terça-feira, 22 de abril de 2014

E se?


E se este país estivesse mesmo a viver acima das suas possibilidades?

E se os nossos salários e pensões estivessem realmente acima daquilo que a nossa pobreza permite? E os anos passados mais não fossem do que dar-se o que nunca se teve ao povinho, a troco de uns votos, ao invés da governança a prazo deste rectângulo?

E se este governo estivesse a ser devidamente manietado por uma troika, genuinamente surpreendida pela nossa incapacidade em fazer contas ao longo das últimas décadas?

E se os nossos padrões de vida se regessem mesmo pelos existentes pré-adesão à UE (CEE à data), tendo-nos sido fornecidos entretanto meios que não usamos para desenvolver estruturas que levem a uma maior riqueza do país, antes desperdiçando-os graças ao nosso endémico chico-espertismo, cuja inexistência só por má fé poderemos sequer admitir?

E se as melhorias dos padrões de ensino se resumiram a carradas de sociólogos e outros Drs ólogos que tal, cuja utilidade para se produzir o que quer que seja medível em PIB se aproxima do nulo, limitando-se a travestir os bons números de "sucesso escolar"?

E se as próximas gerações vão mesmo ter que pagar caro pelas reformas e salários que não se podiam conceder nos valores em que foram concedidos, nem nas alturas em que foram permitidas?

E se as próximas gerações vão mesmo, à semelhança dos seus pais e avós há muitos anos atrás, ter que emigrar para um país a sério se quiserem elevar-se desta qualidade de vida, tal como descobrimos afinal ser a nossa, aquela que podemos pagar?

E se os países desenvolvidos forem desenvolvidos porque o conceito de cidadania se eleva acima do folclore pontual do que os paneleiros podem fazer com a sua vida, ou se, não gostando de touradas, devemos proibir com gritaria e muita palhaçada os aficionados de manterem o seu particular prazer, e tantas outras coisas tão superiormente edificantes que tal?

E se os países desenvolvidos forem desenvolvidos porque também se preocupam com uma coisa chamada défice, que em boa verdade ouvimos falar desde sempre, e que julgávamos que, ao contrário do que acontece nas nossas casas, podia ser crescentemente negativo, e que só há menos de meia dúzia de anos a esta parte é que nos preocupamos em realmente saber o que significa? E concerteza que nem todos, sendo que tantos e tantos ainda confundem esse défice (agora menor) com a dívida que ele foi alimentando (e que, evidentemente, continua a crescer...).

E se a matemática for importante? E a Cultura Geral?

E se a Cultura Geral se estendesse para além dos conceitos bacocos de uma filarmónica aqui, uma peça de teatro subsidiada acolá, um foguetório de fim de ano ou uma pimbalhada de Verão numa praceta de uma terriola qualquer?

E se a Educação fosse realmente importante? Uma educação a sério, em que se discutissem conteúdos, em que se discriminassem vocações e capacidades, ao invés de andarmos tão dedicados em condicionar professores de darem uma estalada em fedelhos malcriados para manterem ordem nas suas salas, ou em termos pavor de separar incapazes de capazes para um determinado fim, com receio que isso nos remeta preconceituosamente para a galeria dos intolerantes fascistas pré-modernos, onde se arruma tudo e todos neste país, desde uma certa revolução que não vi acontecer, mas que desta forma silencia qualquer voz discordante do balir oficial das frases feitas e politicamente correctas.

E se soubéssemos que o dinheiro do Estado é o nosso dinheiro?

E se acreditássemos que o nosso dinheiro é melhor gerido se estiver nos nossos bolsos? Como quando escolhemos a rede do nosso telemóvel, a companhia do cabo ou o supermercado onde fazemos as compras?

E se este conceito de "redistribuição da riqueza" mais não fosse do que nos tirarem o nosso dinheiro para o gastarem em canais de televisão que não vemos, em subsídios para coisas que desprezamos, em companhias cujos préstimos nunca iremos usar, ou em obras cuja utilidade nunca existirá?

E se o chavão "os impostos servem para manter o Estado Social" mais não fosse do que uma chantagem idiota e uma afirmação falsa, bastando para isso tentarmos lembrar-nos da última vez que o "Estado Social" nos pareceu realmente útil ou eficaz para quem dele precisa. E se o "Estado Social" fôssemos nós? E deixassem de nos retirar o nosso dinheiro, que depois decidiríamos em que bolsos o pôr. Não faríamos melhor selecção? Com melhor critério que esse "critério nulo" que rege as esclerosadas instituições deste Estado, tão lestas em gastar o nosso dinheiro sem se preocupar com os resultados? Sem exigir resultados?

E se cada povo tem mesmo o Estado, e o país, que merece?

E se os povos ricos fossem ricos porque não gastam mais do que devem, e gastam melhor do que os pobres?

E se, uma vez chegados ao ponto em que gastamos o que temos, conseguindo pagar (ou ir pagando) o que devemos, chegarmos à conclusão que temos que abdicar de muitas regalias a que chamávamos "direitos adquiridos"?

E se o que está escrito na bendita Constituição da República estiver completamente desfasado da realidade? E não tiver qualquer relevância face à crueza dos factos, sendo texto próprio de uns quantos perigosos fanáticos? E caso contrário, porque não escrever lá também que cada português deve ter direito a escolher um carro e uma casa, bem como um emprego vitalício e bem pago, sendo-lhe tudo facultado de imediato aos, digamos, 18 anos? Ou será que algumas destas coisas já lá estão escritas?

E se fosse normal despedir-se um inútil? Um indolente? Nem que fosse para dar lugar a alguém que realmente quer trabalhar e merecer o seu salário? Ou não fosse anormal despedir-se um incompetente? Por forma a fazer-se de conta que este é um sistema meritocrático, que premeia a virtude?


Bem, se isso fosse assim, esse país concerteza não se chamaria Portugal. Terra de belas praias, com um belo sol, céu azul..., um clima único no mundo. E gentes pacatas e simpáticas, como sabemos.

Ou seja, óptimo para se passar umas belas férias!


Já para trabalhar, e viver o resto do ano, é melhor pensar-se seriamente noutro sítio....

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