segunda-feira, 28 de junho de 2010

"Fasciisação" do Ensino

No "meu tempo", era possível a pessoas trabalhadoras, como os meus pais, com calculado sacrifício, pôr os filhos a estudar em escolas públicas onde havia disciplina, bons e maus professores, bons e maus alunos, mas onde se ensinava, e depois aprendia quem queria.
Hoje em dia tenho as minhas dúvidas que as coisas continuem assim, pelo menos de uma forma geral.
Hoje em dia parece-me que se entrou numa espécie de facilitismo do ensino, onde todo e qualquer burro julga ter o "direito" de ter aproveitamento escolar, onde todo e qualquer desordeiro julga ter o "direito" de fazer o que bem entende durante as aulas, perturbando-as e àqueles que até gostavam de aprender alguma coisa.
Mas, e isso é o pior de tudo, quem manda nisto julga ao mesmo tempo ter o dever de conceder esses "direitos" aos animaizinhos, e estes entranham-se lentamente numa lenta cancerização daquilo que, ao invés de facultar formação e ensino a quem quer, inviabiliza que aqueles que não têm possibilidade de fugir deste "sistema" público saiam da bitola social menor dos seus progenitores, perpetuando um ciclo que assim se torna vicioso, e totalmente anti-meritocrático.
Percebam já agora uma coisa, a mim pessoalmente não me chateia nada, pois felizmente tenho meios, e os meus filhos irão, seguramente, para onde tiverem a capacidade de ensinar alguma coisa. Bem vistas as coisas, estarão em franca vantagem competitiva com todos os outros desgraçados que não conseguem (e não falo da minoria que não quer saber disso para nada) fugir desta coisa a que chamam "ensino público", e que muitas vezes apenas serve para entreter pais e crianças com pseudo-aproveitamentos, enquanto na prática incapacita os formandos que, mais tarde ou mais cedo, se confrontam com o seu real pouco valor competitivo.
A razão de ser deste desabafo é que, se fosse hoje, e nas mesmas circunstâncias, eu era bem capaz de não ter conseguido enveredar pela profissão que gosto.
E este Estado, que bem se vê tem sido ao longo dos anos incapaz, incompetente, irresponsável e hipócrita, teria a obrigação de me facultar as condições para eu lhe aceder em igualdade de circunstâncias com os que, à partida, seriam socialmente privilegiados relativamente a mim.
Porque o único dever de um Estado, numa sociedade realmente equalitária e justa, é facultar ensino para todos. Bom ensino, rigoroso, exigente, discriminatório. E não "dar aproveitamento", canudos, licenciaturas ou doutoramentos a todos. Pois, como já disse, aprende quem quer. Ou devia poder aprender quem quer.
Só não percebo é porque é que estas coisas parecem não chatear ninguém....

6 comentários:

Luz disse...

Concordo com a crítica mas tenho uma visão diferente no que diz respeito ao ensino público vs privado.

Andei no privado até ao 7º ano. Remontamos portanto a 1990. Neste magnífico ano implorei (literalmente) que me deixassem ir para o oficial, como chamávamos.
Era outro mundo! Foram os meus melhores anos de escola a todos os níveis.

Quando chegou a altura de decidir onde colocar o meu filho, optei pelo privado. Digo optei e não optamos porque o meu marido preferia o estatal, mas percebeu que a minha escolha se devia à idade, estava mais protegido e tal....

Sabes o que descobri?
Não mudou nada desde o meu tempo!!!!
O nosso filho, tenho hoje a certeza, foi tão infeliz no privado quanto eu.

Hoje é aluno do ensino público.

Diga-se em abono da verdade que a classe "professores" não é neste momento a que mais respeito por diversas razões mas tenho tido muita sorte... Agora podes dizer-me que a sorte que se tem no estatal também é influenciada pelo papel dos pais. Prepotência à parte é verdade!
Tenho perfeita noção que se não fosse mãe a tempo quase inteiro o meu filho não disponha nem de um terço do que dispõe. Tenho noção que se o relatório de dislexia do meu filho, bem como a avaliação cognitiva e psicopedagógica, viesse de um qualquer anónimo e não de onde veio certamente não lhe davam tanta atenção. Supostamente é difícil ter apoio permanente nas escolas públicas mas não foi....

Não será então a escola pública a mistura de 3 coisas? Maus alunos aos pé de bons, maus professores ao pé de bons e maus pais ao pé de bons? Mas não haverá isso também no privado mas com um maravilhoso camuflado por cima??? Baseando-me na minha experiência tenho a certeza que sim!

Costumo caracterizar a relação que tenho com as professoras do meu filho como "equipa". Não é cada um por si a tentar fazer o melhor para ele, mas todas juntas a tentar fazer o melhor por ele. Não deviria ser sempre assim??
Infelizmente não é, porque há professores desinteressados mas também muitos pais que delegam na escola a responsabilidade de o seu filho saber no fim do ano mais alguma coisa do que sabia no fim do ano anterior e normalmente com a desculpa da falta de tempo. Leva-me a uma pergunta: se não têm tempo porque têm filhos?(Esta já deu discussão que sobre no meu blogue)

Compreendo que a sociedade de hoje seja diferente, mas vejo por aí muitos pais que têm mais tempo para a novela do que para os filhos, já para não falar do cansaço que é queixa predominante dos lares portugueses. E os pais de outros tempos também não se cansavam?....

Seja onde for a melhor defesa é estar sempre alerta, existe de tudo no público mas também no privado.
Hoje se tivesse outro filho (que não vou ter) nem passaria pelo privado!

LUZ

Magistral Estratega disse...

Como apoiar um Estado que induz a procura de cursos sem qualquer expectativa de emprego?

Consumir recursos desnecessários é o que acontece ao termos tantos cursos e universidades públicas...

Porque não restringe o Estado a oferta de vagas às minimamente necessárias para o País e deixar o Privado com as Sobras? Não seria dinheiro que não seria desperdiçado?

Magistral Estratega disse...
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Magistral Estratega disse...
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wanderly araujo disse...

Cá no Brasil as coisas correm meio parecidas.De minha parte sou defensora ferrenha da escola pública, embora tenha convicção de que há professores mal preparados e até desinteressados.Na escola privada eles aparecem menos porque: 1º- são demitidos sem delongas e 2º- escondem-se por trás de materiais (apostilas e outros similares) prontos.Eles só fazem aplicar e "dar" as notas.
Se a classe melhor privilegiada colocasse seus filhos na escola pública, teríamos mais pais em condições de cobrar um ensino de qualidade.Sou educadora com mais de 40 anos no ensino público.Choro e lamento, às vezes, pelo mau desempenho de alguns professores que estão parados no tempo e querem alunos tais e quais foram há décadas atrás...impossível...o mundo mudou e eles também.A escola precisa ser dinâmica para dar conta do recado.

Luz disse...

Wanderly, concordo!

Tenho esta ideia em relação a qualquer profissão mas a educação e a saúde são extremamente sensíveis.Não podemos ter profissionais que só o são pelo dinheiro que ganham, é necessário vocação.

Há 16 anos atrás tive uma professora que a primeira coisa que disse quando entrou na sala no primeiro dia de aulas, depois de bom dia, foi:"eu estou aqui porque não arranjei emprego na minha área, não me façam perguntas a matéria que vou dar é a que está no livro".

Isto não pode acontecer!
Não se pode falar do estado do ensino, da saúde... sem se falar de quem exerce só porque sim mas não sabe o que está lá a fazer.