui se deslocam (e logo, não me conhecem) que não, não gosto de jardinagem nem de agricultura, os insectos fazem-me especial confusão (afinal, serão mesmo necessários? não se poderia tentar exterminá-los? as consequências seriam mesmo incomportáveis com a vida humana?), o ar puro não me incomoda (desde que não altere o sempre renovado e agradável sabor dos meus "Camel") nem pretendo ter qualquer responsabilidade numa putativa dieta mais "biológica", nomeadamente à base de produtos do campo (do meu, pelo menos, duvido que alguma vez venha a provir).
Não, o que me motiva mesmo a abandonar o meu saudosamente higiénico e desempoeirado apartamento, cuja esterilidade sei que me vai deixar recorrentemente nostálgico, são mesmo os mais indisciplinados dos parasitas todos que tive oportunidade de conhecer: os meus ipsi-specimens, ou seja, vós todos, que me rodeais. Os meus filhos? São a desculpa que eu precisava para convencer também a minha esposa, com os convencionais argumentos do "ar puro" e "espaço para brincar e ter um cão"....
A minha "quintinha" vai, de facto, ser constituída por uma barreira geográfica em toda a sua volta, destinada a repelir a passagem de quaisquer seres não-voadores, e que pretendo compor com uma farta sebe, no sentido de nem sequer ter que me lembrar que partilho este planeta com outros seres. Depois está ainda composta por um filtro (vulgo "portão"), que só vai deixar passar as substâncias que eu permitir. Irei ainda compôr o ramalhete com um ou dois ferozes canídeos, destinados a resolverem o problema remanescente dos espécimens mais virulentos, que possam eventualmente querer violar este meu paraíso de isolamento e tranquilidade, apesar dos óbvios inconvenientes da necessária alimentação e tratamento que requerem.
E pronto, acabar-se-ão brevemente todas as minhas dúvidas existenciais acerca dos estranhos hábitos dos meus autóctones, nomeadamente os mais nauseabundos para a minha curta paciência, a saber: as razões de alguém achar que pode partilhar a sua poluição sonora com os vizinhos quando lhe dá na real gana; as razões de alguém achar que pode estacionar a sua ferralha por cima de passeios e zonas pedonais, ferindo-me a vista e obrigando-me a desviar para a estrada (ou para casa...); as razões de um município achar que pode autorizar bares e restaurantes (ou até "eventos", como concertos até desoras, em "queimas das fitas") no sítio onde é suposto eu ter sossego e tranquilidade para descansar e dormir; as razões de certas criaturas acharem que é meu papel suportar os condomínios que elas não querem pagar, ainda que partilhemos o mesmo espaço; as razões da minha vizinha achar que pode passar o dia e a noite de tacões na sua casa; as razões do meu vizinho achar que pode deixar o cão dele a uivar no apartamento, na sua ausência; enfim, as misteriosas razões das personalidades munidas por raríssimo e/ou escasso sentido de civilidade desta sarna, ainda designada, genericamente, por "pessoas que me rodeiam".
Estou eufórico, e espero que compreendam o meu entusiasmo.
Agora tenho a possibilidade real de me capacitar, brevemente, por um inusitado sentido de empatia, que nunca consegui ter sequer perspectivas de alcançar até esta altura da minha vida.
Uma vez que espero cortar definitivamente os laços extra-laborais convosco todos, vou poder apreciar o vosso lado positivo com muito maior entusiasmo (a saber: o vosso lado doente).
Vou finalmente, tal como os nossos grandes e pequenos governantes, ter capacidade para ouvir os argumentos de neuróticos como eu com paciência, apelando à necessidade de aprendermos todos a viver em Sociedade, com tolerância pelas idiossincrasias uns dos outros, sem discriminações daqueles que se querem divertir até às tantas em zonas residenciais, daqueles que gostam de ouvir samba à uma da manhã ou de fazer festas a meio do seu prédio de 9 andares até de madrugada, daqueles que estacionam em cima do passeio para deixar o carro à sombra do prédio ou simplesmente mais perto da sua entrada, etc....
Ou seja, questiúnculas mundanas, pequeninas.
Vá lá, meus senhores, tenham lá mais paciência uns com os outros, que eu, graças a Deus (maneira de dizer), vou levar os meus olhos, ouvidos e narinas para bem longe de vocês todos....

O Interno da Especialidade

O Director de um certo Serviço, de um certo Hospital, casado há 25 anos, está com uma grande dúvida: fazer amor com a própria mulher, depois de tanto tempo de casamento, é trabalho ou prazer?

Com essa dúvida, ligou ao Director do Departamento respectivo do Hospital e fez-lhe a pergunta. Por sua vez, o Director do Departamento ligou ao Director Clínico e fez a mesma pergunta. O Director Clínico ligou ao Presidente do Conselho de Administração, e fez a mesma pergunta.

E assim se seguiu uma corrente de ligações, até que a pergunta chegou à Enfermaria, e o Assistente Hospitalar perguntou, como é normal, ao Interno da Especialidade que estava todo atarefado a fazer mil coisas ao mesmo tempo: - "Rapaz, quando o Director do Serviço faz amor com a mulher dele é trabalho ou prazer?" - "É prazer, Doutor ! - respondeu prontamente o Interno" - "Como é que você pode responder a isso com tanta segurança e rapidez?!" - "... se fosse trabalho, já me tinham mandado a mim fazer!"

10 Junho, 2009

Xinfrim

Anda para aí um xinfrim quanto a eleições, e a uma pseudo-mudança de poder que se adivinha no país. Não me interpretem mal, não sou Socialista, não acredito em putativos benefícios quanto a poderes intervencionistas do estado na economia, nem na bondade potencial de todos os Homens, que alguns creem ser-lhes inerente. Também não acredito em religiões nem noutras cousas meta-reais. Acredito no mérito, na sua discriminação positiva, num sistema economicamente liberal e socialmente autoritário, na desigualdade entre todos os homens e mulheres. Perguntar-me-ão agora: afinal acredita ou não no Pai Natal? Bem sei, que não faz sentido.... Voltando ao tema simples do post, que isto estava a começar a ficar complicado: mas que mudança? Só se for a alternância do costume! Ou seja, voltam daqui a pouco aqueles que, e todos os conhecemos bem, no governo, no parlamento e em todas as chefias das diferentes instituições públicas, hospitais incluídos, saíram dos seus postos há 4 anos por troca com os que se encontram lá agora. E dos quais ninguém gostava, e todos se queixavam.... Mudança? Mas em que país é que esta gente vive? A minha vida, à medida que os anos passam, cada vez mais se parece com um disco riscado....

VMER's e Emergência Pré-Hospitalar

Essencial no atendimento às Urgências em qualquer país civilizado, a nossa rede (INEM) pecou por tardia, numa cobertura razoável do território nacional. Para os leigos que vêm ler para aqui, trata-se de uma série de procedimentos protocolados que diferentes profissionais, médicos, enfermeiros e outros técnicos de saúde, são treinados a efectuar conforme quadros sindromáticos bem definidos. Do tipo, paragem cárdio-respiratória: SAV; bradicardia: xxx; enfarte agudo do miocárdio: yyy, e por aí fora. Os diferentes profissionais executam-nos com igual eficácia, e duvido da necessidade da presença médica nessas unidades móveis, sobretudo num país (ainda?) carenciado destes licenciados, e com o desemprego que grassa noutras classes (como a dos enfermeiros). São basicamente rotinas, onde o raciocínio até é, parece-me, globalmente contra-producente (o objectivo final é colocar o doente emergente numa Unidade Hospitalar depressa, com suporte vital básico "pelo caminho"). Mas enfim, já é crucial existir, com esta rede actualmente bem satisfatória, e funcionar devidamente, bem articulado com as Unidades de Saúde. Foi uma das coisas boas que o euro2004 nos deixou ficar, para os mais distraídos.

12 Maio, 2009

Gripe A (H1N1): Previsão Actualizada

Mais uma achega acerca do verdadeiro impacto desta gripe no mundo, novamente publicado neste bom jornal.

L'épidémie de grippe A pourrait tuer 30 000 personnes en France

Près de 35 % de la population française pourrait être touchée par la grippe A (H1N1), ce qui pourrait entraîner 30 000 morts, a affirmé lundi Antoine Flahaut, épidémiologiste et directeur de l'Ecole des hautes études en santé publique (EHESP), à Rennes lors d'une conférence.

Selon ce scénario, le pic se fera sentir "après l'été". En comparaison, la grippe saisonnière fait selon lui en moyenne 6 000 morts par an. Interrogée lundi soir sur France 3 sur ces déclarations, la ministre de la santé Roselyne Bachelot a indiqué que M. Flahaut avait "décrit un des scénarios tout à fait possibles", mais que"l'ensemble de la communauté des experts médicaux est encore en recherche sur ce qui va se passer""Nous sommes très attentifs à ce qui se passe dans l'hémisphère Sud, où on va être en hiver", a dit encore Mme Bachelot. "Cela va présager sans doute de ce qui va se passer dans l'hémisphère Nord à l'automne", a-t-elle ajouté.

M. Flahaut ne croit pas à un scénario de type SRAS, avec des symptômes apparaissant chez toutes les victimes et des hospitalisations systématiques. Selon lui, en moyenne, la moitié des personnes infectées par le H1N1 ne ressentent pas les symptômes de la maladie.

Il ne croit pas non plus au scénario de type grippe espagnole de 1918-1919, qui aurait fait selon l'OMS au moins 40 millions de décès dans le monde en raison d'un taux très élevé "de 1 à 3 % de cas de mortalité par rapport aux cas infectés". En revanche, il rapproche plutôt la pandémie actuelle de la grippe de Hongkong de 1968. "En 1968, il y a eu 30 000 morts, on ne l'avait pas vu, là on le verra", a-t-il dit devant des étudiants. "Pour le moment en France, nous n'avons que des cas d'importation, mais je ne serais pas étonné que des gens qui n'ont pas eu les symptômes aient transmis" la maladie, a-t-il ajouté. "Il s'agit d'un virus qui se transmet comme les autres, il n'est pas exceptionnel, il fait sa besogne", a-t-il expliqué. En moyenne, a-t-il ajouté, une personne contagieuse transmet la grippe à deux autres personnes.

"Si au niveau collectif c'est une grande menace, au niveau individuel ce n'est qu'une grippe", a-t-il expliqué. "35 % de la population malade, cela peut gripper le système, notamment le système de santé", a-t-il poursuivi. "La pandémie, nos pays s'en sortiront sans grands dégâts, ceux qui vont en souffrir sont ceux qui souffrent déjà, par exemple ceux qui ont des emplois précaires", a-t-il encore dit.

Concernant le vaccin, l'OMS doit se prononcer le 14 mai, a affirmé M. Flahaut. Elle devra choisir entre faire entrer le H1N1 souche nord-américaine dans le vaccin de la grippe saisonnière ou faire un vaccin dirigé contre la pandémie, a-t-il rappelé. "Mon sentiment est qu'ils vont faire un vaccin pandémique", a-t-il ajouté, sachant que "le nouveau virus est ultra-compétitif et chassera tous les autres""En janvier, il n'y aura plus que du H1N1 sur la terre, le reste aura été dégommé", a-t-il ajouté.

"Chaque nation va décider de sa politique et cela ne va pas être triste, car il n'y aura pas de vaccins pour tout le monde", a encore déclaré M. Flahaut. "Soit on vaccine, comme pour la grippe saisonnière, les personnes âgées et les plus fragiles, soit on veut faire barrière au virus et on vaccine les personnes stratégiques, mais c'est qui les personnes stratégiques ?", s'est-il interrogé.

11 Maio, 2009

O Inexplicável

Se há coisas com as quais um Internista está habituado a lidar, uma delas é com a morte.
Com doentes com patologia multi-sistémica, que envolvem vários órgãos e sistemas, predominantemente idosos, fragilizados, imunossuprimidos, a morte é frequente nesse equilíbrio instável que muitas vezes é o melhor que se consegue procurar em muitos destes casos.
E, curiosamente, a morte não costuma ser um problema face à sociedade que envolve estes doentes. Os familiares e amigos costumam estar bem cientes, ora da debilidade prévia dos doentes, ora da gravidade da afecção intercorrente que leva ao exitus.
Por isso é que cada morte em Pediatria (especialidade que me repele também por causa disso) é dramática. Por isso é que cada erro em Obstetrícia é grave. E por aí fora.
Em Medicina Interna, conjunturalmente, nem por isso.
Mas a excepção surge sempre.
O rapaz novo, entre os vinte e os trinta, com a sua banal pneumonia, que até deixa dúvidas quanto ao critério que levou ao seu internamento (sobretudo a um internista, que vê ali tanta reserva de órgão, tão notável ausência de comorbilidades...), que parece estar a resistir à antibioterpia inicialmente instituída, e que é reajustada, que nas frequentes reavaliações continua sem apresentar critérios para maior monitorização, mas que subitamente, numa determinada madrugada, em contexto de consistente melhoria do seu estado geral, se levanta-se para ir à casa de banho, se sente subitamente mal, com falta de ar, com sensação de morte iminente, e que culmina numa sequência fulminante em paragem cárdio-respiratória, refractária às tentativas protocoladas de reanimação.
Morre.
Nem falo dos familiares, que não entendem, nem poderiam nunca entender. Não há nada para ser entendido nesta brincadeira de mau gosto do destino, e nem vale a pena tentar explicar que a imobilização e a doença favorecem tromboses venosas profundas, que por sua vez podem redundar em embolia pulmonar, que por sua vez podem redundar em morte. "Então não era apenas um pneumonia? A evoluir bem?". E lá se foi afinal o adulto jovem, pai de miudos pequenos, recém-casado com a respectiva mãe dos mesmos, e ainda muito filho dos seus papás....
Não, não há nada a explicar-lhes. Pelo menos nada que possa ser entendido. Fica a desconfiança, mais ou menos legítima, sempre perdoável. A aguardar autópsia, a aguardar a resposta, mas nunca aquela desejada, que solucionaria o problema, e que foi o desaparecimento irreversível e contranatura de um jovem.
Os problemas menores, esses, são os meus, e residem nos factos presentes que levam à dúvida, sobre se teria sido posssível fazer melhor, e prever. Por maior auto-estima, consciência tranquila na entrega e na capacidade própria, o desconforto existe, mudo ou amordaçado. Por mais partilhada que tivesse sido a decisão. Por menos previsível que fosse o desfecho.
A mesma dúvida paira perante todos os expectadores próximos (médicos e enfermeiros) da situação, que naturalmente duvidam (em maior ou menor grau) das capacidades dos intervenientes. Alguns arreigam-se da capacidade de ter desconfiado, ainda que sem objectividade. Outros concordam com a qualidade insondável da fatalidade.
Enfim, infelizmente também é isso, ser médico.
Há dias maus para a auto-estima.
Mas muito piores ainda, como por exemplo hoje, e para aquela pobre família....

05 Maio, 2009

A Montanha, Prestes a Parir o seu Rato

Estamos a chegar à fase da montanha prestes a parir o seu rato, nesta sociedade cada vez mais histérica e alarmista, e menos racional e ponderada.
Os políticos, cada vez mais demagogos, apavorados com a perspectiva de serem "acusados" de não terem feito "tudo" que estava ao seu alcance, não ajudam, e antes complicam perante a tendência "higiénica" da sociedade dos dias de hoje (que eles, aliás, fomentam).
E isso, meus amigos, asseguro-vos que é um médico que não viu as suas férias a serem canceladas por esta patetice a falar (que faria se fosse...).
A Pandemia, talvez de grau 6 (oficiosamente), está aí no seu esplendor!
E o que se passa?
Estranhamente, o sol continua a nascer, as crianças a brincar, as flores a crescer....
Nem os velhos estão a morrer cá pelo Ocidente, muito menos uma criança!
Matéria para ficarmos todos confusos. Uma tristeza....
A nova moda consiste em noticiar quantas mutações e de quantas espécies animais derivou este vírus: isso é brincadeira de geneticista/microbiologista, e não interessa nada à população em geral....
Segue-se uma entrevista (científica) a um epidemiologista (cientista) francês, que passo a citar (do Le Monde), com bolds/sublinhados meus, e o óptimo editorial do dia que resume tudo...:

"De fait, nous sommes en situation de pandémie"

Le cap symbolique du millier de cas confirmés de grippe A (H1N1) a été franchi au niveau mondial. C'est peu pour une épidémie qui a fait jusqu'ici 27 morts, dont 26 au Mexique. Le spectre d'une pandémie continue cependant de planer. La directrice générale de l'Organisation mondiale de la santé, Margaret Chan, s'est employée à dédramatiser cette perspective en déclarant, dans une interview publiée lundi 4 mai par le quotidien espagnol El Pais : "Le niveau 6 (de la pandémie) ne serait pas la fin du monde."

Quels sont les scénarios possibles pour cette épidémie ? Pour y répondre, Le Monde s'est entretenu avec le professeur Antoine Flahault, spécialiste de l'épidémiologie des maladies transmissibles et directeur de l'Ecole des hautes études en santé publique (EHESP), à Rennes. Il est coauteur, avec Patrick Zylberman, du livreDes épidémies et des hommes (éd. de La Martinière, 2008).

-L'évolution vers une nouvelle pandémie grippale est-elle inéluctable ?

De fait, nous sommes en situation de pandémie. Tous les ingrédients sont déjà présents. Un virus grippal, nouveau du point de vue génétique et de ses propriétés immunologiques, se transmet de personne à personne et circule à travers le monde. L'épidémie n'est pas restée confinée dans le pays où elle a émergé et s'est diffusée via les connexions aériennes.

-La menace d'une pandémie avait été évoquée à propos du virus H5N1 de la grippe aviaire. Vous faites partie des scientifiques qui n'y croyaient pas...

Les seules pandémies grippales que l'humanité ait connues ont été dues à des virus H1, H2 ou H3, qui se sont déjà humanisés. Des travaux scientifiques ont permis de déterminer les mutations qui auraient été nécessaires pour qu'un virus H5 s'humanise à son tour. A ce jour, elles ne se sont jamais produites. D'ailleurs, le H5N1 ne donnait pas un syndrome grippal, mais plutôt une encéphalite. C'est pourquoi les virus des sous-types H1, H2 et H3 continuent d'être de meilleurs candidats pour entraîner une pandémie.

-Quels sont les scénarios possibles aujourd'hui ?

Le premier scénario pourrait ressembler à celui du SRAS : une épidémie qui s'évanouit sans revenir. Il n'est pas à exclure. Le virus H1N1 pourrait faire une brève apparition. Pour autant, je n'y crois pas. Le SRAS, comme les épidémies dues aux virus Ebola ou Marburg ont été très "bruyantes" sur le plan clinique. Le SRAS, par exemple, donnait une pneumonie sévère, nécessitant une hospitalisation en réanimation. Il n'y avait pas de formes asymptomatiques. Le virus H1N1, en revanche, donne des formes dépourvues de symptômes, ce qui rend illusoire un contrôle étanche aux frontières.

Je qualifierais le deuxième scénario de "fantasmatique" : les mutations du virus entraîneraient des ravages dans la population. On voudrait nous faire croire à une réédition de la grippe espagnole de 1918-1920. Ce serait oublier que cette pandémie-là remonte à une époque "prémoderne" sur le plan médical : il n'y avait pas d'antibiotiques, d'antiviraux et les infrastructures sanitaires étaient loin d'être ce qu'elles sont aujourd'hui.

-Quel autre scénario vous paraîtrait plus plausible ?

Ce serait un scénario "soft", proche de ce que fut la pandémie de 1968 (la "grippe de Hongkong"), soit l'équivalent d'une grosse grippe saisonnière, touchant non plus 10 %, mais 35 % de la population, soit environ 20 millions de cas en France et un excès de mortalité de l'ordre de 20 000 à 30 000 décès. Elle serait susceptible d'entraîner une désorganisation du système de santé, de l'absentéisme et fragiliserait notre société, comme pourrait le faire un ouragan puissant. Une telle situation dans les pays développés pourrait coexister avec un scénario plus proche de la pandémie de 1918 dans les pays pauvres. Reste à savoir si l'existence d'une telle "chimère", au sens médical, deviendrait intolérable, contrairement aux épidémies qui demeurent invisibles pour notre opinion publique, par exemple, l'épidémie actuelle de méningite au Nigeria ?

-Peut-on imaginer le scénario d'une "deuxième vague" épidémique avec le même virus H1N1 ?

Quand ils se font rares dans l'hémisphère Nord au moment de l'été, les virus grippaux prolifèrent en zone tropicale avant de revenir en novembre ou en décembre dans nos contrées.

-Le recours aux médicaments comme le Tamiflu peut-il changer le cours des choses ?

L'utilisation à grande échelle de ce médicament, dont l'efficacité est modérée, ne vise pas un bénéfice individuel et une réduction de la mortalité - nous n'avons aucune étude le prouvant. Il sert à diminuer la pression virale et à limiter l'impact de l'épidémie sur l'organisation de la société. Une question importante est celle de l'apparition possible de résistances au Tamiflu. La logique voudrait, comme souvent avec les maladies virales, que l'on utilise une bithérapie. Avec le professeur Catherine Leport (hôpital Bichat, Paris), nous avions lancé la seule étude évaluant l'efficacité de la combinaison Tamiflu-Relenza. Nous devrions avoir des résultats dans trois mois.

Propos recueillis par Paul Benkimoun
Editorial du Monde

Alarmisme ?

A-t-on exagéré le danger du nouveau virus grippal, d'origine porcine, apparu au Mexique et qui a semblé menacer la planète entière depuis le 24 avril ? Les autorités sanitaires, mondiales et nationales - et les médias -, en ont-ils "trop fait" ? A trop alerter, n'a-t-on pas inutilement alarmé ?

Dix jours après le branle-bas de combat déclenché par l'Organisation mondiale de la santé (OMS) contre ce virus inédit, la question se pose inévitablement. Si le cap du millier de cas confirmés a été franchi le 4 mai, 25 seulement ont été mortels au Mexique et un aux Etats-Unis. Si une vingtaine de pays sont touchés, c'est pour la plupart de façon marginale. Si l'OMS est rapidement passée du niveau 3 au niveau 5 (sur une échelle de 6) de son système d'alerte, la pandémie reste"potentielle", selon les termes de la Commissaire européenne à la santé. Enfin, cette grippe ne semble pas plus dangereuse que les épidémies annuelles classiques.

Pour autant, les autorités sanitaires ont été dans leur rôle. Leur mission première est la protection des citoyens : en la matière, mieux vaut appliquer le principe de précaution que de se trouver confronté à une pandémie incontrôlable. Surtout quand on connaît, depuis l'épisode de la grippe aviaire en 2003, l'imprévisibilité de ces virus, leur transmission possible de l'animal à l'homme et la mondialisation immédiate de leur circulation au gré des transports aériens. Ajoutons que, si la saison estivale est moins propice à la propagation d'un tel virus dans le Nord, c'est l'inverse dans le Sud, dont les systèmes de protection sanitaire sont, en outre, beaucoup moins efficaces.

La question est donc celle du bon dosage de l'information et de l'alerte devant une menace incertaine. Dans les sociétés développées, l'instauration du principe de précaution, quasi constitutionnalisé en France, a nourri une sensibilité voire une anxiété disproportionnées dans les opinions publiques et, en retour, une hyper-réactivité des autorités publiques, inquiètes de se voir reprocher d'éventuelles négligences. Inutile d'aviver ces fantasmes, sauf à perdre en crédibilité.

Il est tout aussi nécessaire de n'occulter aucune des menaces sanitaires qui pèsent sur la planète : la vigilance nécessaire sur tel ou tel virus grippal ne doit pas faire oublier que la crise économique est un redoutable accélérateur de mortalité de masse dans les pays pauvres - tout particulièrement en Afrique. Les cas, là, ne se comptent pas en unités, mais en centaines de milliers de victimes possibles, notamment chez les enfants.

30 Abril, 2009

H1N1

Eis o tema que, de momento, mais me aborrece. De morte, mesmo....
Tal como diz o eminente virólogo francês Didier Raoult, hoje em dia já não se pode falar de gripe. As pandemias sazonais do passado (aliás recentes, até há 10-15 anos, quando se deu a universalização da vacinal gripal aos grupos de risco em Portugal) foram esquecidas, ao ponto de andarmos todos histéricos com "comunicados", "níveis de alerta" e toda e qualquer movimentação da cada vez melhor estruturada OMS (e que é, no fundo, a grande mudança à qual não estávamos habituadas antes, esta melhoria da monitorização epidemiológica dos dias de hoje; ou seja, boas notícias!).
É gripe, meus senhores, e há poucas coisas mais banais que a gripe.
Não é grave? Ai é, sim senhores, nas populações de risco que, ao contrário do que acontece com a sua parente sazonal, não poderão estar vacinados contra esta. As populações de risco são crianças, idosos, imunodeprimidos em geral e doentes com poli-patologias, sobretudo pulmonares e cardíacas.
Os outros vão ter gripe, mais ou menos fruste. Nomeadamente eu, que serei dos primeiros, dada a minha condição de profissional particularmente exposto.
Quero eu com isto dizer que está-se a fazer uma tempestade num copo de água? Claro que não, há que evidentemente procurar salvaguardar os grupos de risco (isolando os contagiantes e protegendo os "arriscados"), já que esta gripe, como qualquer outra, pode matar (e mata alguns milhares em Portugal, todos os anos).
Esta tem como ÚNICA desvantagem, repito, a de não permitir imunizarem-se as populações de risco. O que quer dizer que, enquanto que num inverno normal, com uma gripe normal, as Urgências ficam atafulhadas de doentes internados em macas, pelo facto das enfermarias estarem cheias, mesmo apesar das vacinas (que nunca alcançam a população toda a que se destinam à partida), agora ficarão ainda mais atafulhadas, e com mais casos graves, sobretudo com descompensações de doenças crónicas desequilibradas, desses doentes de risco, pela infecção viral. Ou seja, será um inverno "agravado".
O leitor médio deste blog, como eu, vai limitar-se a ter febre e umas dores no corpo, vai tomar um anti-inflamatório e esperar que passe, para então voltar ao trabalho.
Se calhar eu terei que me proteger, para não contagiar os meus filhos em casa, sobretudo o mais pequeno, talvez com porte de máscara e lavagem cuidadosa das mãos antes de lhes tocar. Eventualmente haverá encerramento temporário de escolas, se a contagiosidade for preocupante, e terei que mobilizar uma avó para tomar conta deles, dando indicações para evitarem aglomerados durante uma temporada (centros comerciais e afins...).
Fora isso, nada de especial, com a excepção (muito particular) do caos no Hospital (com os tais doentes de risco, descompensados, em número excessivo, face à incapacidade do SNS absorver qualquer situação banal e cíclica de surto de afluência, quanto mais uma excepcional como essa...).
E, claro, muita histeria à mistura....
Esqueçam lá aqueles filmes de vírus mortais que dizimam populações inteiras de gente nova que de outro modo seria saudável. Não é disso que se trata.
É mesmo só uma pandemia de gripe....
*Alguns números de AGORA (01:30 do dia 30/Abril): EUA com 91 casos confirmados, 1 óbito (bebé mexicano com 21 meses de idade, que emigrou gravemente doente à procura de tratamento); México com alguns milhares de casos suspeitos, e 7 (não é engano: SETE) casos seguramente atribuídos ao vírus, cento e cinquenta e tal "suspeitos"; Canadá com 13 casos, sem óbitos a registar; algumas dezenas de casos suspeitos na Europa (alguns, 19, confirmados), sem óbitos; e é tudo, para já.

02 Abril, 2009

Enfermeiros em Greve

Quem me conhece sabe que nada me move contra essa classe de profissionais, bem pelo contrário, tenho-os como maioritariamente altruistas, preocupados com o próximo e competentes na execução das tarefas que lhes competem, o que é tanto ou mais do que consigo dizer da minha própria "classe"; muitos e bons amigos, verdadeiros, tenho entre profissionais Enfermeiros do Hospital onde trabalho, e sei que a eles não ofendo com estas palavras.
Por outro lado, não deixo de constatar que alguns, geralmente os que menos se enquadram nesse perfil grandemente maioritário que tracei, me afectam os nervos, particularmente com os complexos de inferioridade que os caracterizam (e que, como complexo que é, não tem qualquer razão de ser, a não ser pelas razões das respectivas patológicas cabeças).
Esse complexo debita numa série de patetices mais ou menos públicas, mas aquela que hoje me inspirou foi, num panfleto de greve, ter visto que uma das razões da mesma seriam os baixos salários que auferem, versus os "chorudos salários" de "outros grupos profissionais", responsáveis pela depauperação dos cofres do SNS.
Umas notas apenas:
-A preocupação com os cofres do SNS é tocante; bastava preocuparem-se, legitimamente, com a sua própria remuneração, mas pronto, lá tinham que se preocupar com o bolso de "todos os portugueses"...;
-O salário de uns (altos) não são a razão do salário de outros (baixos); é irrelevante, menos para certo número de criaturas desejosas de inspirar a inveja, e outros belos sentimentos que tal, na massa à qual se dirige;
-A razão do baixo salário de uns são as regras de mercado (tal como os altos salários de outros); é haver demasiados enfermeiros para poucas vagas (e não interessa nada para aqui se deveriam ser mais, as vagas -essa sim outra reinvidicação pertinente-); é ter-se permitido a formação excessiva de profissionais, não lhes dando depois condições para poderem concorrer a lugares sem terem que se submeter a vergonhosos regateios de salário, onde obviamente se menospreza a qualidade a troco daquele que aceita trabalhar por menos; é, corporativamente, nunca se terem preocupado com esse excesso de oferta de mão-de-obra;
-Não adianta agora culpar o mundo (ou "os outros") pelos erros (note-se: das instituições ligadas aos enfermeiros, Ordem, sindicatos, associações, ..., que não souberam acautelar os interesses dos seus associados, e pior, a qualidade da prestação de cuidados daí decorrente) do passado; importa, isso sim, restringir desde já essa formação; acreditar os estabelecimentos de ensino; impedir a sua proliferação desenfreada; certificar a qualidade dos profissionais formados nas mesmas; entre tantas outras coisas inteligentes para se fazer....
Agora, acharem que achincalhar ou agredir as classes profissionais conviventes convosco (com eles, os tais enfermeiros complexados patológicos), ainda que apenas institucionalmente (no terreno, felizmente, a razão prevalece, pelo menos onde me movo e com quem me interessa...), vos vai resolver os muitos problemas reais que têm, além de infantil, é, lamento dizê-lo, mesquinho. E ser mesquinho é muito feio, ainda (acho...).
Mas não se preocupem, não são os únicos com dificuldades em rever-se naqueles que vos "representam".

O Lamaçal

Uma adenda a um post recente do MEMAI, no seu excelente blog, que já é referência na área da saúde em Portugal.
E para criticar, no fundo, a sua posição sobre a "posição pública" (chamemos-lhe assim) da corporação médica sobre a "política do medicamento" (chamemos-lhe também assim).
Essa posição assenta basicamente no pressuposto que cada médico tem formação (e/ou "intuição científica") suficiente para se pronunciar sobre se determinado genérico é ou não tão activo quanto o medicamento de marca que lhe deu origem (e com o qual se fizeram os estudos/ensaios clínicos).
Concedendo-se no óbvio, que é o de ter apenas a "certeza absoluta" que o efeito pretendido só é assegurado pela própria substância que foi estudada, já, a meu ver, deduzir que um determinado equivalente (dado como tal por uma instituição, o Infarmed, que deverá ser competente nessa assumpção) "pode não ser" tão bom quanto a molécula que deveria copiar (por não ser de facto igual, ou pelo excipiente ser diferente, ou pela forma galénica, não interessa) é, evidentemente, lírico.
Ou seja, no mínimo, somos tão incompetentes quanto o Infarmed para assumir isso, com espírito científico que ultrapasse a "experiência" clínica (e quem já me lê há algum tempo conhece o meu "asco" pela terminologia em causa).
Tenho pena que continuemos a chafurdar, pois, neste lamaçal dos interesses das companhias farmacêuticas, na qual os farmacêuticos agora sonham bezuntar-se todos também, empurrando-nos para fora do mesmo, ainda que digam apenas querê-lo partilhar.
Colegas, antes de se indignarem com a óbvia pusilanimidade do presidente da ANF acerca dos seus "altruistas" interesses quanto aos bolsos dos pobres portugueses (que me fariam rir mais se não fosse levado a sério por alguns proto-jornalistas da praça), que ele desta forma pretende despojar um bocado menos, devíamo-nos envergonhar era com a nossa própria atitude, em não nos desmarcarmos de uma vez por todas deste esgoto interesseiro que é o das companhias farmacêuticas, empresas que competem entre si como razão de existir (e legitimados pelas "regras" mercado), e de uma vez por todas prescrever unica e exclusivamente por denominação comum internacional (DCI). Depois, a marca respectiva, que o estado decidisse como bem entendesse.
Ou que outro qualquer, que não o estado (se quiserem pode ser o Sr da ANF), decidisse, mas não nós, se não quisermos ser porcos iguais, e do mesmo lamaçal.
Está bem que podemos argumentar que a motivação de um médico na dádiva de um determinado remédio ao doente sempre é melhor, ou não tão má, quanto será a de um farmacêutico.
Que temos mais "princípios", ou mais "ética", mas lamento, acho que o povo, esta turma da pré-primária a quem nos pensamos dirigir quando debitamos essa incongruente prosa, não engole o argumentário. E ainda bem, deve estar mais inteligente, o povo.
Em suma, se queremos rir-nos da indignidade de certas aves raras (como esse patético Sr da ANF que há tanto tempo pertence ao anedotário nacional, esse Valentim de meia-barba, essa Fátima Felgueiras travestida, esse Isaltino de candura, esse Pinto da Costa de honestidade, enfim, esse esperto e rico self-made man à portuguesa...), devemos antes dignificar-nos a nós próprios.
Depois, e só depois, poderemos criticar com propriedade os outros porcos, que não nós, no seu lamaçal, que não o nosso.
Até lá, sinceramente, sugiro que nos calemos.

17 Março, 2009

E Agora, Uma Coisa Completamente Diferente...

Estou desinspirado de temas médicos (a precisar de férias, portanto...).
E por isso vou simplesmente desabafar.
E em 1º lugar, nesse capítulo que se afigura longo de "desabafos", sobre aquelas alminhas irritantes que gostam de circular na faixa do meio.
Confusos? Não, não é metáfora: auto-estradas de 3 faixas, ou afins, e aquela malfadada faixo do meio.
O condutor luso (resisto às aspas em "condutor") baralha-se, nessas circunstâncias.
E, o que já se provou ser extremamente perigoso, teoriza: "a faixa da direita é para os camiões" afirmam uns; "a faixa da direita é para quem vai sair na próxima escapatória", clamam outros; ou ainda, um dos meus preferidos: "daqui a "pouco" -podendo pouco significar mais de uma dezena de quilómetros- ficam só duas faixas, e a da direita desaparece"; ou, melhor ainda : "vou ultrapassar aquele veículo, sabes, aquele pontinho escuro lá na frente, e por isso meto-me já na faixa do meio para que, daqui a meia hora quando chegar perto dele, se entretanto o mundo não tiver acabado num desastre climático qualquer, não ficar aflito e ter que, imagine-se, desacelerar enquanto outro me está a ultrapassar naquele momento, o que significaria eventual perda de balanço para o resto da viagem, já para não falar na eventual necessidade de uso dos travões!".
Mantendo-me na ludicidade deste fascinante tema, uma das coisas que mais gosto nas estradas são aqueles sinais luminosos que dizem: "Circule pela Direita". Alguém já fez um estudo custo-benefício de tal mensagem?
Além da óbvia inutilidade do texto (que implicaria poder de leitura das animálias e ausência de interpretação delirante, exemplificada supra), seria talvez mais proveitoso usarem algumas das câmaras que há por aí espalhadas, verem através delas (para que servem, ao certo?), e presentearem os condutores "do centro" com a respectiva contravenção, bem nos seus domicílios. E poderiam usar os placards para outras mensagens igualmente importantes, como por exemplo "acorde!" ou "não dispare armas de fogo contra o carro do lado!". E porque não outras com a mesma riqueza semântica com  "use o pedal do meio para travar", ou "lembre-se de abrir o vidro antes de atirar a beata para a estrada"....
Sou um pouco obsessivo-compulsivo, dizem. Daí que reconheça que haja algum ódio que tem crescido em mim ao longo dos anos relativamente a este tema, que começou por ser mero incómodo ou incompreensão (tipo os fulanos que estacionam nas pracetas pedonais, em frente às portas dos seus prédios, mas iremos a esses noutro post desinspirado no futuro...), e que uma faceta irracional cada vez mais importante me invade quando falo dele.
Na estrada, lido com o problema como em tudo na vida que me enjoa e que desisti de conseguir mudar, ou sequer melhorar.
Comecei pela abordagem pedagógica, aproximando-me na faixa da direita do energúmeno da faixa do meio, abrandando, passando para a faixa do meio, fazendo sinais de luzes ou dando uma apitadela, e depois de bem convencido da provável estupefacção da almôndega da frente, face ao energúmeno (vulgo eu próprio) que estava a chatear por detrás (não me apercebendo estupidamente da existência de uma outra faixa mais à esquerda...), lá ultrapassava, algumas vezes presenteado com um manguito pelo caminho.
A abordagem seguinte foi a do "estou-me a borrifar para esses tipos". Ia pela direita, e continuava pela direita, ultrapassando os representantes da espécie em vias de constante propagação. As reacções foram diversas, desde a mais absoluta indiferença (tipo "cada qual tem o seu caminho a seguir"), passando por sinais de luzes ou buzinadelas (tipo "olha-me aquele selvagem a ultrapassar-me pela direita!"), até às furiosas guinadas para a direita na tentativa de me abalroar (do género "pensas que passas por aí, é!? Ilegalmente!!!"). A excepção é, perante a aproximação, a reconhecida culpa com pisca para a direita para se poder ultrapassar como o código manda.
O meu instinto de sobrevivência aconselhou-me, entretanto, a viajar pela direita, e a cruzar duas faixas para ultrapassar, voltando a fazer trajecto em sentido inverso uma vez concluída a ultrapassagem, sem ruído nem sinais. É que não vale a pena, já me confundia a mim próprio com aqueles sinais luminosos que falei antes, e soava a fútil ou excêntrico.
O próximo passo será juntar-me ao grupo endémico de hipotiroideus da estrada, e ficar-me pelo centro também.
E juro que não vou tomar levotiroxina!

04 Março, 2009

Afinal, na Gália também...

02 Março, 2009

Carnaval em Portugal

3 hilações:
1) Hipotermia consentida;
2) Burlesco fingido/comprometido;
3) Esforço/investimento mal dirigido.

06 Fevereiro, 2009

Urgências Paliativas

Neste país que às vezes nos parece de faz-de-conta, não são infrequentes os episódios de "Urgências Paliativas". Isto a propósito de mais um caso pessoal, recente.
A pobre alma doente estava metastisada até ao tutano, ou por outras palavras com os pulmões e fígado polvilhados de tumor, sem indicação para sequer qualquer tipo de quimioterapia (paliativa), já sob morfina e neurolépticos, destinados a aliviar a dor e a obnubilar o estado de consciência nesta fase, que se quer por razões óbvias o menos lúcida possível.
Enfim, e os familiares não conseguiam encarar a coisa (e esta era a verdadeira razão da vinda ao serviço de Urgência).
Perante uma colega menos profissional, talvez pelas demasiadas horas de trabalho prévias a toldarem-lhe o juízo, terão tido uma má experiência de atendimento (do tipo, pelo que me contaram antes que eu conseguisse interromper, "o que vem cá fazer a esta hora"? ou "e o que quer que eu lhe faça"?), e sobrou para mim a herança do caso de paliação na passagem do turno pelas oito da manhã.
Descobri que alguns dos filhos ainda não estariam "conformados" perante a mãe agónica. Que queriam que se fizesse "algo" perante aquela respiração de peixe-fora-da-água. Que não estariam em condições de a levar para casa "naquele estado".
Enfim, tudo coisas que o comum dos leitores deve achar natural, com fácil empatia perante o drama de se perder uma mãe, mas que deixa os nervos de qualquer profissional, ali presente para diagnosticar, tratar e orientar casos eventualmente urgentes, à flor da pele.
Num país a sério, essas almas doentes (não a doente propriamente dita, que lá foi fazendo bólus de morfina ao sabor da dor presumida e assumida, e do seu estado de consciência, num esquema aliás parecido ao prescrito pela oncologista que a seguia e tinha medicado, e bem) teriam já sido submetidas a um acompanhamento que lhe pusesse algum rumo nos neurónios, no sentido de se conformarem com a inevitabilidade, escusando-se a transportarem a mãe para um local hostil (tão apaziguado quanto um corredor de Urgência) perante profissionais pouco preparados para o adequado e digno encaminhamento de uma situação tal, como são, ou deveriam ser, os últimos minutos ou horas, em agonia, de uma vida.
Alguém já lhes deveria ter aberto os olhos, convencendo-os que o melhor que poderiam oferecer à mãe seria sossego, seria carinho, seria presença permanente, além dos indispensáveis fármacos que já possuiam.
Alguém lhes deveria ter dado um abanão, e dizer-lhes que era altura para crescerem, da mesma forma que se presume que a senhora doente teria tido atitude adulta sempre que os meninos se encontraram doentes no passado.
Ou seja, alguém lhes deveria ter encaminhado o luto, de alguma forma, para que o essencial, e o essencial era o conforto da pobre alma doente, fosse respeitado, preservado e considerado acima de qualquer desconforto egoísta, de sentimento de perda egoísta, ou de saudade que se quererá, pela amostra, rapidamente esquecida.
Eu tentei, e não consegui. Aqui e ali, ao longo do dia, vislumbrei que houvesse alguma lufada de lucidez em alguns dos familiares, mas nada feito, na hora da verdade, entenderam que não havia "condições" para a afastarem daquele local, seja lá o que isso for (um sorriso? um flashback? enfim, seguramente algo do domínio da ficção, à qual toda aquela gente estava ainda demasiado ligada, e que infelizmente a realidade teima em desprezar).
Neste país, não se sabe viver com a morte dos próximos. E, mais grave ainda, não se respeita o próximo nesse contexto, tratando-o como um objecto que se quer higienicamente longe da vista, e por isso longe de casa, pouco importando que para isso fique numa solitária e abandonada cama de enfermaria, na confusão de uma maca num serviço de Urgência ou num qualquer aterro sanitário.
A senhora lá morreu, uma longa dúzia de horas depois, sozinha, num quartinho onde estava outra senhora, igualmente agónica, que aliás também faleceu pouco depois. Sedada e analgesiada, tanto quanto me foi possível fazer nos intervalos da confusão, costumeiramente muita.
A família lá estava, algures, bem longe dela.
E ficou extremamente grata pela "sensibilidade" que eu tinha demonstrado perante o "problema" (o problema deles, entenda-se), quando lhes transmiti o inevitável desfecho.
E eu, cansado ou distraído depois de 24 horas seguidas de trabalho, por pouco ia ficando satisfeito com o "elogio"....

23 Janeiro, 2009

Especialistas de Órgão

O edema dos membros inferiores parece: -Insuficiência renal crónica ou síndroma nefrótico ao Nefrologista; -Insuficiência cardíaca ao Cardiologista; -Doença hepática crónica descompensada ao Gastrenterologista; -Insuficiência venosa crónica ao Cirurgião; -.... Ou, se perguntarem a um martelo o que lhe parece o parafuso, ele responderá: "um prego". Moral da história: -Não se dirija a um especialista de órgão sem um diagnóstico estabelecido, ou pelo menos sem um diagnóstico diferencial bem feito. Arrisca-se a levar uma valente "martelada"....

08 Janeiro, 2009

João Pereira Coutinho (in Expresso): Os Velhos

(...)

Velhos

Aqui há tempos, o escritor Francisco José Viegas lamentava publicamente o desporto de certas famílias portuguesas que, em plenas festividades, têm o hábito de despejar os seus velhos nas urgências hospitalares. Imagino que o Francisco desconheça a real proporção do fenómeno. Eu próprio desconhecia, mas uma pessoa de família encarregou-se de mo explicar. Só este ano, e no hospital onde ela labuta (como médica), três velhos foram largados no recinto. Um deles trazia bilhete colado ao peito, como se fosse uma criança recém-nascida e recém-rejeitada. Os médicos já nem estranham: recebem as encomendas e dão cama e comida aos pobres. No dia seguinte, começam as formalidades para encontrar os familiares ou, pelo menos, um lar "social" onde os estacionar.

Ouvi tudo isto com certo interesse antropológico e depois perguntei internamente se não haveria solução mais cómoda para o problema. Longe de mim moralizar as famílias e esperar que elas cuidem compassivamente dos seus estorvos; a minha loucura não chega a tanto. Mas questiono se não haveria forma de manter os velhos em casa, com vantagens para as famílias. Creio que sim. Bastava que as famílias deixassem de despejar os velhos no hospital e passassem a cozinhá-los. A medida não é inteiramente original: Jonathan Swift lidou com problema idêntico na Irlanda faminta do século XVIII. E, para Swift, os pobres podiam matar a fome desde que vendessem os filhos no talho. Bem sei que as crianças são mais tenras e saborosas do que carne envelhecida. Mas com o tempero certo, até a carne mais putrefacta pode gerar saborosos pitéus (lembrar a perdiz). Num ano que se adivinha de aperto, a poupança começa em casa.

(...)

11 Dezembro, 2008

As Ilhas

Em resposta a um comentador do post anterior: não, nem tudo é mau nos serviços de Urgência, e nos diferentes hospitais por esse país fora.
Devia, obviamente, dar-me o desconto de, sendo eu português, ainda que preocupado em passar ao lado do grosso dos estereotipos da espécie, gostar de criticar o que está mal, mais que elogiar o que está bem.
E há ilhas de "bem", sim senhor...:
A boa equipa de enfermagem que nos acompanha e apoia. mesmo no meio do caos; o colega solidário que partilha um cansado sorriso ou um compreensivo levantar de sobrolho; o momento de humor proporcionado por um doente bem disposto, ou por uma das muitas situações caricatas que surgem no meio (o clássico: "onde é que lhe começou a doer a barriga"?; "No intermarché"!); o prazer não reconhecido de ter feito um bom trabalho, ainda que sendo apenas, muitas vezes, uma mera peça na engrenagem complexa da abordagem a certos doentes; o reconhecimento de alguns doentes; a tristeza, sim, também a tristeza, mas consolada, de familiares de outros, que fizeram a sua travessia pelo deserto dos horrores com casos complexos de entes queridos rumo ao inesperado, outras vezes inevitável, exitus; a sensação de dever cumprido; o mérito do esforço para contrariar, muitas vezes, a mediania estabelecida; às vezes, apenas o tentar oferecer um médico de primeira em instalações e sistemas estabelecidos terceiro mundistas....
Mas eu sou internista, como os 2 leitores assíduos deste blog já sabem (a minha mãe e o amigo que aqui colabora, uma vez por ano, assiduamente). Ou seja, sou suspeito, pois por natureza alimento-me com o meu próprio ego.

06 Dezembro, 2008

Urgências

Como resolver o problema das Urgências? Não, isto não é uma tentativa para resolver um problema e sacar o Nobel da Gestão 2009, mas apenas para indicar a problemática, bem como a solução impossível. As Urgências são um suplício para quem trabalha, um tédio (valha-nos isso) para quem até saberia trabalhar e prefere encostar-se, e um stress para quem não sabe sequer o que anda naquelas bandas a fazer. O primeiro passo passaria por ver isso: o que anda cada um a fazer, onde são precisos mais meios humanos, ou apenas "melhores" meios humanos. As Urgências são o ponto de confluência de vários tipos de pessoas: aquelas susceptíveis de terem patologia requerendo cuidados urgentes E DIFERENCIADOS de saúde (já que uma amigdalite, não se enquadrando nesse grupo, obviamente que também precisa de atendimento e resolução rápida), ou seja, as "verdadeiras urgências"; outras enviadas por médicos assistentes que, por não terem meios ou não estarem para se chatear, chutam o doente a montante (ou seja, doentes que seguiram o percurso correcto, e que apenas se encontram ali por défice estrutural ou na capacidade de quem lhes deveria ter resolvido logo o problema); e, finalmente, aqueles que vão à Urgência porque "acham que sim", fazendo tábua raza do percurso natural que deveria fazer na doença, passando sempre pelo seu médico assistente (ou SAP, na falta dele), e que deveria fazê-lo não por "birra" de quem está nas Urgências, mas por uma questão de Cidadania, não se imiscuindo entre doentes referenciados àquele nível de cuidados por dele necessitarem realmente, sem dele estar carenciado à partida. Há muitos anos que penso na estratégia certa para uma solução, e vejam lá esta ideia: selecção de diagnósticos (e/ou queixas) para os quais não se deve ir NÃO REFERENCIADO à Urgência (por exemplo: dor de garganta; febre; comichão; etc...), sob pena de, no final, e depois do médico ter diagnosticado o caso, pagar muito caro -em euros- (podia ser após um 1º aviso por escrito de recurso incorrecto desse tipo). No caso dos doentes REFERENCIADOS, averiguar porque é que o são nas situações indevidas, e inquirir o referenciador sobre as suas razões (e resolver o problema, quer seja estrutural, quer seja de capacidade do próprio, penalizando-o). Dir-me-ão que o povinho não sabe à partida se a sua doença é urgente ou não; por isso devem ir ao seu médico assistente, ou ao que estiver de serviço nos cuidados primários, para o saber (se é potencialmente grave a requerer nível superior de cuidados, pois ele é que o saberá dizer, com a propriedade possível). Dir-me-ão outros que os médicos dos cuidados de saúde primários também não estão para se "arriscar", não mandando situações potencialmente graves aos bancos de Urgência; pois ninguém pede para arriscarem: para isso existem guidelines racionais para os ajudar nas situações mais duvidosas; e obviamente que devem mandar sempre os doentes caso o diagnóstico diferencial possível não seja suficiente para tranquilizar o médico (por exemplo, uma dor torácica suspeita, sem Rx de tórax, ECG e enzimas cardíacas, deve ser referenciada sempre); mas nunca, como se vê tanto, porque quer "curto-circuitar" o sistema, ou porque não quer ser contundente com as suas convicções perante o doente ou os seus familiares, ou porque simplesmente não sabe, não observa nem está para se chatear. Outra dica seria pôr médicos a fazer trabalho de médicos, secretários a fazer trabalho de secretários, enfermeiros a fazer trabalho de enfermeiros e auxiliares ou técnicos a fazer trabalho de auxiliares ou técnicos. Isso seria talvez excessivamente revolucionário para estas bandas, neste século, mas eu excedo-me com frequência quando começo a escrever... onde já se viu tal coisa? Já sei, nas séries americanas sobre Urgências, que como todos sabem, não passam de ficção científica. Mas e se o médico, em vez de fazer ECG's, deixasse esse trabalho aos técnicos de ECG's? E se não tivesse que despir os doentes, sempre que necessário, antes de os observar, deixando o trabalho para um auxiliar? E se não tivesse que medir os parâmetros vitais, deixando o trabalho a um qualquer enfermeiro? E se não tivesse, durante estes processos, que encontrar os aparelhos esparsos pelo recinto, ligá-los à tomada mais próxima, substituir os componentes que se vão gastando, numa passeata que consome um tempo infinito, raramente relaxante quando se está a adiar o essencial da razão da vinda da criatura contribuinte à instituição? Deitar doentes, levantar doentes, passar um urinol aos doentes, descascar doentes, chamar e procurar por alguém que dê continuidade ao que se vai pedindo? Ou seja, e se o médico "apenas" colhesse histórias, observasse doentes, executasse algumas técnicas diferenciadas que pudessem ser necessárias no caso-a-caso, e prescrevesse os tratamentos respectivos? Podendo assim ver o dobro dos doentes com metade do desgaste, o dobro do sucesso e metade do custo para a instituição (já que um médico continua a ser relativamente "caro", quando contratado para fazer o trabalho de qualquer um dos outros...)? Ou seja, e se as instituições de saúde tivessem os profissionais certos, para executar as tarefas necessárias? Bem, desculpem-me então esse delírio final, e os outros todos antes desse, mas concedam-me lá o direito de também acreditar um pouco, nesta quadra, no Pai Natal....

02 Dezembro, 2008

Doutor, Posso Comer Gorduras?

A não ser que esteja muito, muito doente....

28 Novembro, 2008

Doutor, Vou Morrer?

Claro que vai....