sexta-feira, 15 de junho de 2012

Fernando Leal da Costa


Não me vou alargar sobre considerações pessoais sobre este senhor, que conheço de vista dos tempos em que fazia Hemato-Oncologia no IPO de Lisboa, e do qual não me ficou nenhuma impressão particular.

Vou falar antes sobre coisas concretas, como por exemplo algumas declarações da criatura política (que podem ser lidas aqui). Por exemplo: "A Ordem dos Médicos não deve ser corporativa e tentar diminuir o acesso dos jovens ao ensino da Medicina e dos jovens médicos às especialidades"; e ainda esta: "Queremos é que não haja nenhum corporativismo que encerre a profissão ao exterior", disse, sublinhando que, nesse sentido, o Governo tem vindo a aumentar os ‘numeros clausus’. "Não vamos consentir que eles sejam artificialmente encerrados", acrescentando que "o interesse nacional está acima do interesse corporativo".

Costuma-se dizer que o povo não se deixa enganar por políticos, e estou certo que a "guerra" mediática entre médicos e Ministério da Saúde (e derivados) não está a ser perdida pelos primeiros por mérito dos segundos. O problema é que também poucos acreditam, resultado de anos de propaganda negativa e de variadíssimos tiros nos próprios pés, em médicos, no sentido lato.

A imagem ficou, o preconceito está enraizado e vai ser difícil de apagar: as pessoas consideram os médicos uma classe priviligiada, corporativa, abastada, quando não desonesta, cínica, pedante e mercenária. Vários posts antigos versam sobre diversos aspectos destes. Poucos, hoje em dia, classificariam a profissão com adjectivos como "de excelência", "nobre", "altruista", e os médicos de "distintamente inteligentes e esforçados". O corporativismo é porém uma miragem, numa classe essencialmente desunida e clivada por regimes de trabalho diferentes (que resultam em remunerações díspares por trabalho semelhante, e que variam do oito ao oitenta), interesses diversos (público, privado, misto) e pensamento maioritariamente individual ou individualista, e só muito raramente colectivo.

O resultado disso é uma satisfação popular generalizada sempre que se "bate nos médicos". Um governante que o faça (como este, calculo, ainda que seja "médico") é tido como "corajoso", um governo (como quase todos neste século) que faça apanágio disso é considerado uma variante de Maria da Fonte de pá em mãos, contra uma espécie de máfia organizada e pérfida. De nada interessa ao povo que disso resulte que a sua saúde esteja cada mais nas mãos do "Pai Estado", e cada vez menos na pessoa que está à frente dela no consultório. Há quem lhe chame mesquinhez e inveja, por várias ilusões de bem-estar que nós não temos, e também com algumas bem reais vantagens que se vão deixando de verificar, estando à cabeça uma suposta "garantia de emprego".

E porque é que essa "garantia" é importante, neste sector em particular, no modelo actual estatizado de prestação de cuidados de saúde? Porque, entre outras coisas, não é crível que existam muitos interessados em passar os melhores anos da vida a marrar em suas casas, a concorrer com os melhores para aceder a uma vaga na Universidade, a marrar durante 6 anos de um curso extremamente exigente e desgastante, a trabalhar depois outros 6-8 anos a tirar especialidades no mesmo regime de exigência, a fazer depois sub-especializações e pós-graduações diversas, numa profissão cuja responsabilidade é enorme, se não for tendo por objectivo algum conforto remuneratório e alguma tranquilidade em termos de garantia de trabalho (ou vá lá, que exista pelo menos a possibilidade de "Mercado").
Isto sob pena de se tornar numa profissão muito pouco aliciante, por ser demasiado trabalhosa e custosa de concluir, em troca de muito pouco ou nada comparativamente com outras. O que a prazo se vai repercutir invariavelmente na qualidade dos serviços prestados. Quando deixam de ser os melhores a procurar um sector para nele trabalharem (e os melhores vão deixar, seguramente, de estar interessados nessas condições que se estão a proporcionar à classe), a qualidade desse sector descresce, sem apelo nem agravo.

Lamentavelmente, não se acautelou historicamente uma carência de médicos que se verificou entre 1995-2010. Foi má gestão do Estado, que deveria, depois da formação maciça de médicos nos anos peri-25 de Abril, gerir melhor as vagas no Ensino Superior, por forma a termos sempre médicos portugueses em número suficiente para assegurar os cuidados de saúde do país. Isto descambou na situação patética de termos que importar médicos estrangeiros para suprir necessidades essenciais dos serviços, enquanto estudantes portugueses emigravam para ser formarem em Medicina. Entretanto fez-se, tarde mas bem, um estudo para precaver futuras necessidades em recursos humanos no sector, por forma a não se repetir semelhante palhaçada. Cujas indicações, à boa maneira portuguesa (quanto terá custado o estudo?), não foram nunca seguidas, ultrapassando-se sistematicamente as reais necessidades de alunos, numa política cujo único objectivo é fragilizar a classe profissional através da geração de desemprego médico, permitindo desta forma negociar trabalho precário e salários infames com as gerações futuras (e que são as que actualmente estão nas Universidades).

O que me traz de volta à referida criatura careca, e que é tema deste post. É muito popular dizer-se que "os jovens" devem ter acesso a tudo o que querem, nomeadamente neste caso à sua pretendida "vaguinha" de Medicina, assim a modos que oferecida com os cumprimentos do Secretário de Estado, através de um esticar até onde ele conseguir dos "numerus clausus", sobretudo se se acrescentar como ele fez que se vai proporcionar isso "contra os interesses corporativos" dos malandros do costume. E "a bem do interesse Nacional", remata muito bem a coisa.
O que este cínico não diz é o que espera estes jovens, aos quais está a proporcionar este sonho, e que vai desembocar directamente para uma política que os pretende atirar a trabalho precário intra-muros ou à emigração.
O que este hipócrita não refere é que hoje, portanto com os numerus clausus de há doze anos atrás (pois quando se tomam medidas a nível da entrada para as Universidades, os resultados vêem-se na saída dos especialistas uma dúzia de anos depois), e que eram bastante mais parcos que os actuais, já não estão a fazer contratos aos especialistas que terminam os seus internatos da especialidade, propondo-lhes antes fazer horas contratualizadas a empresas para os quais os estão a empurrar, sem qualquer outro critério de elegibilidade que não seja a de contratarem aquele que fizer determinado trabalho pelo menor preço.
O que tem a dizer este careca hipócrita e cínico a estes jovens, agora sinceramente, relativamente ao que os espera? Com o superavit de saída de médicos que vai haver nos doze anos que vai durar a sua formação? Se hoje começam a ser especialistas demais para as necessidades, e todos os anos na próxima década vão continuar a sair cada vez mais das Universidades e internatos, quais são as perspectivas que ele tem para oferecer aos seus aparentemente tão acarinhados "jovens", a quem hoje promete a "vaguinha" contra os malandros que depois lhes vão ocupar os postos de trabalho que eles não vão ter à sua disposição? E que salário? Que emprego?

Já agora, excelentíssimo Senhor Secretário de Estado, onde é que sua Excelência vai estar nessa altura? Em que cargo de que empresa pública, ou subsidiária directa do Estado, ou de algum interesse que hoje está promiscua e cinicamente a defender?
Onde vai estar, só para esses jovens, que hoje tanto acarinha, saberem então onde o procurar?

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O mais certo dos Aforismos


   






          "Isto vai acabar mal"

terça-feira, 5 de junho de 2012

A Bandalheira


Isto está a ficar bonito....

Uns teimavam obstinadamente em "adivinhar" quais as marcas de remédios cujos princípios activos funcionariam, deixando o manto da promiscuidade com a indústria farmacêutica assentar definitivamente na sua classe. Outros dizem agora que são farmacêuticos que se devem entregar aos exercícios de adivinhação (e sujeitar-se ao assédio da Indústria?). Ao mesmo tempo que acrescentam que, afinal, muitos destes remédios não prestam mesmo para nada, e que o Infarmed não consegue assegurar esse garante mínimo de qualidade do que nos podem vender nas farmácias.

Uns abandalharam as suas especialidades, admitindo tiques que o resto do mundo acha obviamente inadmissíveis, como o flagrante dersrespeito de horários, ou vícios de actuação impróprios da legis artis, como o inconcebível número de cesarianas que se verificam em Portugal. Outros agora põem em risco o funcionamento de serviços e a segurança de doentes, pretendendo cortar a direito com a necessária flexibilidade e disponibilidade de médicos através do uso de pontómetros, sem o necessário reforço hercúleo e provavelmente incomportável em meios humanos dos serviços. Ou ainda outros ousam ignorar o incremento de morbi-mortalidade perinatal e obstétrica associadas aos partos extra-hospitalares e sem os profissionais mais qualificados possíveis à disposição, num retrocesso digno daquelas criaturas que deixaram de acreditar na vacinação para protecção dos seus filhos de infecções evitáveis.

Uns abusaram da inconcebível penúria de médicos que se verificou por não se ter acautelado devidamente os numerus clausus em tempo devido, fazendo contratos milionários, que não eram precários porque imprescindíveis, ou aproveitaram infames medidas eleitoralistas para combates de listas de espera como os inomináveis SIGIC's, que demonstraram sobretudo que a ganância faz mover montanhas, e que a falta de pundonor e a preguiça grassam em sectores demasiados no seio da classe, sendo inclusive premiados. Outros agora, apesar da existência de estudos com qualidade para se precaver nova situação semelhante quanto às necessidades de meios humanos no sector para os próximos anos, não se fazem rogados e fazem tábua raza dos mesmos, admitindo overdose de licenciaturas no sector, tendo em vista a futura precarização do trabalho, que permitirá um dumping de salários a médio prazo, empurrando alguns dos melhores elementos das nossas escolas para o desemprego, para a classe média-baixa, para os privados ou para o exílio em países que optam por não desperdiçar meios em cursos caros sem saída, preferindo contratar os elementos que fazem funcionar os seus serviços de saúde a países como o nosso, onde é sabido que estimulamos a existência de porteiros com licenciatura e, pelo visto, treino em reanimação, capacidade diagnóstica e terapêutica.

Uns encostaram-se a leis laborais caducas, ideologicamente emperradas por ideários revolucionários que tudo pareciam justificar, e fizeram jus de passar os anos a chular o Estado arrastando as suas inúteis carcaças pelos hospitais sem nada fazerem de útil que justificasse os seus salários, protegidos por "Carreiras" pouco meritocráticas e "progressões automáticas" até à estratosfera dos limites da paciência (e dos bolsos) humana. Outros agora têm o descaramento de fazer concursos públicos, para contratação de profissionais médicos para o SNS, cujo principal critério é o "mais baixo preço/hora". Não a competência, o currículo, a experiência, os anos de serviço, a aptidão para o lugar pretendido. Nada disso. O critério, emanado de uma empresa de contratação, a mando do Ministério da Saúde, é a preferência por aquele que cobrar menos por cada hora de trabalho, ou aquele que se comprometer a ver "mais doentes" no espaço de tempo mais curto (um de 15 em 15 minutos, para ser mais preciso).

Anda tudo doido, e infelizmente não há imaculados nem inocentes nesta matéria. Facilitaria que houvesse, mas não há. Não se pode dizer que "dantes é que era bom", ainda que tal não justifique que se passe a ficar pior ainda, e a muito curto prazo.

É a segurança dos doentes e a universalidade de uma SNS COM QUALIDADE que está em risco. E sublinhei "com qualidade", porque estes governantes maliciosos, besuntados até ao tutano por interesses de quem quer lucrar com este sector, nunca vão dizer que querem acabar com o SNS. Vão dizer que querem "poupar". E que querem poupar "com médicos", o que nos dias que correm até dá votos. E estão de facto a fazê-lo, mas às custas da qualidade. Os hospitais públicos vão ficar progressivamente espremidos dos seus melhores profissionais, que migrarão naturalmente para locais (privados ou estrangeiro) onde premeiem a competência com salários condizentes, e irão secar, apesar de garantidamente bem cheios de uma horda de tarefeiros indiferenciados dispostos a trabalhar quase de borla, por não lhes ser reconhecida competência para os mais altos vôos. Para se ter um certo nível de Medicina vai começar a ser preciso pagar, e a recorrer aos privados. Quem não puder pagar contentar-se-á com o resultado a que esta política vai irremediavelmente conduzir o SNS. O que receio bem vá ser muito pouco, ou demasiado mau.

Acredito, apesar das inúmeras vicissitudes que me levam tantas vezes a criticar de forma mais ou menos mordaz algumas facções da minha "Classe" (aquelas que, no fundo, têm muito pouca classe), e que são facções cínicas, incompetentes, e não merecedoras da profissão que exercem e do salário que ganham (uma vez que parte do bolso de todos nós, no actual sistema em agonia), acredito dizia eu que apesar de tudo isso, há uma maioria de médicos silenciosos, briosos, trabalhadores, competentes e geradores de uma saúde de excelente qualidade para a população portuguesa, como acabam por demonstrar diversos indicadores de saúde devidamente validados, e como poderão testemunhar aqueles que, infelizmente, mais acabam por precisar de cuidados de saúde (não tenho disso dúvida alguma). Não há serviços de excelência em todo o lado, mas há seguramente muitos serviços de excelência espalhados por esse país fora. Não estamos povoados em exclusividade com médicos dignos desse nome, mas há concerteza imensos médicos, uma maioria, que faz tudo pelos seus doentes, e que o faz bem, de acordo com o que de melhor se sabe a nível mundial nesta Ciência.

O futuro da Medicina em Portugal tem que passar por eles, pela sua valorização, para garante da Universalidade de cuidados com qualidade aos portugueses. E até precisa da sua indispensável contribuição directa nas decisões para racionalizar o que é possível em tempos de contenção, sem comprometer o essencial na saúde da população.

Só espero é que as pessoas consigam percebê-lo, antes que seja demasiado tarde. A começar pelos médicos.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Responsabilidades


Estou a ficar mais velho, e por isso vou-me confrontando lentamente com algumas "pérolas" jurídicas do nosso país, que me permite nesta altura concluir pelo seguinte aforismo:
-Só quem faz é que pode ser acusado de fazer mal. Quem nunca faz nada, em Portugal, nunca é responsável por crime algum.

Parece lógico? O nosso sistema judicial também acha, e já me confrontei um par de vezes com calamidades de injustiça decorrentes desta anormalidade.

Longe vão os tempos em que eu pensava que alguns colegas meus eram completamente loucos, não viam os seus doentes decentemente, não escreviam nada nos processos, e quando as coisas davam para o torto, lá tinha que ir um de nós, os que vêem os doentes, os que escrevem nos processos dos doentes, os que tratam os doentes, para salvar a vida da criatura. E pensávamos: "como é possível que alguém seja irresponsável ao ponto de (não) fazer um trabalho destes"?
Que ingénuo que eu era.... Hoje já sei a resposta, e afinal "eles" são os espertos, e "nós" os burros.

De facto, quem não escreve, nem faz, na altura da verdade (a da investigação de uma queixa de algum doente, ou familiar de doente, acerca de um bem ou mal-fundada negligência), nunca é acusado de nada. Vão-se procurar os "suspeitos de crime" onde? Ao processo! E eles, os (ir)responsáveis, não constam do processo!

-"Então porque é que o Dr não viu ou não fez nada"?
-"Já não me lembro".
-"Mas o doente estava muito mal no dia x, porque não escreveu nem fez nada"?
-"Não me lembro desse caso, foi há muito tempo".
-"Mas o Dr y é que foi ver o doente no dia da sua morte, e ele escreveu que o estado era muito avançado, e já não conseguiu salvá-lo por se ter ultrapassado o timing de reversibilidade da doença, sugerindo que o doente tinha sido anteriormente mal abordado"!
-"Então vai ter que falar com o Dr y"....
-"Mas como é possível que o Dr é que era o Médico Responsável do doente, e que só haja registos da sua interna? Você não vê os doentes com a sua interna? Não é o tutor dela? Não está no Serviço a apoia-la todos os dias?"
-"Sou, mas ela é responsável pelo que escreve, é a ela que tem que fazer essas perguntas".
-"Mas apoiou-a, concordou com ela e subscreve o que ela escreveu no processo deste doente em concreto?"
-"Não me posso pronunciar sobre isso, não me lembro do caso concreto".

Quem vai a tribunal neste caso? É a desgraçadinha da interna! O "médico (ir)responsável" não escreveu, logo é ininputável. Em vez de trabalhar estava noutro sítio qualquer, ou simplesmente não ligou nenhuma aos doentes a seu cargo, deixa a interna sozinha e angustiada a dar o seu melhor, sem ela ter os conhecimentos muitas vezes necessários para resolver algumas situações mais complexas (e são essas que correm mal), ela fez o melhor que sabia, e escreveu no processo sempre sem comprometer o irresponsável que a devia tutelar, porque é de mau tom criticar por escrito quem nos vai depois avaliar o desempenho, e acabou a responder nos tribunais por uma negligência que não foi dela, enquanto o verdadeiro (ir)responsável alega falta de memória, remetendo a sua responsabilidade para os seus inexistentes registos. Quem registou lixou-se, quem não fez nenhum safou-se.

O mesmo acontece com os pedidos de observação dos doentes. Há um mesmo médico (ir)responsável pelo doente, e que pede um parecer à especialidade x. O médico da referida especialidade dá um determinado parecer por escrito. O doente não é depois devidamente avaliado, e a coisa corre mal, e acaba de alguma forma nos tribunais (inapelavelmente muito, muito tempo depois...).
O médico (ir)responsável só escreveu até pedir o parecer. Depois do parecer, o processo clínico é um deserto.
-"Então o Dr não observou mais o doente depois de ter pedido este parecer ao seu colega, nos 3 dias seguintes, até o doente ter morrido?"
-"Não me lembro"
-"Mas não escreveu no processo"
-"Escrevi, até pedi um parecer ao especialista x!"
-"Mas então o que é que aconteceu ao doente depois de ter sido observado pelo seu colega"
-"Isso será melhor pedir ao meu colega, eu pedi-lhe um parecer porque achava que ele tinha uma doença relativa à especialidade dele"
-"Mas tinha?"
-"Foi o que escrevi, por isso lhe pedi o parecer"
-"Mas então o que aconteceu ao doente depois?!"
-"Deve ter havido uma complicação no contexto da especialidade desse colega, por isso é que pedi o parecer"

Quem é que se vai sentar no banco dos réus?...

Como estes, tantos outros exemplos que haverá por esses hospitais fora....

O mundo é mesmo um local perigoso. E a "Justiça" é uma espécie de placebo das nossas consciências, quando não uma iatrogenia!

E os nossos antepassados, raios os partam, deixaram-nos uma sociedade de pantanas entre mãos. Escondem-nos isso até bem tarde nas nossas vidas, deixando-nos crescer com a impressão que há alguma arrumação social tendencialmente meritocrática.

Mal de quem se vê envolvido nas malhas destes processos.... Diz-me a experiência que os realmente maus não costumam ter problemas. São autênticos fantasmas. Os bons, aqueles que aparecem, que assumem, que escrevem, é que se lixam sempre.

É a vida....

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Patrões



As sociedades europeias fazem gala de terem legislação que protege o povo da "tirania intrínseca" dos "patrões", olhando com alguma sobranceria e nojo para sítios mais liberais ou libertários, sendo o exemplo mais comumente apontado o dos EUA, onde se admite que a sociedade é menos "solidária", menos sensível à pobreza dos desgraçados e às desigualdades sociais (que, como se sabe, e por nossa definição, é sempre culpa de circunstâncias alheias ao indivíduo, ou por outrras palavras, culpa dos outros, dos "mais abastados").

Há pois por cá essa cultura de culpabilização do sucesso, e de desculpabilização de tudo o resto. O mérito é sorte. O trabalho é privilégio. A inteligência é arrogância. Do outro lado, o demérito é azar, a preguiça é discriminação, a ignorância é condição natural da qual se é sempre inocente.

Enfim, de acordo com esta cultura que é a minha, tenho que confessar sentir-me violentado pelo meu "patrão". O meu patrão contratou-me por x, e retirou 10% ao meu salário sem apelo nem agravo. Depois, apesar de termos acordado 14 salários anuais aquando da minha contratação, decidiu unilateralmente passar a pagar-me apenas 12. Finalmente, depois de anos a obrigar-me a trabalhar mais horas que aos demais trabalhadores (o meu patrão legisla as leis que depois executa, não sendo passível de ser levado à justiça, que já agora convenientemente não funciona quando dá jeito que não o faça), pagando-me em função dessas horas que me obrigava a fazer, decidiu agora que me iria pagar metade pelas mesmas (e ainda que tenha recentemente voltado atrás, não interessa, fê-lo apenas por ter constatado que de facto não conseguia assegurar o meu trabalho de outra forma, ou seja, com a minha precaridade).

Este "patrão" é o sacro-santo Estado, que por esta Europa fora se endeusou como forma suprema de garante da justiça que falta aos outros modelos sociais.

Mas eu estou farto deste patrão, que a mim parece cada vez mais um caloteiro hipócrita, na medida em que, tendo esse poder, não permite que eu tome as mesmas decisões para com os meus credores. E já tentei, dizer ao meu banco que passava a pagar menos 25% da prestação da casa, aos senhores da luz, do gás e da água a mesma coisa, aos senhores das gasolineiras, dos carros e dos bens de consumo em geral que não pagava mais os 23% do IVA. Tentei e não resultou....

Ou seja, apesar de toda esta aculturação, acho que aqui há gato. Começo a ficar curioso de saber como será ter um patrão que celebra comigo um contrato, e que o cumpre. Ou que, se não o cumprir, é levado à justiça e é punido de acordo com leis claras e que não mudam em função das suas conveniências. E esse patrão imaginário, desgraçadamente "liberal" ou "libertário", parece-me, curiosamente, muito atractivo à luz dos presentes dias.

Julgo que vou desde já é começar a procurá-lo, porque do outro começo a ficar farto....

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

We (Don't) Want You


Vou contar uma pequena história da minha vida (bem sei que o interesse é relativo, mas o espaço é meu, por isso...).

Cresci no seio de uma bela família de classe média-baixa, quiçã mais abastada que a média, fruto de terem procurado os meus progenitores sustento por outras bandas que não este ingrato rectângulo onde vivemos agora.
Deram-me uma educação (na altura não era para todos essa possibilidade), e sem me ter apercebido de onde teria vindo a ideia, a minha mãe a partir do meio da minha adolescência começou a ventilar aos nossos próximos que eu "gostaria de ser médico".
Nunca fiz muito caso desse seu delírio, mas enfim, sempre fui bom aluno na escola, e à falta de melhor alternativa, chegada a altura, lá optei por enveredar por Medicina.

Vocação? Nem sei bem o que é isso ao certo, acho que as vocações que eu eventualmente tive era ser polícia para aí até aos 10 anos de idade, futebolista até ao 14 e jornalista desportivo depois disso. Medicina? Não, não me apetecia descobrir a cura para o cancro nem partir para África em missão humanitária aos 18 anos. Como disse, à falta de melhor "vocação", parecia-me engraçada a perspectiva, para um rapaz espertinho como eu, de atingir um estatuto que eu próprio dava aos médicos, que sempre vi como entidades estranhas que conseguiam saber coisas que me pareciam simplesmente fora do alcance do comum dos mortais, para além que me parecia que todos ganhavam a vida pelo menos de uma forma bem satisfatória, isto adicionado ao facto que nunca me pareceu que trabalhassem por aí além.

Ou seja, na minha doce ilusão, iria aprender a ser assim naqueles 6 anos de curso (depois descobri que eram mais 2 de Internato Geral e mais 5 de Internato Complementar), e que depois disso teria dinheiro e tempo para desfrutar da vida. Era a recompensa por ter sido bom naquilo que todos me pareciam pedir para fazer bem: estudar.

No 4º ano da faculdade, tinha eu uns 22 anos, entrei pela 1ª vez na minha vida num Hospital, e contactei pela 1ª vez com doentes internados, e até hoje, bem, aí não vos vou maçar mais com o desenvolvimento desta história.

Grosso modo não me enganei (ou a minha mãe, melhor dizendo, não se enganou). De facto, quase 20 anos volvidos, sinto-me bem com os meus conhecimentos na matéria, confortável no exercício da profissão, sinto-me realizado (muito à custa -e esta é uma característica da "Classe" em geral- de um ego que se alimenta a si próprio), ganho bem a vida (mesmo que isso não queira dizer que seja jogador de golf, que passe as minhas férias no estrangeiro ou que me deleite em SPA's no fim-de-semana), e só a parte do volume de trabalho é que me saiu um pouco furada, relativamente às minhas expectativas.
E, sorte suprema, até gosto muito do que faço, ou seja, desenvolvi a tal "vocação", que me parece improvável que possa existir honestamente aos 18 anos (ainda que não exclua a hipótese de haver por aí muito adolescente borbulhento muito mais maduro do que aquilo que eu era...).

E esta historieta para dizer o quê, perguntam os pacientes leitores que chegaram a este parágrafo?

Para dizer que caso tenham uma progenia semelhante à que eu tive, não se deixem enganar, porque as coisas mudaram.
Não enveredem, jovens pré-universitários, na sequência da excelência no desempenho do que vos pedem no liceu, por este ramo. Invistam noutras áreas, porque aqui em Medicina, o objectivo desta sociedade em que nos encontramos parece ser apenas e só um: desvalorizar tudo aquilo que vocês fizerem ao longo da vida, para vos nivelar pelo mais baixo que conseguirem, e têm-no conseguido muito bem.

Vão-vos começar por chamar "privilegiados", como se alguém vos tivesse oferecido o curso e ele não tivesse sido alcançado fruto do vosso esforço, do vosso trabalho e de privações. Estão a fazer proliferar Universidades e médicos com o único intuito de provocar desemprego, para, dizem, tornar mais "competitivo" o sector, quando na realidade têm por único objectivo poderem-vos pagar o que quiserem, com a alternativa de vocês não conseguirem ganhar nada. E dir-vos-ão, se não estiverem satisfeitos, ou se não comerem e calarem, que podem sempre emigrar (o que, vá lá, não será muito difícil, caso se mantenham por cá os actuais padrões de qualidade na formação). Vão-vos dizer que vocês são "técnicos de saúde", e não médicos. Vão-vos tratar, fazendo publicamente gala disso, como se trata "qualquer funcionário público". Vão insinuar que aquilo que fazem pode ser feito com a mesma eficácia por diversos outros profissionais, que não tiveram que trabalhar metade do que vocês trabalharam para depois reivindicar competências equivalentes às vossas.
E o povo, esse que tanto vos admirou por serem trabalhadores, atinadinhos e dedicados aos estudos, é o mesmo que vai deixar de gostar de vós a partir do momento em que lerem o juramento de Hipócrates, passando a aplaudir e a votar naquele que mais vos achincalhar com voz grossa.

Ou seja, nem reconhecimento (que eu ainda pude ter), nem dinheiro (que eu ainda pude ter), e muito menos qualidade de vida no trabalho (que, salvo raras excepções, de facto nunca existiu para a maioria).

Não desperdicem as vossas capacidades intelectuais, quando chegar a hora de escolher um caminho terminado o liceu, em Medicina. Dá trabalho, muito trabalho, e deixou de compensar por todos os motivos que referi.
Deixem que se vulgarize o que de qualquer forma vai sendo vulgarizado, pois aqui vocês deixam de ser "inteligentes" a partir do momento em que escolhem Medicina, e passam a ser "marrões" com motivações meramente mercenárias.

Mas gostam da área de "Saúde"? Não sejam parvos, há milhentos de alternativas à Medicina bem menos trabalhosas e bem mais compensadoras, mesmo em "Saúde", onde as probabilidades de brilharem com muito menos esforço são bem melhores. E com mais futuro.

Quem vos avisa....

sábado, 7 de janeiro de 2012

"O Amor à Camisola": Retrato de uma Insatisfação Colectiva


"O Serviço Nacional de Saúde funciona 24 sobre 24 horas, 7 dias por semana, semana após semana. Como é isso é feito?
Os enfermeiros e os auxiliares trabalham por turnos. Os médicos não.


Os médicos têm um horário “normal”, X horas por semana (35, 40 ou 42 horas, conforme o regime de trabalho), em que fazem tarefas “normais”: cuidam dos doentes internados nas enfermarias, fazem consultas, exames complementares, cirurgias.... Dentro dessas horas “normais”, estão incluídas 12 horas de “urgência”. São horas em que prestam serviço nos Serviços de Urgência, Unidades de Cuidados Intensivos, Urgências Internas de apoio aos serviços, etc...


Porém, as 12 horas semanais de “urgência” de todos os médicos não chegam para assegurar o funcionamento 24 sobre 24 horas, 7 dias por semana, semana após semana, de todos os serviços de saúde que não podem parar.
Por esse motivo, há mais de 30 anos que, por lei, os médicos podem ser obrigados, mesmo que não queiram, a fazerem até 12 horas extraordinárias de trabalho por semana.


O problema é que, mesmo essas 12 horas extraordinárias de todos os médicos não chegam para assegurar o funcionamento 24 sobre 24 horas, 7 dias por semana, semana após semana, de todos os serviços de saúde que não podem parar.

Então, já há muito tempo, os médicos trabalham o seu horário semanal habitual, trabalham as 12 horas extraordinárias a que são obrigados por semana, e, muitas vezes, trabalham ainda mais períodos de 12 ou 24 horas extraordinárias a que não são obrigados, mas a que se dispõem mesmo assim. Porquê? Por motivos de dois tipos:



1) motivos financeiros: as horas extraordinárias são pagas a um valor que permite aos médicos aumentarem o seu vencimento mensal.
2) “amor à camisola”: os médicos trabalham para instituições às quais sentem pertencer. O prestígio da instituição é o seu prestígio. O desprestígio da instituição é também o seu. Quando um colega lhes diz “tenho um buraco na escala de urgência da próxima semana, não me fazes um favor e fazes mais 12 horas?”, com frequência dizem que sim, por sentirem ser um pouco o seu “dever” assegurar o funcionamento sem falhas da “sua” instituição.


O problema é que este “amor à camisola” já há alguns anos que não existe, que é passado. Porquê?
Os médicos deixaram de pertencer ao “quadro” do hospital, passaram a ser contratados a Contratos Individuais de Trabalho. As vantagens não financeiras desapareceram (ADSE, apoio na doença, segurança no trabalho e nas regras de contratação, etc..). Deixou de haver impedimento às mudanças de médicos de um hospital para outro, o que passou a acontecer com frequência. Passaram a trabalhar nos hospitais, nomeadamente nas urgências, médicos “free-lance” que fazem 12 horas de urgência neste hospital, 12 horas no outro hospital, sem pertencerem propriamente a nenhum. Os médicos deixaram de “pertencer” a este ou àquele hospital, e passaram a existir no hospital muitos médicos que lá vão trabalhar só umas horas. E daqui a uns meses já são outros.
Desapareceu o “amor à camisola”.
Sobraram os motivos financeiros. Mesmo com estes, sempre foi difícil arranjar médicos para assegurarem todos os serviços, 24 sobre 24 horas.


E agora...
Com o novo Orçamento de Estado, o Ministro da Saúde acabou com este último incentivo às horas extraordinárias. E abriu uma Caixa de Pandora da qual não se apercebeu.


Após anos e anos a fazerem horas intermináveis extra nas urgências, os médicos já não têm agora nenhum motivo para as fazerem. Já não são obrigados por lei a fazerem horas extra. Já não lhes é financeiramente compensador fazerem horas extra. Já não sentem os problemas da instituição como “seus”.


Os serviços não funcionam sem as horas extra dos médicos. Mas estes estão fartos. Aceitaram o corte de 10% no vencimento em nome da crise (como todos os outros funcionários públicos). Aceitaram o corte de 2 ordenados em nome da crise: total 23% do vencimento (como todos os outros funcionários públicos).


E até aceitam o corte no preço pago pelas horas extra.
Só não aceitam é fazê-las."


Dr Tiago Tribolet Abreu "dixit", aqui reproduzido a partir das redes sociais onde foi originalmente publicado, com a sua autorização

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

"Ultra-Liberais"


Ventos de esperança sopram dos EUA, através da impressionante campanha do "republicano" Ron Paul, liberal convicto (o único?) da escola económica austríaca, que defende menor intervenção do Estado na Economia e na vida das pessoas em geral.
As aspas, para os que não são seguidores, devem-se ao facto dele estar encaixado no partido por razões meramente conjunturais, dado que naquele país não se faz política fora de um dos dois grandes (ele tentou no passado e não conseguiu). Razão pela qual, aliás, ele é odiado por uma facção maioritária do mesmo, só se verificando algum destaque da sua parte por ausência de alternativas realmente consensuais do verdadeiro senso da maioria daqueles eleitores. E ele lidera nos menores de 40 anos, e nos independentes que chegam ao partido (única e exclusivamente pela sua presença no mesmo).

Liberal deve advir de liberdade.

Como ele tão bem ensina, e demonstra, não há liberdade com muito Estado. O Estado retira liberdade expropriando o dinheiro dos contribuintes, para depois redistribuir uma pequena parcela pelos mesmos, arbitrariamente e sem sentido meritocrático, guardando uma significativa parte para os seus boys e girls, sob a forma de administradores de empresas públicas e tachos que tal. E o Estado perpetua-se, porque, lá como cá, dois partidos revezam-se sazonalmente, não estando por isso nada interessados em mudar um estado de coisas que tanto os favorece e aos seus enraizados lobbys.

Mas isto não é uma Democracia? O povo não pode optar diferentemente?
Não, não pode. Qualquer alternativa política, por mais séria que seja, é aniquilada por algumas tiradas mainstream dos media (controlados, evidentemente, pelo omniprsente Estado), pela desacreditação desavergonhadamente caluniosa, e pela cultura do medo. E esse medo resulta do simples facto do Estado estar em todo o lado, por tirar muito a todos (particulares, empresas...), para depois voltar a dar alguma coisa a alguns (que até podemos ser nós), mas esse "alguma coisa", de tanto que nos tiram, passou a ser quase imprescindível para a nossa sobrevivência, já não conseguimos viver sem esse "alguma coisa" que nos devolvem, e aqui estamos todos a embarcar na caravana para não morrermos de fome amanhã, ainda que estejamos a ficar gravemente desnutridos a médio-longo prazo.

Estamos reféns das migalhas que nos dão, após nos terem roubado o pão.
Mas como sempre nos roubaram parte significativa do pão, já não sabemos bem se o saberíamos gerir se, por milagre, ele ficasse inteiro para nós. E isso também assusta.
Saberíamos guardar o pão para a velhice? O Estado diz que consegue (ainda que as reformas sejam cada vez mais uma miragem, e cada vez mais insuficientes para aqueles que as têm).
Saberíamos poupar o pão para uma eventual doença intercorrente? O Estado é o"garante" da saúde "universal" (e, não se riam: "gratuita"!!), ainda que todos no meio saibamos, e até comecem a abundar exemplos, de como se consegue fazer melhor com menos.

A inveja que tenho deste empresário que agora desertou, deslocando-se para local mais civilizado, onde não lhe roubam tanto do fruto do seu trabalho e da sua boa gestão, para depois desperdiçarem o saque com uma corja de rotativos mamões. Eles, os mamões, esperneiam, mas sabem bem que são a causa dessa fuga, e só cá fica quem, como eu, não tem tanta certeza que o abandono do conforto do "país Natal" compense. No lugar dele teria seguramente feito o mesmo, só que há mais tempo, prometendo não voltar enquanto fossem os mesmos símios a mandar nisto (o que se arrisca a significar muito, muito tempo).

Somos ingleses em Nottingham, o xerife tira-nos tudo e não há Robin dos Bosques à vista, nem qualquer floresta de Sherwood a acalentar no seu seio alguma esperança de mudança futura.

Não há? Talvez haja. Talvez Robin seja Ron Paul, e talvez Sherwood seja esse país de boa inspiração no passado (que foram os EUA pré-colonialistas). Gosto de imaginar isto nestes tempos deprimentes, de ideias esclerosadas e sem ideais viáveis à vista.

Pouco Estado nas nossas vidas, ou Estado mínimo para garantia da propriedade privada, da segurança Interna e Externa, e da Justiça. E que resulta num regime de "Imposto Mínimo", a ser usado rigorosamente para aqueles fins (e, conceda-se, numas quantas alíneas sociais que importa assegurar, nem que seja para não dificultar ainda mais o desmame da "subsidio-dependência"), acabando-se as mamas para "decisores públicos" para tudo e mais alguma coisa, de "gestores públicos" de empresas insolventes, inviáveis e falidas, e dessa tacharia toda sem fim.

Não queremos Estado a dizer-nos o que podemos comer, o que podemos fazer nas nossas horas livres, o que devemos ver na televisão, nas ruas, nas salas de cinema ou no teatro.

Não queremos Estado a obrigar o nosso filho a estudar acolá, pelo simples facto de morarmos ali. Queremos pôr o nosso filho a estudar no sítio onde lhe proporcionam melhor educação, onde eles se sinta melhor e onde existam melhores condições de apoio aos pais na função educativa, de acordo com o NOSSO critério. E também não queremos que o Estado condicione professores e gestores escolares, nem que obriguem ao ensino disto ou daquilo porque assim alguém de duvidosa capacidade arbitrariamente decidiu, eles têm que poder orientar-se autonomamente, para depois nós decidirmos se optamos ou não pelo modelo que nos estão livremente a oferecer.

And so on, and so on....

Este post não tem fim à vista mas tem mesmo que acabar, e Ron Paul não será presidente dos EUA, já sou demasiado velho para começar agora a acreditar no sobrenatural que seria tanta evolução no espaço de uma única geração. Mas a semente está aí, já tem raízes e vai crescer, até secar secar definitivamente o Keynesianismo reinante de uma vez por todas. Vai levar é algum tempo....

Mesmo que o senador chegasse a tornar-se numa ameaça, ele seria seguramente liquidado, pelo simples facto de haver demasiados interesses, e demasiado grandes e poderosos, na manutenção do status quo.

Talvez num amanhã se cante.
Bem haja Ron Paul!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Coisas Numeradas


A OCDE volta a visitar a saúde dos seus países membros, e publica um relatório interessante, que se pode consultar na totalidade aqui.

Da leitura transversal, algumas "surpresas":
-Os indicadores principais de saúde não nos envergonham no panorama global, bem pelo contrário, e a evolução ao longo dos anos é positiva;
-Não se gasta muito em saúde, quando comparados com outros países (e face aos resultados);
-Tratam-se muito mal os dentes por cá;
-Não há assim tão poucos médicos, e estão mal distribuídos;
-Há relativamente poucos de enfermeiros no activo, para demasiados formados;
-A Nefrologia (incluindo os transplantes renais) tem números impressionantes à escala mundial;
-Não há cuidados continuados em Portugal, e o investimento é praticamente nulo;
-Parece haver ainda algo a melhorar quanto à produtividade médica, mas os números são confusos;
-Consomem-se demasiados remédios, ainda que no capítulo dos "antibióticos" não estejamos tão mal quanto eu pensava;
-Há demasiadas cesarianas;
-Há cada vez mais gordos, e demasiada diabetes "do adulto";
-Morre-se muito menos "acidentalmente".

Isto é um cheirinho do documento que poderá e deverá ser esmiuçado de formas muito mais diversas.
Mas lá que este sector parece não merecer a espremidela financeira que se avizinha, proporcionalmente semelhante (ou até superior) à de outros neste país cujos méritos estão muito menos bem definidos, lá isso não.

Enfim, não é nada que me parece que vá sensibilizar muito os nossos gestores de mercearia....

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Isabel Vaz


“Isabel Vaz aponta a vantagem da nova PPP de Loures: “o Dr. Vítor Gaspar inscreveu uma verba no Orçamento, que é exactamente quanto lhe vai custar”.
O novo Hospital de Loures – a primeira Parceria Público-Privada do grupo Espírito Santo Saúde – abre portas a 19 de Janeiro. Este foi o mote para uma conversa com a presidente do Espírito Santo Saúde, Isabel Vaz sobre a reorganização do parque hospitalar de Lisboa, sobre os riscos das PPP e sobre o contexto actual da Saúde, sem esquecer a invariável discussão sobre o papel dos privados: “É por essa mentalidade, do medo do lucro, quando o lucro é o que faz a sociedade andar, que continuamos um país atrasado”, defende.
Fala-se que anda a contratar médicos com propostas irrecusáveis e ordenados milionários, numa altura em que os médicos do SNS vão sofrer cortes nas remunerações. É verdade? 
Primeiro ponto: o hospital de Loures é público. Todos os médicos que vêm trabalhar para Loures vêm fazer serviço público. Segundo, nós comprometemo-nos com o Estado a fazer mais barato do que aquilo que o Estado consegue fazer. Não consigo perceber o que as pessoas querem dizer com propostas irrecusáveis. Estamos a pagar aquilo que no nosso país, com o contracto que temos, nos é permitido. Temos uma grande vantagem em relação aos nossos colegas, é que Loures é um hospital de raiz e como tal estamos a escolher as equipas. Ou seja, não tenho que subsidiar médicos, enfermeiros, auxiliares, que não querem trabalhar, e que não contribuem para o sucesso das organizações. Não tenho que conviver com funcionários que não produzem aquilo que deviam produzir, com a qualidade que deviam prestar.
O Hospital de Loures é a primeira PPP do Espírito Santo Saúde. Haverá diferenças na gestão entre os hospitais do grupo ESS e Loures? 
As diferenças vêm da estrutura de financiamento do hospital. Ou seja, as seguradoras, os financiadores privados trabalham hoje com uma estruturação completamente diferente daquilo que são os hospitais públicos. No terreno o que é importante é tratar os doentes exactamente da mesma forma.
Mas numa PPP o risco é maior?
É muito maior. Nas PPP o Estado passa para os privados uma quantidade total de riscos.Posso dizer-lhe que desde a nossa proposta o IVA aumentou de 19 para 23%. É um risco nosso. Quando fizemos a proposta ao Estado o mundo era um, agora é outro. Os ‘spreads’ tiveram aumentos violentíssimos e o acesso ao crédito na banca faz-se em condições completamente diferentes. E tudo isso foi assumido pelo sector privado. O Dr. Vítor Gaspar inscreveu uma verba no Orçamento, que é exactamente quanto lhe vai custar.
Mas nas PPP não há o risco da quebra da procura.
Nesse aspecto, dentro do Serviço Nacional de Saúde, não há o que é no fundo o risco-mor do sector privado que é o de os doentes não nos escolherem.”

Esta entrevista é um hino à meritocracia, e um atestado de disfuncionalidade e incompetência das instâncias públicas que regem o SNS.
A Dra Isabel Vaz propõe-se fazer aquilo que o governo faria por 100, cobrando ao Estado apenas 90. Cobrando 90 ao Estado, ela ainda vai dar 10 de lucro aos privados que serve. Ou seja, vai fazer por 80 aquilo que o Estado faria por 100, e vai fazê-lo melhor. Porque tem melhores condições físicas, estruturas melhor pensadas, produtividade optimizada. E, sobretudo, porque tem melhores profissionais ao seu serviço. Porque paga melhor, apesar de ter 80 ao invés dos 100 das entidades públicas homólogas para distribuir.
A Dra Isabel Vaz, sei-o de fontes que lhe dão serventia, só encontra paralelo à sua generosidade para com quem trabalha bem, na sua intolerância para as abéculas inúteis que por cá proliferam, e que pelos vistos nem ela consegue filtrar a 100%. E a generosidade traduz-se em flexibilidade nos horários de trabalho (os serviços existem para servir eficazmente o público, e são flexíveis, sempre em torno desse único objectivo, não havendo medidas autistas de "pôr dedos" e de horários rígidos onde o que se pretende é 100% de funcionalidade), em incentivos pela boa produtividade, adaptada a cada especialidade, e em bons salários base, em boas condições de trabalho, em boas condições de descanso e lazer sempre que esse é possível (sem haver "tabus" de estar alguém numa dada altura "sem fazer nada", desde que o seu serviço esteja bem assegurado e a disponibilidade seja total).
A Dra Isabel Vaz não corta a direito. A Dra Isabel Vaz discrimina! E a discriminação da Dra reflecte-se muito positivamente nos que trabalham bem, sendo desagradável a todos os outros.
Valha aos primeiros a Dra Isabel Vaz, esta ilhota de sanidade deste país esquizofrénico. Para os outros resta sempre o SNS....