segunda-feira, 13 de junho de 2011

No Outro Dia... (I)


Uma senhora, diabética, amputada do membro inferior direito ao nível da coxa, e já amputada de alguns dedos do pé esquerdo, descompensou.


Havia necrose distal do membro inferior esquerdo, a requerer amputação acima do nível do joelho, e estava a precisar de diálise, podendo ficar dependente para o resto da vida da substituição renal, ela que vinha sendo uma insuficiente renal crónica compensada, até à data.


A senhora recusou qualquer um dos tratamentos, quer a amputação, quer a diálise.


Está no seu direito.

domingo, 12 de junho de 2011

Como Provar que o SNS Não Presta?

-Manter direcções de Hospitais e Serviços ao sabor dos desvarios do partido no poder;
-Manter financiamentos baseados em determinados actos avulsos e mal medidos, por forma a que os Hospitais-Empresa mantenham por objectivo maximizar os mesmos, sem se preocuparem em apresentar boas soluções integradas para a Saúde dos habitantes que servem, com as particularidades de cada local;
-Manter valorizações profissionais baseadas em pseudo-"carreiras";
-Manter esta cultura de tomada (ou não-tomada) de decisões, sem responsabilização subsequente dos (desejavelmente) responsáveis pelas suas consequências;
-Manter esta política do medicamento, em que o Infarmed se desreponsabiliza não negociando com os laboratórios, deixando na mão dos profissionais se escolhem esta ou aquela marca de um mesmo princípio activo;
-Manter esta política do medicamento, em que o Infarmed se desreponsabiliza mantendo a comparticipação de vários placebos;
-Manter essa ausência de política de aquisição de materiais, em que cada qual compra o que bem entende de forma totalmente desintegrada da realidade dos outros hospitais/centros de saúde;
-Manter essa aposta na hiper-especialização sem sentido de áreas não-técnicas em saúde, criando quintas e lobbys escusados, encalhando procedimentos, e complicando a descentralização onde não seria necessário "complicar";
-Manter essa teimosia na não-centralização de áreas técnicas (ou algumas do conhecimento) muito específicas, que não precisavam de ter uma chafarica de 2ª categoria em cada canto do país;
-Manter essa política de saúde centrada na reacção acrítica aos meios de comunicação social, que nos põe a falar de gripes desta ou daquela letra do abecedário e de pepinos, gastando sem sentido preciosos recursos (entre os quais a paciência de muitos), quando existem muitas problemáticas sérias à espera de serem abordadas de forma integrada (como por exemplo o problema ANUAL da gripe sazonal!), e que levariam a que não fosse preciso essa cosmética pacóvia em que nos empenhamos de cada vez que surge uma notícia mais ou menos alarmante neste ou naquele pasquim;
-Manter a total ausência de discussão entre entidades reguladoras e profissionais de saúde (pelo menos) sobre a morte e o que a rodeia (e/ou deveria passar a rodear), sobre decisões de final de vida, sobre viabilidade, individualidade, eutanásia, distanásia, suicídio assistido, etc....
Entre tantas outras coisas. Assim de cabeça lembrei-me destas. A rever....

terça-feira, 7 de junho de 2011

Lógica, Prioridades e Reflexões


A clarificação das questões relacionadas com o fim de vida (suicídio ou morte assistida, eutanásia, testamento vital, cuidados paliativos, etc...) permitirá controlar o non-sense em que se tornou alguma gestão de recursos em Saúde. Mas não só.


Não faz sentido que se coloquem válvulas cardíacas percutaneamente que custam 30.000 euros, cardio-desfibrilhadores implantados, pacemakers topo de gama, quando ANTES (de precisarem dessas intervenções) esses mesmos doentes não tinham recursos nem acompanhamento adequado para tratarem a sua hipertensão arterial, a sua diabetes, a sua dislipidemia, a sua obesidade, ....


Não faz sentido que se administrem paliativamente (ou simplesmente sem critério...) quimioterapias caríssimas em doentes em estádio terminal, quando esses mesmos doentes não tiveram dinheiro ou não havia recursos para fazerem rastreios colonoscópicos, mamografias, citologias do colo, ....


Não faz sentido que se faça diálise a doentes acamados, escariados, dementes, que não têm família e vivem abandonados em lares sem qualidade de vida, ou sem dinheiro para sequer se alimentarem adequadamente.


E por aí fora.


Uma das minhas actividades consiste em seguir doentes com certas patologias, alguns dos quais requerem um tratamento (de fornecimento exclusivamente Hospitalar) que custa cerca de 1500 euros mensais ao Estado (sendo gratuito para o doente). O Estado Social, e bem, permite que qualquer cidadão com critérios para esse tipo de tratamento o obtenha, independentemente dos seus recursos financeiros.
Esse tratamento é a única solução às dores que sentem. Ou, nos piores casos, a melhor. Muito gratificante para quem trata estas doenças, como podem calcular.
O drama, é que estou convencido que alguns dos meus doentes, pelas más condições de vida em geral em que vivem, se soubessem quanto custa o tratamento e lhes colocassem a alternativa de ficarem com o (muito) dinheiro que custa ao invés do remédio, optariam pela primeira opção, e aguentariam as dores.
"É porque não lhes dói que chegue", dirão alguns. Mas dói.


O problema é que concebendo-se a saúde, não como uma colecção mais ou menos grande de patologias, mas sim (como aliás diz, e bem, a definição da OMS) como sendo um estado genérico de "bem estar físico e psicológico", esses doentes teriam razão na troca, tal o sofrimento que a falta de meios materiais lhes provocam.


O que será melhor, as dores articulares, ou o frio, a fome, o desamparo?
A vida não é fácil....

Burgessos ou Inteligentes?

Um burgesso, perante a questão da prescrição em Enfermagem, diz: -"nem pensar"!
Um Inteligente diria: -"o que entende por prescrição em Enfermagem, concretamente"?
E chamar-se-ia a isso uma base concreta para um futuro entendimento e esclarecimento sério da questão.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Défices e Dívidas

Antes do mais, os maluquinhos defensores (mais ou menos conscientes) que alguém no mundo tem a obrigação moral de sustentar os nosso vícios e desvarios, façam o favor de mudar desde já de blogue, o que se segue não vos vai fazer qualquer sentido.
Estamos, os restantes, perfeitamente de acordo que não podemos gastar mais do que aquilo que produzimos. Que se temos 5, não podemos gastar 10 (nem 8, nem 5,5...). Que se pedimos 10 com 10% de juros anuais a 10 anos, teremos nessa altura que ter pago 20.
E por aí fora. Coisas de matemática, de "deve e haver"....
O problema, o vosso e o meu, é que não sabemos se quem nos (des)governa sabe fazer contas. Ou se se regem por estes princípios. E quem nos governa, nesta nossa sociedade em que o Estado chama a si mais de metade dos rendimentos dos seus cidadãos para os "investir" no que bem entende, trata da riqueza do país, e dos seus cidadãos, sendo isso que está em jogo. E o seu futuro, e o dos seus filhos.
Nas mãos portanto de alguns eleitos, sabe-se lá bem com que critérios, com que enganos, com que intenções, com que responsabilizações pelos seus actos.
Mesmo acreditando que agora se vão passar a fazer as contas, preocupa-nos se o que produzimos, e podemos gastar, "chega". Já sabemos que não chega concerteza para gastarmos o que gastávamos dantes (o que tínhamos e não tínhamos). Mas será que chega para vivermos com a mesma qualidade? Se racionalizarmos, se gastarmos melhor, com critério, se nos esforçarmos, será que tem que se notar que gastamos menos (aquilo que temos), e já não o que pedíamos e nunca teríamos?
Eu acredito que se pode começar a gastar bem o pouco que temos. Escolhendo os melhores para gerir, que por sua vez se rodearão com os melhores, e assim sucessivamente.
E acredito que isso se pode fazer de duas maneiras: privatizando e contratualizando com os privados, por um lado. Despartidarizando por outro, nomeadamente toda a gestão do que não é "privatizável", e que terá que se manter nas mãos deste Estado que nos habituou a ser mau gestor, gastador, mentiroso e desavergonhado. Qual Sheriff de Nottingham.
Mas também responsabilizando, penalizando e perseguindo gestões danosas. Valorizando o mérito. Desburocratizando.
Cabe a cada um de nós zelar para que se vão dando os passos, por tímidos que sejam, nessa direcção moralizadora, nos tempos vindouros, contra os aparelhistas e chupistas de sempre (já não xuxalistas, mas outros tal e quais, ligados ao novo (des)governo, e que estão a esta hora na calha, a alinharem-se para os apetecidos tachos que vão vagar).
Caso contrário, seremos definitivamente um povo sem alma, de um país sem futuro para oferecer aos nosso filhos.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Será Lícito Ainda Acreditar?...

Libertar a sociedade do Estado. Libertar o Estado dos aparelhos partidários.” -Pedro Passos Coelho, 1 de Junho
Se calhar vou voltar a ser burro, só mais desta vez. Um Homem tem que acreditar em alguma coisa....

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Essencial vs Acessório

Pode vir a ter diabetes, mais se for gordo.
Pode vir a ter hpertensão arterial, mais se não tiver cuidado com a ingesta de sal.
Pode vir a ter cancro do pulmão, doença pulmonar obstrutiva crónica, doença aterosclerótica, mais se fumar.
Pode vir a ter cirrose, mais se beber álcool....
"Podem"-nos acontecer muitas, muitas coisas, algumas das quais influenciadas por variáveis que podemos controlar (influenciadas, e não determinadas; que podemos, e não necessariamente que quereremos ou iremos...).
Há uma coisa, porém, que nos vai acontecer a todos, de certeza absoluta.
Curiosamente, não parecemos minimamente dispostos em discutir as condições com que vamos viver essa inevitabilidade. Às vezes nem me parece que estejamos sequer curiosos....
E eu gostava que abríssemos a pestana antes que o meu karma me dite a chegada do tal dia, por forma a não ter que emigrar ou tornar-me criativo, mais ou menos fora-da-lei, para o conseguir passar com um mínimo de condiçoes e dignidade.
Passamos, nós médicos, o tempo a falar de saúde, em como prolongá-la, curar a doença e adiar a morte. Não estamos muito mal nesse capítulo, o caminho vai-se fazendo com todos a puxarem para o mesmo lado.
Não passamos é tempo que chegue a falar da morte, que eu fui descobrindo que anda muito maltratada por este país fora, isso quando é tratada.
Não dá prisão não tratar a morte, sabiam? Deixar uma doença potencialmente reversível seguir o seu curso sem tratamento pode ser, e geralmente é, complicado; deixar uma pessoa a agoniar horas, dias, ou até mais tempo sem -sequer- paliação adequada, é eticamente desculpado -não desculpável!-, desde que tenhamos a certeza que a cura não é possível ou "razoável".
Na dúvida damos tudo.
Na certeza acanhamo-nos, desviamos o olhar, desprezamos.
Isto faz algum sentido?
Dramaticamente, ninguém se importa. Ninguém excepto todos aqueles que passam por ela, o que a prazo somos todos, e que, por ironia, de seguida deixam de ter a voz que faltaria para a correcção desta gravíssima insuficiência.
Em nome dos vossos cuidados de saúde, daqueles cuidados que vão seguramente precisar um dia, interessem-se por suicídio assistido, por eutanásia, por testamento vital....
Sejam empáticos com os que morrem hoje, porque só assim terão alguma simpatia nesse dia de amanhã, e atenção que ele vai concerteza chegar demasiado cedo.
Interessem-se por morte.
Com dignidade.
Por vós.

domingo, 29 de maio de 2011

Ainda os Enfermeiros

Alguns já me disseram que as posições sobre a Enfermagem neste blog são incompletas e ambíguas.
Não pode ser de outra forma. O espaço seria insuficiente para uma dissertação mais séria, e o objectivo é apenas demonstrar uma visão diferente, limitada e geralmente temática, sobre uma determinada classe que me é próxima e complementar no dia-a-dia.
Em primeiro lugar, cada qual seguiu a profissão que bem entendia. Que eu saiba, isto já não funciona por castas nos dias de hoje, tivemos os mesmos concursos, e fomos distribuídos de acordo com critérios iguais para todos pelas vagas do Ensino Superior que estavam disponíveis, pela ordem que as regras ditavam, de acordo com as vocações de cada qual e respectivos resultados.
Quem foi para Medicina já sabia que não ia ter salário aos 21 anos como (à data) acontecia com os enfermeiros, não ia trabalhar por turnos, etc....
Por outro lado, sabia-se que, a prazo e depois de muito mais tempo de estudo, se teria melhor salário, bancos de 24 horas (conforme as Especialidades), e nessa fase dos 18 anos pouco mais....
Posto isto, não vou rematar com um "cada qual, a partir daí, deve viver com as competências das respectivas profissões".
Essas competências, já o escrevi, devem ser, e são, dinâmicas.
Concretamente, a questão da "prescrição", e dos "diagnósticos de Enfermagem". Grande parte da celeuma que isso causa na minha "Classe" se deve ao facto de julgarmos que o Enfermeiro se vai sentar em frente ao doente e, do alto dos seus 4 anos de curso, desatar a adivinhar qual a doença do doente, e como a deverá tratar, tal como um médico o faz após 6 anos de curso, 2 de Internato Geral e 4 a 6 de Especialização. Ou seja, que os Enfermeiros pretendem a mesma competência com metade a um terço da nossa formação.
Não é obviamente disso que se trata, e em vez de alguma facção radical-caviar da Enfermagem se dedicar a ressabiamentos foleiros acerca de um mal gerido complexo de inferioridade quanto aos médicos (o que é obrigatório acontecer quando ignoram competências alheias para as quais não estão nem de perto capazes de assegurar com qualidade semelhante), traduzidos muitas vezes em chavões próprios de mentecaptos, como a comparação de competências diferentes, logo incomparáveis, aproveitando-se sobretudo de alguma insatisfação na classe por problemas laborais decorrentes quase exclusivamente do excesso de profissionais (para as vagas existentes).
Em vez disso, dizia eu, deviam-se dedicar em explicar o que isso deve significar concretamente, para a devida definição das coisas e a melhoria subsequente dos cuidados aos doentes, que é no fundo o fim comum a que todos os profissionais sérios se deveriam dedicar, sejam médicos ou enfermeiros.
E é importante essa clarificação. "Diagnósticos de Enfermagem" e "Prescrições em Enfermagem" deveria ser, para simplificar, tudo aquilo que qualquer enfermeiro está cansado de saber, mas que tem que pedir ao médico para formalizar, quer o diagnóstico, quer a atitude a tomar em conformidade com o 1º.
O doente tem febre: o Enfermeiro deve dar o anti-pirético, após questionar o doente sobre possíveis alergias, não é necessário um médico para isso, e é ridículo que ainda assim seja nos dias que correm. Idem-aspas para inúmeros outros exemplos que poderia dar, como as obstipações, a gestão de sondas entéricas, vesicais, a gestão de analgésicos em cuidados paliativos, de perfusões de insulina em cuidados intensivos, com variações de acordo com o local em que cada qual está a trabalhar (uma Unidade de Paliativos difere duma de AVC's, que por sua vez é bem diferente de uma de Cuidados Intensivos Cardiológica ou Polivalente, por exemplo). Transportando para Consultas, as questões dos pensos, do tratamento das úlceras, do pé diabético, etc, etc....
No fundo, porque isto já vai longo, o que já acontece, informalmente, em todos os sítios que prezam por uma certa racionalidade na actuação prática, sem pedantices bacocas e delírios de autoridade sobre o conhecimento, que alguns colegas meus tristemente exibem, por outro lado e em contraponto aos radicais que referi antes....
Formalizar, portanto, o que já acontece informalmente nos sítios que trabalham bem.
Felizmente trabalho num sítio onde os médicos são muito bons, quer em qualidades médicas, quer nas pessoais, e os Enfermeiros são ainda melhores, e também nas duas vertentes. Ou seja: é muito fácil tudo isso que referi acima, dependemos todos uns dos outros, ajudamo-nos todos uns aos outros, fazemos tudo aquilo que sabemos e perguntamos o que não sabemos, acrescendo ainda por cima a isso tudo um desnecessário, ainda que sempre bem vindo, sentimento de profunda amizade e respeito uns pelos outros.
Gostamos de trabalhar juntos, mas também de estar juntos quando não trabalhamos. Bem como os "Auxiliares de Acção Médica", que se juntam assim a nós em todos os contextos e nos mesmos moldes.
Isso sim, é saber viver, e melhor ainda, saber trabalhar, bem e com gosto.
E pode acontecer em qualquer sítio, bastando para tal que não haja atritos entre "Classes" sem classe, mas tão só pessoas cheias de classe, ainda que de classes bem diversificadas....

Gratuitidade da Saúde em Portugal

Um dos chavões mais grosseiramente falsos desta terra.
Um dos chavões mais exasperantes, recorrentemente repetido por "beneplácitos" que não hesitam em usar e desperdiçar o nosso dinheiro, eufemisticamente designado por "dinheiro do Estado" ou "de todos nós" (como se também lhes pertencesse a "eles"...), querendo geralmente ir ainda mais longe dando-nos a entender que é pertença de alguma entidade (tipográfica?) misteriosa supra-nacional, e que se não for desperdiçado ao desbarato num qualquer Serviço Público será devolvido à procedência e perdido para sempre.
A Saúde NÃO É gratuita. O SNS NÃO É gratuito.
Em pequenas (e redutoras) frases...:
-Os salários dos profissionais (e suas reformas) custam muito dinheiro...;
-A comparticipação dos medicamentos custa muito, muito dinheiro...;
-Os exames complementares de diagnóstico, e inúmeros consumíveis usados em saúde, custam balúrdios de dinheiro...;
-A tecnologia em saúde é muito cara (e usa-se tecnologia de ponta, muitas vezes num qualquer vão de escadas do Hospital);
-As estruturas físicas em Saúde, e sua manutenção, custam muito dinheiro;
-Tudo o que anda "à volta" das estruturas de saúde (lavandarias, tratamentos de materiais, transporte de doentes, empresas alimentares, etc...), custa muito dinheiro.
Ou seja, isto não é "gratuito". Isto é, isso sim, um enorme MONSTRO insaciável sorvedor de toneladas de dinheiro, de uma enorme parte do rendimento dos portugueses, de uma grande parte do nosso salário, do nosso trabalho, todos os meses.
Chamar-lhe "gratuito", ou "tendencialmente gratuito" porque se pagam uns trocos para se ser atendido aqui ou ali ou comparticipar isto ou aquilo, é, ou profundamente estúpido, ou altamente insultuoso (quando feito, como não raras vezes o é, com dolo de expressão).
E quando eu me indigno com esta suposta gratuitidade, ao contrário do que ameaçam os que se alimentam deste monstro por nós sustentado para assustar os incautos, não pretendo que deixe de existir Universalidade de acesso aos cuidados de saúde, bem pelo contrário. Nem pretendo que passe a ser pago por cada um de nós, bem pelo contrário; espero isso sim que o SNS se torne minimamente sustentável, por forma a que persista para sempre, não existindo apenas para os que adoecem hoje mas para que continue para quando adoecerem os meus filhos e netos.
Pretendo é que as pessoas saibam que isto é caríssimo (e não "gratuito"), que há formas menos caras de se gerir com igual (ou melhor) eficácia isto tudo, prestando melhores serviços, combatendo-se o desperdício, o laxismo, o tachismo partidário que existe, e em peso, nas instituições de saúde por este país fora.
Isto é: saibam bem que é possível pagarem muito menos do que pagam hoje em dia (e que é imenso!!), e passarem a ter melhores cuidados de saúde.
Ou seja, a conjuntura não é: "isto é fraquito, mas pelo menos é gratuito". Isto serve para enganar papalvos e eternizar tachos que muito agradam a tantos, a demasiados, há demasiado tempo....
A real conjuntura é: isto é um brutal desperdício, uma péssima gestão do vosso dinheiro, com a desculpa de ser "pela vossa saúde", quando na realidade é consequência de despotismo puro e duro do Estado sorvedor, incompetente e irresponsável. Deve-se, e sobretudo PODE-SE, fazer muito melhor, gastando menos do nosso dinheiro (ele é NOSSO), por um SNS universal que não deixe ninguém sem tratamento neste país.
É mesmo possível, assim haja vontade em assumir-se isso.
É o mínimo, o "primeiro passo"....

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Enfermeiros

Isto a propósito de uma mensagem que muito me entristeceu, e que recebi, por mail, proveniente de uma amiga enfermeira, que a deve ter reencaminhado para a sua lista de contactos, e da qual constava mais ou menos o seguinte: era intitulada "os enfermeiros também contam!" ou algo do género, e era o link para um vídeo acerca do irmão alucinado do Paulo Portas que, após internamento relacionado com um cancro, fez um elogio sentido à classe de enfermagem publicamente, num canal qualquer de televisão.
O que me entristeceu não foi, obviamente, o elogio não se ter dirigido principalmente ao médico que o tratou, e muito menos o facto de ter feito o elogio a essa classe que tanto admiro.
O que realmente me deixa perplexo é tudo aquilo que terá levado a baixar a auto-estima a esta representante da classe, ao ponto de publicitar o referido vídeo, como se fosse de estranhar que o papel do enfermeiro fosse reconhecidamente importante, quando eu sei que ela está cansada de saber que conta, e muito, no Serviço onde trabalha, e onde ninguém consegue fazer como ela o seu papel.
E isto leva-me a um considerando acerca da ânsia que alguma franja da classe dos enfermeiros terá na aquisição de competências diversas, que os aproximarão mais aos médicos, afastando-os ao mesmo tempo mais da enfermagem tradicional, como eu a reconheço. Essa franja deve alimentar-se dessas dúvidas que pairam sobre alguns, da importância do seu papel nos cuidados de saúde. Do seu papel tal como ele existe HOJE!
O bom enfermeiro, hoje, é quem está junto do doente, é seu amigo e confidente, seu "tratador" naquilo que temos de mais íntimo e que é a nossa higiene pessoal, é seu monitor de parâmetros vitais e o primeiro passo no reconhecimento de sintomas e sinais, o interlocutor com outros actores (como médicos) e por isso na abordagem adequada subsequente e instituição do tratamento apropriado. E isso, não é feito por mais ninguém que não ele. Nem se coaduna com registos ridiculamente extensos que preenchem o tempo de quem devia era estar junto dos que precisam dele, nem com esticar de "ratios", nem com mais esta ou aquela competência.
E porquê? Porque "isto" que devia acontecer, já é trabalho tempo inteiro, que facilmente preenche o horário de qualquer profissional de enfermagem!
Não se deve, por outro lado, confundir a desvalorização em termos salariais (e nunca de importância da profissão) da classe, com a necessidade da sua reforma. O que se passa é que não precisamos de tantos enfermeiros, e não que precisamos de novos sub-tipos de enfermeiros (idem aspas com os médicos, cuja única diferença é que se têm defendido melhor em termos de formação desenfreada de elementos no ensino Superior).
O pior que podia acontecer era termos enfermeiros com competências, logo defeitos, que os tornassem mais parecidos com os médicos, sem que com isso fossem médicos (ou tornando-se assim "médicos de segunda"), acrescendo a perda de qualidades que são exclusivas dos enfermeiros (ficando, ainda por cima, "enfermeiros de segunda"...).
Os doentes, e todos os sistemas de saúde, precisam dos enfermeiros. Destes, que já existem há muito, por serem precisos e preciosos. Julgo não ser preciso inventar nada. Apenas valorizar o que somos e temos, sem complexos infundados de inferioridade, devidos a razões que nada têm a ver com a essência da profissão em si, de nobreza imaculada.
Oxalá eu tenha um enfermeiro assim para tratar de mim um dia, quando precisar. E não um desses hi-tech que alguns estão a querer "inventar".