quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Anda Tudo Grosso....

"Primeira morte confirmada pelo vírus H1N1 em Portugal!"
Onde é que já viram isto, meus caros leitores?
Nem tenho palavras, e peço desculpas, mas o ridículo da questão afecta a minha capacidade de sarcasmo.
O Homem de 40 e tal anos é transplantado renal há 14.
O que significa uma doença de base grave que o levou à insuficiência renal terminal, com necessidade de suporte dialítico, ou, como se veio a verificar (e talvez posteriormente), de um transplante.
Essa doença de base grave pode ter comprometido pontualmente o rim ou, hipótese de longe mais provável, ser uma doença sistémica que também compromete, só por si, vários outros órgãos, com eventual falência relativa de alguns deles, e de agravamento potencialmente progressivo. Pode ser uma doença sistémica auto-imune, diabetes, uma panóplia delas. A evoluir até à insuficiência renal há mais de 14 anos atrás, e depois disso até aos dias de hoje.
Por ser transplantado está imunossuprimido há 14 anos, com vários medicamentos que lhe comprometem desde sempre a imunidade contra toda e qualquer infecção (bacteriana, viral, ...), aumentando-lhe a susceptibilidade, quer de se infectar, quer da gravidade da infecção ser substancialmente maior.
Ainda por cima, apesar da imunossupressão, verifica-se rejeição do transplante, com todas as complicações que daí advêm.
A imunossupressão por si só, e com esta duração já significativa, leva a complicações próprias e graves (efeitos adversos).
O doente desloca-se do centro onde o conhecem para o país Natal, onde a sua situação clínica não está tão dominada como no local de diagnóstico e seguimento de sempre. Por outro lado, esta "viagem" do doente não teria sido a pedido do próprio, já perante um prognóstico reservado? Por que outro motivo ele se deslocaria em situação tão instável? Ninguém sabe ainda, e quando se souber, ninguém vai ligar.
Por último, o doente vem para Portugal com o diagnóstico confirmado de pneumonia bacteriana, ao qual se acrescenta o de uma infecção com ponto de partida abdominal (renal?), o que, já agora, são patologias graves que ameaçam seriamente o prognóstico vital em qualquer pessoa de outro modo sã (quanto mais imunossuprimida, com doença sistémica grave de base, com complicações da imunossupressão, em rejeição, ...).
Finalmente, um belo dia, alguém lhe pede um teste para um vírus, porque os vizinhos do lado estariam infectados e porque está na moda (o que diz muito do grau de investimento que estava a ser oferecido ao paciente, relembro que imunossuprimido e gravemente infectado). O teste vem positivo. O doente sucumbe.
Mas alguém no seu perfeito juízo duvida, por um segundo que seja, que este homem morreu por causa do vírus H1N1?
Eu, se mandasse nisto, cancelava já as férias a médicos e militares, e declarava a lei marcial.

2 comentários:

Luís T disse...

A Drª Irene Aragão teve o cuidado de dizer que o paciente faleceu devido a uma «infecção abdominal bacteriana», sendo que «a volta dele para os cuidados intensivos e a morte não têm a ver com a gripe A».
Isto no noticiário do almoço de hoje na TVI, no entanto, após a reportagem, o pivot do noticiário reafirmou que o homem morreu de gripe A.
São tiques de "jornalista", ou será outra coisa?!

Anónimo disse...

Era tudo o que a comunicação social nacional precisava para reacender o espectro de tragédia...
que vergonha!
E nem perante esclarecimentos tão tácitos se acabam as baboseiras...
Enfim!

Venha a lei marcial e calem-se os jornalistas

Cumprimentos


A.Silva