domingo, 18 de dezembro de 2011

Corporativistas de Pacotilha


É o que somos, os médicos enquanto classe.

Um leitor, julgo que Enfermeiro, faz uns comentários ao post anterior que acabei por perceber serem uma crítica ao que ele julga ser uma "excesso" de rendimentos por parte de alguns médicos com as horas extraordinárias. E levanta a lebre de uma mudança nos horários para contornar esse "despesismo".

O pantanal é tal que se torna difícil delinear um caminho por onde iniciar a resposta....

Para começar, não discordo do que ele diz. O problema, repito, está na dependência, por cretinice de sindicatos e afins ao longo de décadas, dessas horas extraordinárias para o vencimento ser decente. Está no facto de se ter achado normal intergrar-se horas extraordinárias no horário normal de trabalho, camuflando assim uma base salarial insuficiente.

O salário já é excessivo para alguns? Meu caro, não é a mim que precisa de fazer essa pedagogia, estou cansado de o saber e de amargar com essa realidade, mas lamento informá-lo que isso não vai lá com cortes a direito através da classe. Com isso, só vai conseguir que os que trabalhavam afincadamente em prol das suas instituições e dos doentes, e que merecem muito mais do que alguma vez receberam, se desmotivem e revoltem contra essa perseguição cega, que pune quem merece e quem não merece, sendo que os primeiros acabam sempre por sair por cima na contabilidade (quanto mais não seja porque qualquer coisa é mais do que deveriam receber).

Então como é que, com Directores de Serviço incapazes, se melhoram as coisas? Responsabilizando-os pelos resultados dos Serviços que dirigem, exigindo qualidade e responsabilidade, exigindo poupança onde se pode poupar e parabenizando os que fazem um bom trabalho, substituindo higienicamente os outros até se acertar nas fórmulas para cada sítio, com critérios iguais para todos.

Então e não há já Directores de Serviço muito bons por esse país fora? Há sim senhor, só que ter bons Directores com as actuais leis laborais em vigor na função pública, aliadas à escassez de mão de obra médica e à total ausência de avaliação dos Serviços, é o mesmo que lá ter um trolha ou um sapateiro. Não adianta de nada, e de menos ainda adiantará a chamada "avaliação dos funcionários". O único que deve "avaliar" os seus funcionários é o respectivo Director, e não é com uma "nota", é pelo seu desempenho, devendo o Director deve ter total liberdade de fazer uma equipa por ele escolhida, à sua imagem e de acordo com as capacidades dos seus elementos, para depois, repito, SEREM OS DIRECTORES E APENAS ELES RESPONSABILIZADOS PELOS RESULTADOS OBTIDOS com a sua gestão! Mas enfim, isso vale para toda a administração pública, e não custa a perceber que não interessa nada implementar um sistema desses neste país dos cargos com rotação rosa-laranja, em que a competência das chefias é o que menos interessa avaliar pelo status quo que se auto-perpetua, e em que fazer bem ou não fazer nada vale o mesmo.

Para poupar, e poupar a sério, não esta merda que querem fazer com as horas extraordinárias sem consideração pelo facto de terem sido sempre "ordinárias" (e fazer de conta que se desconhece o facto é o melhor remédio para o "povo" não perceber as razões que se possam invocar neste conflito):
-Porque não olhar para os "SIGIC's", o tal "combate às listas de espera", que não são mais que um prémio a quem não trabalha quando devia para depois "resolver" o que não fez no seu horário de trabalho a preço de ouro nas horas livres?
-Ou porque não olhar às "prevenções" que abundam por esse país fora, porque não escrutinar quantas vezes são necessárias, e se vale mesmo a pena continuar a pagá-las?
-Porque não averiguar se é mesmo necessária a presença de todas as sub-especialidadezecas em qualquer chafarica provincial, quantas vezes pagas a peso de ouro, quando a 100 ou a 200 quilómetros (ou infinitamente menos nas grandes cidades) existem os grandes centros para onde poderiam perfeitamente ser encaminhados os poucos casos que delas precisem (chama-se: racionalização de meios)? Ou averiguar da real necessidade de "Urgências" de todas as especialidades "centrais", essas sim horas não raras vezes inúteis, quando desenquadradas de grandes Serviços com real capacidade interventiva?

Pequenos exemplos: adianta-me alguma coisa ter um cardiologista de Urgência sem uma Unidade de Hemodinâmica aberta? Serve para quê, para fazer trombólise (que hoje em dia é eficazmente administrada por qualquer enfermeiro numa qualquer SIV)? Para pôr pacemakers provisórios (que qualquer Unidade de Cuidados Intensivos digna do nome é capaz de assegurar)?
Adianta-me alguma coisa ter um neuro-cirurgião de Urgência? Quando a poucos quilómetros existe uma Unidade com uns poucos?
Adianta-me alguma coisa ter um Neurologista de Urgência? Quando qualquer Hospital com uma boa articulação informática com neuro-imagiologistas faz trombólise sem a sua presença física? E os casos clínicos mais complicados da Especialidade podem facilmentre ser encaminhados para um Centro, ou se não for emergente ser vistos algumas horas depois no horário regular desses especialistas, sem prejuízo para o doente?
Adianta-me alguma coisa ter Unidades diferenciadíssimas, para tratar algumas dúzias de doentes por ano que poderiam perfeitamente ser encaminhados para outras instituições (assim se ARTICULEM as coisas), em todos os hospitais desta praia onde vivemos?

E porque não observar e analisar, para depois poupar, porque é que Serviços semelhantes gastam montantes brutalmente diferentes no seu dia-a-dia? Porque é que uns justificam os antibióticos que prescrevem e outros não? Porque é que nuns sítios se monitoriza os doentes com 500 euros e noutros com metade? E por aí fora....

Mas não, vai ser nas horas extraordinárias a eito. Em muitas ilícitas, bem o sabemos, como ilícito é o próprio salário base de muita gente que chula o Estado com a sua mera presença nos seus quadros, tolerada pelas infames leis laborais que nos "protegem" de nos vermos livres dos incapazes, de podermos repartir o trabalho com gente válida em vez de sermos parasitados no nosso dia-a-dia por aqueles, mas não interessa, no essencial é importante não mexer, e o essencial seria alguma promoção da meritocracia, do trabalho com qualidade, da discriminação positiva (bem como da negativa).

O problema, meus caros, é que também há muita boa gente que vai ver o seu salário reduzido, não de 10% (há um ano), nem de mais 15% sobre o restante (os subsídios de Natal e de Férias), nem de mais não-sei-quantos % de subidas de IVA e outros impostos, mas ainda de uma fatia ainda mais significativa dessas todas no seu salário "base", que incluía as tais "horas ordinárias".

E aí vai incidir sobre toda uma franja de profissionais com a qual seria prudente não mexer muito, porque andam calados e a fazer um trabalho demasiado penoso e ingrato a troco de demasiado pouco, e que menos ainda pretendem que agora seja. Falo de Especialistas nucleares, de Medicina Interna, de Pediatria, de Cirurgia Geral, as grandes especialidades generalistas sem as quais nenhum hospital consegue sobreviver.
Se quer a minha opinião, salvo equívoco total acerca de como se sente esta boa gente, este governo e este ministro, por mais fundamentais que estejam a ser as medidas que vão tomando, não sabem no que se estão a meter.

Estão a liquidar a pouca vontade que às vezes restava para trabalhar em condições que nunca foram boas, e a pouca motivação que havia em nome de um "mal menor".

E eu acho que este imposto discriminatório sobre os nossos rendimentos (que são "trocos" para quem se alimenta das privadas), desta feita, vão ser retribuídos. E vão ser retribuídos em tempo livre, para passar em casa ou a fazer outra coisa qualquer.
E que seja, maneira de dizer, "o que Deus quiser"....

1 comentário:

Mauro_G disse...

Somos todos corporativistas caro Placebo...

E concordo consigo quanto a esse mascarar da realidade com as horas extraordinárias...

É um equilíbrio difícil gerir profissionais, utentes e contribuintes sem que uns não sejam escravizados em função dos direitos de outros...


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