quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Dói-me Tudo

Os leitores incautos não sabem, mas passo a revelar mais um dos segredos médicos: o "dói-me tudo", e o seu valor semiológico para o profissional que atende o doente.
Na óptica do doente, o "dói-me tudo" é usado para ser levado a sério. Pois se uma dor no peito parece grave, uma dor de cabeça também, já para não falar em mialgias e/ou artralgias dispersas, porque não referir que se tem todas elas ao mesmo tempo para um atendimento mais atento àquilo que julga dever tratar-se de uma caso, assim descrito, como muito grave? Se a isso juntar uma pujante "falta de forças", uns "tremores" que nem pode e muita "falta de ar", o quadro é virtualmente patognomónico (que quer dizer: os sintomas definem por si só a Etiologia - ou causa - subjacente): trata-se seguramente de um indivíduo a precisar de ansiolíticos, e já nem precisa de ser auscultado, ou sequer, ouvido, a partir daí, e depois de emborcar generosa dose de benzodiazepinas, pode ser recambiado para o seu domicílio com total segurança para "utente" e médico assistente.
Simplista? Sim senhores, mas numa confusão comum a todas as Urgências deste país, duvido que a atitude geral varie significativamente desta que descrevi.
Pois é, meus senhores, muitos sintomas confundidos não chamam a atenção de nenhum médico. Desviam-na isso sim para a componente "psicossomática". O que é particularmente dramático quando o doente de facto tem algum problema, e apenas está a exagerar nos sintomas.
Nos casos mais caricatos, fica o médico exasperado com a patetice sindromática, e o doente ainda mais apelativo face à reacção inesperada. Afinal, está a contar que lhe dói tudo e o gajo a dizer que ele não tem nada? Que faria se apenas se queixasse do que realmente sente!?
Pois já agora, meus caros, e por outro lado, o doente mono-sintomático, quietinho e prostrado, chama muito mais a atenção. Assusta muito mais quem o vê. O fulano da febre "sem mais nada". O fulano do aperto no peito "esquisito", que nunca tinha sentido antes. O fulano que de repente transpirou muito, ou teve palpitações como nunca tinha sentido antes, e agora está "estranho". Aquele que "nem queria vir", e que acha que já deve "estar tudo bem"....
Ironias.
Por isso aconselho que façam um favor a vocês próprios, e dificultem a vida do vosso médico, queixando-se apenas e só daquilo que realmente sentem, tentando dar o peso certo à intensidade dos vossos sintomas.

4 comentários:

Anónimo disse...

Antes de mais gostaria de me apresentar: sou uma jovem de 18 anos que gostaria de se candidatar a enfermagem para o ano que vem. Contudo,uma grande duvida mantem-se bem viva na minha mente e, apesar de ser uma questao ridicula, nao sei de que forma a esclarecer.
O assunto e' o seguinte: ha' cerca de 3 anos fiz uma pequena tatuagem no pulso. Uma atitude impulsiva, cheia de irresponsabilidade, mas que so agora o consigo aceitar. O que e' certo e' que ja ouvi varias pessoas dizerem que 'gente com tatuagens e piercings nao pode ser enfermeira' ! Esta questao tem-me 'assombrado' os dias. Sera que nao terei sucesso na profissao por esse factor? Irei ser 'mal olhada' ? ou sera que nem sequer conseguirei acabar o curso?
Questoes que 'a partida podem parecer ridiculas, mas sobre as quais reflicto constantemente !
Ao descobrir este blog achei que o melhor seria dirigir-me a um profissional. Assim peço-lhe a sua opiniao e anseio por uma resposta.

Muito obrigada!

Anónimo disse...

Este é um blog de um medico, não de um enfermeiro.
Na profissão de Enfermeira é a sua conduta profissional e personalidade que conta, não as marcas fisicas que tem no corpo. Isso era noutros tempos.

Anónimo disse...

Obrigada !

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