terça-feira, 8 de maio de 2007

Puericultura

Neste blog (http://doutorenfermeiro.blogspot.com/) está a decorrer um verdadeiro debate de banalidades.
Uns acusam outros que ganham muito, são muito maus e manhosos, "capitalistas", malandros, cínicos, e se dermos tempo não tarda a haver insultos no melhor vernáculo. Outros respondem ofendidos, e não nos melhores termos também (mas ofendidos com o quê?...).
A blogosfera resvala frequentemente para isso. É o preço das características que fazem dela também um excelente sítio de debate (mas não se procure por lá por este segundo componente).
E, tal como se faz com as criancinhas mais teimosas, deixo aqui as minhas reflexões sobre o tema.
1º Há enfermeiros certamente melhores (profissionalmente) que muitos médicos; há também enfermeiros piores que outros médicos. E tal como aprecio um bom profissional de enfermagem, classe na qual tenho certamente ainda mais amigos que na médica (talvez pelo seu maior número), desprezo os maus na mesma medida que os meus confrades de profissão.
E reconhece-se bem um bom enfermeiro: aquele que está atento, que assinala, que domina as técnicas, que faz tudo o que for preciso em prol da melhor prestação de cuidados possível ao doente, trabalhando em equipa, gostando ou não da equipa. E o mau: o que se está a borrifar para o doente, o que se rege pela lei do menor esforço, o que gosta de dormir nas velas, e não de vigiar, o que compromete o esforço de equipa em prol do doente em nome de questiúnculas como aquelas que se estão a debater naquele blog.
E, claro, é também muito fácil, após um certo tempo, para um bom enfermeiro reconhecer a qualidade dos médicos que o rodeiam.
2º Os bons deviam ambos (médico e enfermeiro) ser bem remunerados, pelo seu brio; os maus deviam ser pior remunerados, pela sua cretinice.
3º Não fujo à questão que se estarão a fazer, quanto à minha opinião da relação de salários entre uns e outros. Obviamente que só um insano é que pode pretender que, a um nível basal, haja igualdade salarial. Os cursos são abertos, quem quiser pode tirá-los, e vários colegas meus passaram por escolas de Enfermagem e depois transferiram-se para Medicina. E Medicina dá mais trabalho, implicando mais responsabilidade por inerência, daí essa questão não fazer qualquer sentido. Cada um que escolha a sua profissão, e que a exerça com pundonor, sabendo à partida com o que conta. E quem estiver frustrado, de um ou outro lado da barricada, pois que se mude.
4º Concordo que os salários-base estão desvalorizados em Portugal. Por culpa em parte dos próprios médicos, pois nunca se preocuparam em reivindicar mais justiça por "comporem" os mesmos com uma barbaridade de horas extraordinárias. Que entretando se foram instituindo, subvertendo o sistema, e criando vícios difíceis de contrariar, como o da lamentável gestão dos Serviços de Urgência por esse país fora. Os que não fazem horas extraordinárias compõem o salário no privado.
5º A (pseudo-?) falta de médicos não foi "impulsionada" por médicos, interessados em serem "cobiçados" (por serem poucos). Há falsos argumentos melhores que esse. As vagas nas Universidades de Medicina são atribuídas pelo Ministério da Educação, e é esse que deve ser indagado se alguém se quer queixar de "falta" de médicos.
6º Quanto à questão de fundo, debatida pelo MEMI no seu blog, e que gerou esse descontentamento, desconheço-a e por isso prefiro não me pronunciar. Se houvesse, aliás, real debate, eu ficaria também mais esclarecido sobre o que está em questão nessa "reforma", e poderia dar-me ao luxo de opinar no fim, depois de aprender umas coisas. Infelizmente, duvido que vá ter essa sorte.
Lamento pelo conteúdo medíocre deste post aos raros, mas estimados, leitores.

10 comentários:

naoseiquenome usar disse...

:)
Obrigada.
A visão atomística e culpabilizante das classes e dos saberes é profundamente errada.
Existem excelentes médicos.
Existem excelentes enfermeiros.
Gestores, informáticos, economistas, Auxilares, maqueiros, porteiros - na saúde.
E existem, sim, uns tantos maus, de todas as classes profissionais.
As funções complementam-se e uns sem os outros pouco fariam.

Os enfermeiros, foram criando uma boa imagem e de grande confiança na populaçºão alvo.
Não precisam agora de se tornar arrogantes, querendo ocupar o papel do médico que durante muito tempo, era considerado um deus.
Felizmente todos somos humanos. Não existem deuses.

E quanto à formação - sim, quanta mais melhor. Já há muitos doutores (por extenso) e prf. doutores efermeiros. Ainda bem! Desse endeusamento dos médicos resultou que quelquer Doutor médico bé tratado pelo título. Se fôr, Prof é Prof. Doutor. E isso que interessa?

Há imensas profissões hoje, onde após pós-doutoramentos, as pessoas são chamadas apenas pelo nome, ou identificadas pela função. Graças a Deus.

Precisamos de convergências. Não de guerrinhas.

Placebo disse...

Devagar, acho que as coisas vão melhorando.

Pelo menos espero....

Anónimo disse...

Creio que não somos assim tão poucos leitores deste blog... talvez tímidos? lol

Anónimo disse...

Não somos, não.
Mas gostei mais do início, Sr. Placebo.
Gostei da revelação das hipocrisias da sua "classe".
Agora está a ir por outros caminhos...

Hugo Roque disse...

Sim senhor!
Roça quase a poesia. Muito bem!
Disse umas pouscas verdades, mas umas tanta idiotices.
Então de quê é que nos queixamos?
Olhe, podemos começar pela total falta de respeito do seu bastonário para com uma classe profissional que desconhece no todo, como é evidente pela entrevista que o sr "bigodes" deu na TVI, enfim, uma vez mais em directo, a dizer o que bem quis, isto sem possibilidade de resposta (viva a democracia!). Porra já não há PACHORRA para ouvir tal figura.
Relativamente a esssa triste entrevista já dei a minha opinião no tal blog que referiu.

E deixe dizer-lhe: põe este a um cantinho (nem que seja do céu, desse mesmo céu que os meus caros tanto procuram apropriar - mas olhe que esse mesmo céu é como o sol: quando nasce é para todos).

Ponto final, e... até quinta!

Anónimo disse...

Só me posso rir! 1º discutem quem ganha mais, depois discutem que una prescrevem melhor que outros, a seguir é porque querem trabalhar sozinhos e por último quando já ninguem esperava é a do "aquele blog é melhor que o teu!!" lolol

Impressionante ao que chega a mesquinhice!

Placebo disse...

Eu vejo muito pouco televisão.

O Bastonário disse uns disparates corporativos? Não sei, mas pegando na interpretação vigente (e corporativa?), vozes de burro não deviam chegar ao ceu.

Pelos vistos chegaram.
Dispensavam-se imitações.

E não tenho a certeza de ter percebido a maior parte dos comentários....

Hugo Roque disse...

Meu caro anónimo; é como tudo na vida. Uns comparam carros, outros casas, outros mulheres, outros blogs e outros ainda falos.

Pessoalmente prefiro comparar blogs, até porque, e como fácilmente se compreenderá, a toda a acção há uma reacção (causa-»efeito) certo? Certo!
Ora o meu comentário foi exactamente uma reacção a um termo de comparação, understood?
É natural...
Até...SEMPRE!

Miguel Pinho disse...

passei por lá (blogue do doutor enfermeiro) e gistei do que vi. um blogue com coragem de chamar as coisas pelos nomes, que ataca o laxismo, que expõe friamente verdades a que muita gente chama de mesquinhez... revelando mau caracter de "atacado"...
enfim, o direito à liberdade e´stá consagrado na insituição!
não compreendo, subitamente este blogue passou a ser um dos mais falados da blogosfera da saúde!!!!

Anónimo disse...

necessario verificar:)