terça-feira, 3 de agosto de 2010

180º

Casal com 30 e tal anos.
Estabiliza daqui, estabiliza dali, finalmente parece haver condições mínimas para assegurar o sustento responsável de alguma descendência.
Casa nova paga ao banco em pontuais prestações, com quartinho em desenvolvimento, roupinhas, numa gravidez que vai correndo bem, 1ª ecografia morfológica, 2ª morfológica, tudo impecável....
35ª semana, a mala já está pronta, as ginásticas pré-parto com muitas outras grávidas em circunstâncias iguais prometem dar frutos brevemente, há entusiasmo e magia no ar.
Náuseas e vómitos.
Serviço de Urgência, CTG e ecografia fetal, tudo bem, "coisas de grávida".
Um par de dias depois mantêm-se as queixas, novo passeio ao SU: "feto morto".
Indignação, desconsolo, revolta.
Mas também doença: mãe com insuficiência hepática, trombocitopenia, coagulopatia, insuficiência renal. Vulgo síndroma HELLP.
Cesariana para extracção do feto morto, em princípio curativa.
Mas neste caso não, agravamento do quadro nas horas seguintes, sépsis, hemorragia com agravamento da coagulopatia, nova intervenção cirúrgica para extracção dos coágulos, persistência da insuficiência renal, afundamento neurológico e coma.
Sentimento de impotência de todos os envolvidos no caso perante a implacável evolução. Último e desesperado recurso: plasmaferese (substituição do plasma do doente por outro, em várias sessões).
E acontece o "milagre": acorda, é extubada, a função renal e restantes parâmetros analíticos melhoram, tem alta dos Cuidados Intensivos para a enfermaria, continua a fazer algumas sessões de plasmaferese até se resolver o quadro, há restitutio ad integrum.
Agora, nesta história feliz, ela pode viver, juntamente com marido, familiares e amigos, na sua casa nova, os gloriosos meses de luto por uma perda que ninguém lhe conseguirá explicar, e que ela nunca irá compreender.

1 comentário:

Jaime disse...

Maravilhoso o texto, dentro da beleza que lhe cabe...

Você é brasileiro ? Ou português ?