segunda-feira, 30 de maio de 2011

Essencial vs Acessório

Pode vir a ter diabetes, mais se for gordo.
Pode vir a ter hpertensão arterial, mais se não tiver cuidado com a ingesta de sal.
Pode vir a ter cancro do pulmão, doença pulmonar obstrutiva crónica, doença aterosclerótica, mais se fumar.
Pode vir a ter cirrose, mais se beber álcool....
"Podem"-nos acontecer muitas, muitas coisas, algumas das quais influenciadas por variáveis que podemos controlar (influenciadas, e não determinadas; que podemos, e não necessariamente que quereremos ou iremos...).
Há uma coisa, porém, que nos vai acontecer a todos, de certeza absoluta.
Curiosamente, não parecemos minimamente dispostos em discutir as condições com que vamos viver essa inevitabilidade. Às vezes nem me parece que estejamos sequer curiosos....
E eu gostava que abríssemos a pestana antes que o meu karma me dite a chegada do tal dia, por forma a não ter que emigrar ou tornar-me criativo, mais ou menos fora-da-lei, para o conseguir passar com um mínimo de condiçoes e dignidade.
Passamos, nós médicos, o tempo a falar de saúde, em como prolongá-la, curar a doença e adiar a morte. Não estamos muito mal nesse capítulo, o caminho vai-se fazendo com todos a puxarem para o mesmo lado.
Não passamos é tempo que chegue a falar da morte, que eu fui descobrindo que anda muito maltratada por este país fora, isso quando é tratada.
Não dá prisão não tratar a morte, sabiam? Deixar uma doença potencialmente reversível seguir o seu curso sem tratamento pode ser, e geralmente é, complicado; deixar uma pessoa a agoniar horas, dias, ou até mais tempo sem -sequer- paliação adequada, é eticamente desculpado -não desculpável!-, desde que tenhamos a certeza que a cura não é possível ou "razoável".
Na dúvida damos tudo.
Na certeza acanhamo-nos, desviamos o olhar, desprezamos.
Isto faz algum sentido?
Dramaticamente, ninguém se importa. Ninguém excepto todos aqueles que passam por ela, o que a prazo somos todos, e que, por ironia, de seguida deixam de ter a voz que faltaria para a correcção desta gravíssima insuficiência.
Em nome dos vossos cuidados de saúde, daqueles cuidados que vão seguramente precisar um dia, interessem-se por suicídio assistido, por eutanásia, por testamento vital....
Sejam empáticos com os que morrem hoje, porque só assim terão alguma simpatia nesse dia de amanhã, e atenção que ele vai concerteza chegar demasiado cedo.
Interessem-se por morte.
Com dignidade.
Por vós.

domingo, 29 de maio de 2011

Ainda os Enfermeiros

Alguns já me disseram que as posições sobre a Enfermagem neste blog são incompletas e ambíguas.
Não pode ser de outra forma. O espaço seria insuficiente para uma dissertação mais séria, e o objectivo é apenas demonstrar uma visão diferente, limitada e geralmente temática, sobre uma determinada classe que me é próxima e complementar no dia-a-dia.
Em primeiro lugar, cada qual seguiu a profissão que bem entendia. Que eu saiba, isto já não funciona por castas nos dias de hoje, tivemos os mesmos concursos, e fomos distribuídos de acordo com critérios iguais para todos pelas vagas do Ensino Superior que estavam disponíveis, pela ordem que as regras ditavam, de acordo com as vocações de cada qual e respectivos resultados.
Quem foi para Medicina já sabia que não ia ter salário aos 21 anos como (à data) acontecia com os enfermeiros, não ia trabalhar por turnos, etc....
Por outro lado, sabia-se que, a prazo e depois de muito mais tempo de estudo, se teria melhor salário, bancos de 24 horas (conforme as Especialidades), e nessa fase dos 18 anos pouco mais....
Posto isto, não vou rematar com um "cada qual, a partir daí, deve viver com as competências das respectivas profissões".
Essas competências, já o escrevi, devem ser, e são, dinâmicas.
Concretamente, a questão da "prescrição", e dos "diagnósticos de Enfermagem". Grande parte da celeuma que isso causa na minha "Classe" se deve ao facto de julgarmos que o Enfermeiro se vai sentar em frente ao doente e, do alto dos seus 4 anos de curso, desatar a adivinhar qual a doença do doente, e como a deverá tratar, tal como um médico o faz após 6 anos de curso, 2 de Internato Geral e 4 a 6 de Especialização. Ou seja, que os Enfermeiros pretendem a mesma competência com metade a um terço da nossa formação.
Não é obviamente disso que se trata, e em vez de alguma facção radical-caviar da Enfermagem se dedicar a ressabiamentos foleiros acerca de um mal gerido complexo de inferioridade quanto aos médicos (o que é obrigatório acontecer quando ignoram competências alheias para as quais não estão nem de perto capazes de assegurar com qualidade semelhante), traduzidos muitas vezes em chavões próprios de mentecaptos, como a comparação de competências diferentes, logo incomparáveis, aproveitando-se sobretudo de alguma insatisfação na classe por problemas laborais decorrentes quase exclusivamente do excesso de profissionais (para as vagas existentes).
Em vez disso, dizia eu, deviam-se dedicar em explicar o que isso deve significar concretamente, para a devida definição das coisas e a melhoria subsequente dos cuidados aos doentes, que é no fundo o fim comum a que todos os profissionais sérios se deveriam dedicar, sejam médicos ou enfermeiros.
E é importante essa clarificação. "Diagnósticos de Enfermagem" e "Prescrições em Enfermagem" deveria ser, para simplificar, tudo aquilo que qualquer enfermeiro está cansado de saber, mas que tem que pedir ao médico para formalizar, quer o diagnóstico, quer a atitude a tomar em conformidade com o 1º.
O doente tem febre: o Enfermeiro deve dar o anti-pirético, após questionar o doente sobre possíveis alergias, não é necessário um médico para isso, e é ridículo que ainda assim seja nos dias que correm. Idem-aspas para inúmeros outros exemplos que poderia dar, como as obstipações, a gestão de sondas entéricas, vesicais, a gestão de analgésicos em cuidados paliativos, de perfusões de insulina em cuidados intensivos, com variações de acordo com o local em que cada qual está a trabalhar (uma Unidade de Paliativos difere duma de AVC's, que por sua vez é bem diferente de uma de Cuidados Intensivos Cardiológica ou Polivalente, por exemplo). Transportando para Consultas, as questões dos pensos, do tratamento das úlceras, do pé diabético, etc, etc....
No fundo, porque isto já vai longo, o que já acontece, informalmente, em todos os sítios que prezam por uma certa racionalidade na actuação prática, sem pedantices bacocas e delírios de autoridade sobre o conhecimento, que alguns colegas meus tristemente exibem, por outro lado e em contraponto aos radicais que referi antes....
Formalizar, portanto, o que já acontece informalmente nos sítios que trabalham bem.
Felizmente trabalho num sítio onde os médicos são muito bons, quer em qualidades médicas, quer nas pessoais, e os Enfermeiros são ainda melhores, e também nas duas vertentes. Ou seja: é muito fácil tudo isso que referi acima, dependemos todos uns dos outros, ajudamo-nos todos uns aos outros, fazemos tudo aquilo que sabemos e perguntamos o que não sabemos, acrescendo ainda por cima a isso tudo um desnecessário, ainda que sempre bem vindo, sentimento de profunda amizade e respeito uns pelos outros.
Gostamos de trabalhar juntos, mas também de estar juntos quando não trabalhamos. Bem como os "Auxiliares de Acção Médica", que se juntam assim a nós em todos os contextos e nos mesmos moldes.
Isso sim, é saber viver, e melhor ainda, saber trabalhar, bem e com gosto.
E pode acontecer em qualquer sítio, bastando para tal que não haja atritos entre "Classes" sem classe, mas tão só pessoas cheias de classe, ainda que de classes bem diversificadas....

Gratuitidade da Saúde em Portugal

Um dos chavões mais grosseiramente falsos desta terra.
Um dos chavões mais exasperantes, recorrentemente repetido por "beneplácitos" que não hesitam em usar e desperdiçar o nosso dinheiro, eufemisticamente designado por "dinheiro do Estado" ou "de todos nós" (como se também lhes pertencesse a "eles"...), querendo geralmente ir ainda mais longe dando-nos a entender que é pertença de alguma entidade (tipográfica?) misteriosa supra-nacional, e que se não for desperdiçado ao desbarato num qualquer Serviço Público será devolvido à procedência e perdido para sempre.
A Saúde NÃO É gratuita. O SNS NÃO É gratuito.
Em pequenas (e redutoras) frases...:
-Os salários dos profissionais (e suas reformas) custam muito dinheiro...;
-A comparticipação dos medicamentos custa muito, muito dinheiro...;
-Os exames complementares de diagnóstico, e inúmeros consumíveis usados em saúde, custam balúrdios de dinheiro...;
-A tecnologia em saúde é muito cara (e usa-se tecnologia de ponta, muitas vezes num qualquer vão de escadas do Hospital);
-As estruturas físicas em Saúde, e sua manutenção, custam muito dinheiro;
-Tudo o que anda "à volta" das estruturas de saúde (lavandarias, tratamentos de materiais, transporte de doentes, empresas alimentares, etc...), custa muito dinheiro.
Ou seja, isto não é "gratuito". Isto é, isso sim, um enorme MONSTRO insaciável sorvedor de toneladas de dinheiro, de uma enorme parte do rendimento dos portugueses, de uma grande parte do nosso salário, do nosso trabalho, todos os meses.
Chamar-lhe "gratuito", ou "tendencialmente gratuito" porque se pagam uns trocos para se ser atendido aqui ou ali ou comparticipar isto ou aquilo, é, ou profundamente estúpido, ou altamente insultuoso (quando feito, como não raras vezes o é, com dolo de expressão).
E quando eu me indigno com esta suposta gratuitidade, ao contrário do que ameaçam os que se alimentam deste monstro por nós sustentado para assustar os incautos, não pretendo que deixe de existir Universalidade de acesso aos cuidados de saúde, bem pelo contrário. Nem pretendo que passe a ser pago por cada um de nós, bem pelo contrário; espero isso sim que o SNS se torne minimamente sustentável, por forma a que persista para sempre, não existindo apenas para os que adoecem hoje mas para que continue para quando adoecerem os meus filhos e netos.
Pretendo é que as pessoas saibam que isto é caríssimo (e não "gratuito"), que há formas menos caras de se gerir com igual (ou melhor) eficácia isto tudo, prestando melhores serviços, combatendo-se o desperdício, o laxismo, o tachismo partidário que existe, e em peso, nas instituições de saúde por este país fora.
Isto é: saibam bem que é possível pagarem muito menos do que pagam hoje em dia (e que é imenso!!), e passarem a ter melhores cuidados de saúde.
Ou seja, a conjuntura não é: "isto é fraquito, mas pelo menos é gratuito". Isto serve para enganar papalvos e eternizar tachos que muito agradam a tantos, a demasiados, há demasiado tempo....
A real conjuntura é: isto é um brutal desperdício, uma péssima gestão do vosso dinheiro, com a desculpa de ser "pela vossa saúde", quando na realidade é consequência de despotismo puro e duro do Estado sorvedor, incompetente e irresponsável. Deve-se, e sobretudo PODE-SE, fazer muito melhor, gastando menos do nosso dinheiro (ele é NOSSO), por um SNS universal que não deixe ninguém sem tratamento neste país.
É mesmo possível, assim haja vontade em assumir-se isso.
É o mínimo, o "primeiro passo"....

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Enfermeiros

Isto a propósito de uma mensagem que muito me entristeceu, e que recebi, por mail, proveniente de uma amiga enfermeira, que a deve ter reencaminhado para a sua lista de contactos, e da qual constava mais ou menos o seguinte: era intitulada "os enfermeiros também contam!" ou algo do género, e era o link para um vídeo acerca do irmão alucinado do Paulo Portas que, após internamento relacionado com um cancro, fez um elogio sentido à classe de enfermagem publicamente, num canal qualquer de televisão.
O que me entristeceu não foi, obviamente, o elogio não se ter dirigido principalmente ao médico que o tratou, e muito menos o facto de ter feito o elogio a essa classe que tanto admiro.
O que realmente me deixa perplexo é tudo aquilo que terá levado a baixar a auto-estima a esta representante da classe, ao ponto de publicitar o referido vídeo, como se fosse de estranhar que o papel do enfermeiro fosse reconhecidamente importante, quando eu sei que ela está cansada de saber que conta, e muito, no Serviço onde trabalha, e onde ninguém consegue fazer como ela o seu papel.
E isto leva-me a um considerando acerca da ânsia que alguma franja da classe dos enfermeiros terá na aquisição de competências diversas, que os aproximarão mais aos médicos, afastando-os ao mesmo tempo mais da enfermagem tradicional, como eu a reconheço. Essa franja deve alimentar-se dessas dúvidas que pairam sobre alguns, da importância do seu papel nos cuidados de saúde. Do seu papel tal como ele existe HOJE!
O bom enfermeiro, hoje, é quem está junto do doente, é seu amigo e confidente, seu "tratador" naquilo que temos de mais íntimo e que é a nossa higiene pessoal, é seu monitor de parâmetros vitais e o primeiro passo no reconhecimento de sintomas e sinais, o interlocutor com outros actores (como médicos) e por isso na abordagem adequada subsequente e instituição do tratamento apropriado. E isso, não é feito por mais ninguém que não ele. Nem se coaduna com registos ridiculamente extensos que preenchem o tempo de quem devia era estar junto dos que precisam dele, nem com esticar de "ratios", nem com mais esta ou aquela competência.
E porquê? Porque "isto" que devia acontecer, já é trabalho tempo inteiro, que facilmente preenche o horário de qualquer profissional de enfermagem!
Não se deve, por outro lado, confundir a desvalorização em termos salariais (e nunca de importância da profissão) da classe, com a necessidade da sua reforma. O que se passa é que não precisamos de tantos enfermeiros, e não que precisamos de novos sub-tipos de enfermeiros (idem aspas com os médicos, cuja única diferença é que se têm defendido melhor em termos de formação desenfreada de elementos no ensino Superior).
O pior que podia acontecer era termos enfermeiros com competências, logo defeitos, que os tornassem mais parecidos com os médicos, sem que com isso fossem médicos (ou tornando-se assim "médicos de segunda"), acrescendo a perda de qualidades que são exclusivas dos enfermeiros (ficando, ainda por cima, "enfermeiros de segunda"...).
Os doentes, e todos os sistemas de saúde, precisam dos enfermeiros. Destes, que já existem há muito, por serem precisos e preciosos. Julgo não ser preciso inventar nada. Apenas valorizar o que somos e temos, sem complexos infundados de inferioridade, devidos a razões que nada têm a ver com a essência da profissão em si, de nobreza imaculada.
Oxalá eu tenha um enfermeiro assim para tratar de mim um dia, quando precisar. E não um desses hi-tech que alguns estão a querer "inventar".

Estado Ladrão

O Estado é um ladrão. Ou, pelo menos, um filho indigente que nunca mais sai de casa para ganhar a sua independência, constituindo fonte alargada de despesa para os seus progenitores.
E os progenitores do Estado, somos nós (e não o contrário, apesar de comumente nos inverterem essa realidade no dia-a-dia).
Diz-vos isso um funcionário público que trabalha em exclusividade para esse Estado. Ou seja, que teria tudo, à partida, a ganhar com a manutenção deste estado de coisas. Mas que, por sentido ético do que devia ser a gestão da coisa pública, e por respeito pelos que produzem e financiam estes desvarios, me junto assim ao coro dos que defendem o "Estado mínimo" essencial.
O Estado gere mal a Saúde. É chocante como se poderia poupar brutalmente em consumíveis com medidas simples (que se vão tomando, por desporto -porque nada a isso obriga nos dias que correm...-, aqui e ali, num ou noutro serviço não raras vezes acusado de "excesso de zelo" por esses desvarios auto-infligidos). Os meios humanos são mal geridos; investe-se em Especialidades inúteis, e descuram-se Especialidades essenciais; retiram-se competências aos que as praticam liberalizadoramente a todos, e conferem-se competências exclusivas a quem se vai servir delas num proteccionismo para seu lucro próprio; gastam-se "Ferraris" em válvulas cardíacas inseridas percutaneamente, em stents e em CDI's, e poupa-se nos antidiabéticos orais, ou nos esfigmomanómetros dos centros de saúde e na regularidade dos rastreios; proliferam chafaricas "de excelência", que não são mais que a micro-extensão do umbigo de determinada personalidade médica, onde não são precisas para nada por serem muitas mais que as necessárias para a população que deveriam servir, e rareiam depois meios humanos (e físicos) noutros centros onde, por esse motivo, se deixa de ter acesso a determinada técnica de reconhecido benefício clínico para as pessoas sofredoras de determinada patologia (exemplo clássico: hemodinâmica de intervenção nos enfartes agudos do miocárdio, onde deve haver uns 10 centros em Lisboa e arredores, na maior parte dos quais se passam os dias a coçar... enfim, enquanto que depois mais para os lados da província se mantém um tratamento de segunda com fibrinólise ou menos que isso, com as perdas de miocárdio e de qualidade de vida subsequente por insuficiência cardíaca que isso representa...). Rodam por cargos de direcção dos Hospitais e dos Serviços encartados diversos, deste ou daquele partido ao sabor dos delírios do povo, sem exigência de resultados, sem responsabilização, sem competência, sem mérito. Instituem-se "avaliações" patéticas (as patéticas "carreiras") e que não são representativas de nada, para justificar uma ascenção na carreira pseudo-meritocrática, quando na realidade é, na melhor das hipóteses, cronológica ou por antiguidade (mas não raras vezes por "cunha" e/ou factores partidários/de simpatia clubística diversa).
Isto na Saúde....
Nas outras áreas, que não domino, vejo obrigarem-me a pagar por um sistema público de ensino que não uso porque não presta nem serve o interesse dos meus filhos (que é o de aprenderem) nem o dos seus pais (e que devia passar por deixá-los trabalhar, por exemplo), pelo que tenho que voltar a pagar um privado.
Vejo investirem em estradas portajadas por consórcios de respeitabilidade duvidosa, em TGV's, em aeroportos, em estádios de futebol, em canais de televisão, em empresas de enigmática "utilidade pública" (para lá da de nos sorverem o dinheiro), e vejo-os fazerem isso tudo como se o dinheiro fosse deles, como se o dinheiro caísse do céu, e não fosse NOSSO, do povo que cede parte do seu rendimento mensal para financiar este disparate com o qual nos habituamos a conviver, e que é o Estado.
Por isso, caros amigos, estou definitivamente rendido ao "Ultra-Liberalismo", no sentido de deixar de haver um Estado sorvedor do nosso dinheiro, e que depois o redistribui nestes investimentos ruinosos que não servem nada nem ninguém para lá dos interesses obscuros de uns quantos boys e girls que por lá se encontram (e que não têm obviamente interesse nenhum em mudar este estado de coisas...).
Admito pois que o Estado deve ser muitíssimo menos gastador (os nossos impostos devem ser reduzidos a <25% do que representam actualmente nas receitas daquele), e muitíssimo mais um mero regulador das regras fundamentais por que se devem reger os privados (a começar, evidentemente, pela Universalidade dos Cuidados de Saúde, que acredito que seriam prestados com mais qualidade -e critério- aos cidadãos, a um custo muito menor, que o sistema "gratuito" de hoje, que de gratuito, evidentemente, não tem nada...).
O problema é que, em Portugal, não tenho partido....

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Estupidez Invernal do Costume

Desta feita sem gripe A nos noticiários, cheios dela (ou doutras) nas Urgências.
Efeitos óbvios da falta de mediatização:
-As pessoas esqueceram-se das medidas de higiene (ou acharam que só valiam a pena naquele ano em particular);
-As pessoas esqueceram-se de se vacinar;
-As pessoas esqueceram-se que locais fechados, sobretudo se forem locais destinados à concentração de doentes (como os Serviços de Urgência, por exemplo...), são propensos à partilha de aerossóis com bicheza diversa;
-Os governantes esqueceram-se das medidas de isolamento desses doentes que deram óbvios bons resultados no ano transacto, como os SAG's (Serviços de Atendimento à Gripe), quer na propagação da doença (factor menos importante), quer no descongestionamento das Urgências (por sua vez deveras significativo);
-A "propaganda" anda em baixo, e já ninguém, afinal, parece morrer de "gripe" em Portugal.
Ou seja, e ao contrário do ano anterior, a gripe voltou a encher as Urgências, as Enfermarias, os Cuidados Intensivos.
E voltou a ser, tal como foi em todos os invernos (excepto o transacto), um problema, e a matar muitos milhares de novos e velhos. Não por ser "A", nem por ter esta ou aquela letra.
Foi por ter voltado a ser negligenciada e esquecida, como sempre (excepto no ano transacto) tem sido.
E assim se vai vivendo, no reino da Saúde Pública ao ritmo dos media e outras tamifludices.

Velhos na Estrada

Na cidade capital de distrito (na "província") onde exerço, estava eu de saída de uma Urgência de 24h, e invulgarmente de saída para casa, e aproveitei para uma passagem pelo centro da cidade para resolver problemas mundanos pendentes, daqueles para os quais raramente conseguimos algumas horas para os "despachar" (haverá assim tanta gente com o "expediente" que tantas dessas coisas parecem requerer?), e constatei um fenómeno curioso.
Parecia que a velharia da cidade, que eu podia jurar estar toda em peso no Serviço de Urgência há um quarto de hora atrás, tinha saído em peso para a estrada nos seus calhambeques para me boicotar a missão cívica de chegar ao sítios devidos para tratar "da água", "da luz", "do gás", "do seguro", "do banco", "dos correios", e por aí fora....
Desde o octagenário com óbvia espondilose cervical que se atravessa de uma rua sem prioridade à frente do meu carro (que por sua vez roda habitualmente "desconfiado", conhecedor que já é destas estradas, e em velocidade de cruzeiro) com a tranquilidade de quem não faz a mínima ideia dos efeitos de uma desaceleração lateral na sua rígida e frágil tubagem axial, passando pelo nervosamente apressado boinado no sentido contrário que, com a autoridade do seu pisca, ou então com a inconsciência que lhe facultam as suas (um dia eventualmente letais) cataratas, vira espantosamente atravessando-se (mais uma vez) à minha frente obrigando a (atempada) travagem, até ao esquecido/demente do clube, desses que vai alternando travagens e pequenas acelerações, sem piscas nenhuma outra sinalética, a permitir aos seguidores os mais diversos exercícios de adivinhação (em como se a intenção dele será estacionar, parar em 2ª fila, apenas chatear, ou ainda se se terá perdido numa agudização da sua doença neurológica de base).
Ia pensando eu, mais ou menos exasperado, mais ou menos compreensivo, conforme o tempo que me era dado para racionalizar o curioso circo que se ia desenrolando, quem seriam os médicos de família que iam renovando as cartas a esta gente, e quantos deles teriam efectivamente aquela, caso os primeiros fossem responsabilizados pela detecção de óbvias incapacidades na sequência de alguns acidentes que, no meu imaginário, seguramente devem ir acontecendo por esse país fora.
Enfim, alheando-me da minha lusa falta de civismo, perder a carta, e o direito de conduzir, logo de se deslocar autonomamente onde bem se entende, é morrer um pouco.
Pelo visto, não há muitos com coragem para infligir tal desgosto aos seus pacientes, ou pelo menos estes acabam por arranjar quem se comova.
E eu, sinceramente, não sei bem o que pensar sobre isso.
Se deva de uma vez por todas munir-me da paciência que me falta para com esses meus concidadãos de maioridade, ou se kitar o meu carro com um calmante míssil telecomandado.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Burgueses e Capitalistas

Eu sou, parece, um burguês capitalista.
Não nasci assim.
Pais trabalhadores com escolaridade mínima, emigrantes porque por cá só vislumbravam o limiar da sobrevivência e ambicionavam algo mais para o seu futuro, sendo corajosos qb para se aventurarem no desconhecido, verdadeiros herdeiros do instinto descobridor dos seus antepassados, dispostos a arriscar, não diria tudo, mas mesmo muito em troca do sonho de uma vida melhor.
Filhos a quem foi oferecido o privilégio de poder ultrapassar os 10 anos de idade sem terem que trazer dinheiro para casa, como lhes sucedeu a eles, permitindo-lhes estudar até provecta idade para, caso "tivessem cabeça", experimentarem talvez um curso superior, coisa cujos meandros claramente desconheciam para lá da parca experiência do dia-a-dia em contacto com alguns "doutores". Filhos, entre os quais tive a sorte e o privilégio de me incluir. Filho deste heróis-progenitores.
Não calculavam provavelmente que as notas dariam para "Medicina", e que o curso implicaria sustentarem-me até uma idade em que eles há muito eram já meus progenitores, e salariados independentes já com um mínimo de conforto auto-suficiente na vida, mas pacientemente foram alimentando o meu desvario, e lá acabei, um belo dia (e ligeirinho, para os timings que a coisa implica), por me transformar neste burguês capitalista que sou hoje.
É claro que as minhas "origens humildes" levam-me a ter valores que, a meu ver, me conferem indubitável vantagem selectiva relativamente a alguns para quem as coisas podem parecer caídas do céu, ou seja, em termos de insight com o meio que me rodeia.
A única coisa que não fica seguramente acautelada com estas mesmas origens, é a minha tolerância para o "discurso do desgraçadinho", que nunca mais passa de moda em Portugal. Será a maldição que veio de mão dada com a bênção.
O "desgraçadinho" é por exemplo o delinquente que me espatifou o carro na maldita hora em que me lembrei de ir à capital em lazer um dia.
Pensei, mal, que a vida seria mais colorida se dividida entre o sossego da minha quintinha e o contacto cultural e/ou social do mundo exterior, e estava, como já o confessei noutros posts, redondamente enganado.
Não há pois nada de bom que se passe para lá dos postes que delimitam a minha quintinha.
Porque nada impede que nos deparemos com alguma vítima do imperialismo burguês (que eu pelos vistos materializo), um desfavorecido da sociedade, marginalizado pelas gélidas regras do capitalismo, e que esta destrua um nosso qualquer bem material.
Há coisas piores? É fácil imaginar que sim. Podiam ter insultado a minha própria pessoa ou deteriorado a minha saúde, ou ter-me melindrado psicologicamente ou moralmente com algum outro tipo de violência, ou pior ainda, tê-lo feito a alguém que prezo.
Mas por mais milhentos de formas piores que eu consiga encontrar de ser ofendido e desrespeitado, tal não serve infelizmente de grande consolo a este ingrato espírito com a mania das exigências, e difícil de contentar.
Para que conste, o carro não é mau mas é em segunda mão. Custou-me a ganhar o dinheiro que nele investi.
Vivo bem não sendo rico, mas não trabalho para aquecer, nem para satisfazer caprichos de ininputáveis (ou pelo menos ininputados) fedelhos mimados. Ou não acho que devia....
Confesso dar-me uma náusea extrema ao imaginar esta legião de cretinos que se estão nas tintas para o esforço e o trabalho, dos outros, que me fazem trabalhar para compensar os estragos que directa e indirectamente me infligem, que me adiam a vida e a dos meus dessa forma, passando de certa forma impunes, não apenas por serem cobardes inúteis numa sociedade medrosa que se está a borrifar e se habitua perigosamente a conviver com esta gentalha sem tomar nenhuma atitude, mas sobretudo pelo clima de desculpabilização, em abstracto, que todos teimam em perpetuar para com delinquentes merdosos, só porque "não têm", em contraponto com as suas vítimas, porque "têm" (muito ou pouco, não interessa: "têm" mais que eles, logo serão "culpados" disso).
Como se "ter" não implicasse esforço, suor, trabalho e sacrifício. Como se "ter" fosse sinónimo de oferta, de dádiva.
Como se estragar fosse sinónimo de revolta, como se fosse legítimo, como se fosse desculpabilizável. Como se fosse admissível. Só porque alguma "pobre alma" que "não tinha" estragou, por definição, a um "privilegiado" que "tinha".
As cigarras andam por aí, e até se congregam em partidos políticos e outras agremiações que lhes dão voz, apoiados por uma essencial iliteracia congénita, que lhes alimenta as carteiras de sócios desviando de qualquer réstia de moralidade.
E as formigas nunca mais se põem a pau. As formigas andam com complexos de culpa, as formigas esqueceram-se das suas origens, e da origem das suas provisões.
As formigas hoje em dia até toleram ser governadas por espécimens aparentados de cigarras, que as fazem trabalhar para sustentar outra cigarras, escravizando-as com o argumento terrorista de lhes retirarem tudo o que têm (e vão tirando cada vez mais). E como o espírito de formiga não se coaduna com a carência sem uma boa luta para a contrariar, toleram a opressão das cigarras, a troco de cada vez menos de tudo o que produzem. Toleram a destruição gratuita do fruto do seu trabalho em nome da não-agressão a inúteis cigarras alienadas e misantropas, inúteis e ingratas, , que por sua vez vão doutrinando a sociedade com catecismo próprio para se auto-desculpabilizarem.
Faz-me lembrar aqueles filmes comoventes em que se observa a redenção de um adorável criminoso/vilão/delinquente qualquer, convertido em crente a Deus e na Humanidade. Há dezenas de filmes desses, e muitos deles bem aclamados. Não estou a falar (apenas) daqueles em que o "herói" está no corredor da morte a filosofar, ou em que nos debruçamos 90 minutos nas maldades que se infligem às pobres criaturas em estabelecimentos prisionais, como um jogo de futebol viciado contra os guardas prisionais (esses malandros).
Mas em tantos outros, que todos conhecem. E que parecem demonstrar as milhentas formas de reabilitação dos à partida mais desprovidos de qualquer réstia de Humanidade.
Para nosso consolo?
Pois nesses filmes falta sempre o outro lado da questão. O lado da vítima que desapareceu ou que ficou mais ou menos irremediavelmente lesada. E os familiares da vítima, filhos, cônjuge, pais. E os amigos da vítima. Que vão vivendo como podem à medida que o criminoso se "reabilita". A quem lhes foi retirado para sempre algo, muito, sempre demais, sem culpa nem escolha, enquanto o delinquente se "enriquece moralmente" nesse fenómeno maravilhoso da reabilitação.
Que para alguns limpa o "fenómeno do crime" perpetrado, ainda que nunca se tenha bem em conta esse pormenor colateral que são as vítimas, geralmente culpadas de estarem emocionalmente incapazes de ver a beleza da coisa, de alimentarem sentimento desagradáveis e malsanos de vingança, de desconhecerem o fenómeno do perdão e as suas capacidades curativas. E como tal sempre marginalizadas desses belos quadros que pintámos, e pomos despudoradamente em exposição para iludir os distraídos.
Cabe-nos a nós, enquanto seres pensantes, não nos esquecermos dos pormenores fundamentais que alguma propaganda politicamente correcta procura branquear.
Em nome da salubridade social.
Desta sociedade que vamos deixar aos nossos filhos.

sábado, 29 de janeiro de 2011

E Cig

Ou cigarro electrónico.
A revolução, acreditem, está mesmo a chegar, e se eu tivesse dinheiro de sobra, comprava acções de algumas destas empresas.
Lentamente, os fumadores têm vindo a ser empurrados para a rua, e não apetecendo nada parar de fumar à maioria deles, também não lhes agrada a nova condição de terem que se incomodar para poder satisfazer o seu amado vício. Nem que seja só pelo tal incómodo, a todos passou pela cabeça que, se não fosse tão difícil, até valeria a pena parar de fumar só para não ter que continuar nesse ciclo de ficar "esganadinho" por um cigarro até não aguentar mais, descer não sei quantos andares para fumar um cigarro à pressa, quando não são logo dois de enfiada (para a viagem, e nicotinemia adequada durante mais tempo), com repetição do circo até chegar ao carro ou a casa, onde apenas temos que lidar com os nossos filhos proto-fascistas e a nossa impaciente esposa de narinas sensíveis e a palavra "cancro" na ponta da língua. Ou interromper uma refeição, ou aguentar horas a fio entre aeroportos e aviões, por aí fora.
Enfim, um calvário em crescendo logarítmico de há uns anos a esta parte.
Zyban? Se a ideia é não ficar deprimido, o melhor é mesmo continuar a fumar....
Champix? Se a ideia é ficar nauseado, o melhor continua a ser não largar o tabaco (e largar o Champix!).
Não havia soluções mágicas... até os e-cig's!
Consiste o "device" numa bateria (carregável numa tomada de electricidade qualquer) que vaporiza um líquido que contém diferentes concentrações pré-determinadas (à escolha do freguês) de nicotina num recipiente (a "fazer de" filtro), e que tem a forma vaga de um cigarro. Até tem uma ponta com luzinha de côr à escolha, a fingir ser a ponta incandescente de um cigarro. Ou seja, deixa-se de inalar fumo com nicotina, e passa-se a inalar vapor de nicotina.
Como em princípio estamos viciados é na nicotina e não no fumo, e como em princípio o fumo é que faz mal aos fumadores e não a nicotina, julgo ter-se descoberto a galinha dos ovos de ouro!
Eu experimentei, e garanto-vos que não tendo qualquer recente tendência masoquista nem vontade de deixar este belo vício, praticamente deixei de fumar e passei a "vaporizar, quase em exclusivo.
Na minha condição de ex-fumador e recém-vaporizador, confesso-vos a total ausência dos efeitos nocivos da cessação tabágica (e que não toleraria à partida), mantendo-me calmo, sorridente, paciente (ou pelo menos não pior do que era nessas virtudes que nunca foram propriamente as minhas), até mais satisfeito ainda do que estava enquanto fumador.
Isto porque, desde que sou um "vaporizador", posso vaporizar onde me apetece!
No gabinete médico, no bar do Hospital, junto dos doentes, no gabinete da consulta, no carro com as crianças e os vidros fechados (o que dá um jeitaço quando chove), no avião, no aeroporto, na casa de banho, na cama! E ninguém se queixa, não deita cheiro (podendo inclusive escolher-se um aroma agradável no tal líquido, daqueles que as pessoas até comentam que aquilo que estamos a vaporizar cheira bem!), e a nicotinemia lá vai andando concerteza em níveis adequados à nossa sanidade mental. Não se queima roupa, não se fica com mau hálito, dão-se as passas que são precisas (e não apenas as que cabem no comprimento de um cigarro).
Os que tossem melhoram e deixam de tossir, a capacidade pulmonar melhora.
Ou seja, estou rendido, e aconselho vivamente.
É que além dos inequívocos benefícios em não-maleficiência pulmonar, neoplásica e até cardio-vascular, ainda fica por uma pequena fracção do custo que se vem tendo com o obscenamente taxado tabaco, recuperando-se o investimento inicial em poucas semanas, e poupando-se muitas centenas de euros logo no final do primeiro ano.
Há empresas chinesas, americanas e europeias à escolha, é só pôr "e cig" no google, navegar e dar uso à conta no PayPal.
E, já agora, há ainda e-cigars e até e-pipes!
Os árabes já tinham inventado há muitos anos uma coisa parecida, aqueles cachimbos de água a que chamam "chicha". Isto dispensa porém o carvão ou o fogo, e, pormenor fundamental: tem nicotina (e pode ter mesmo muita nicotina!).
Experimentem, vão ver que não se vão arrepender!
Deixem de fumar passando a vaporizar, continuando a nicotinizar-se. E, pormenor fundamental, tal como foi outrora e já não é hoje, nicotinizar-se ao ritmo que bem entendem, sem complexos de culpa incutidos por estes milhentos de amostras mussolínicas de ridículos proxenetas da saúde pública, que por aí (e cada vez mais) proliferam.
Confesso que alimento o secreto desejo de ver quais serão as reacções dos nossos estadistas se aderirmos a isto em massa. O que eles irão fazer sem os nossos milhões, com os quais eles tanto contam para os seus desvarios orçamentais. Irão suspender as medidas de perseguição (a ver se o pessoal larga o vapor e volta ao tabaco)? Irão fazer-se campanhas a favor do tabaco (ou, hipótese de longe mais provável: contra o "vapor")? O que irão eles taxar agora, e com que desculpa?
E o melhor de tudo é que vamos morrer na mesma, e as nossas doenças (que também vamos ter, como qualquer não-fumador), vai sair na mesma do orçamento de Estado para a saúde, e não vai ser mais barato do que o cancro que teríamos com o tabaco. E tudo isso sem sermos acusados de arruinarmos o cadavérico SNS! Nem de matarmos os vaporizadores-passivos mais histriónicos, os tais que condenando vivamente o nosso (anterior) vício tabágico teimavam em não abdicar da nossa companhia em lugares públicos, a não ser que a troco de nos expulsar dos mesmos. Nem que para isso tivessem que tentar provar que o tabagismo passivo mata mais criancinhas em África que a fome, a falta de cuidados de higiene e médicos básicos e os microorganismos. E logo, no resto do mundo.
Bem.... Os gordos e os sedentários que se vão pondo a pau!

Ingenuidades

Hoje foi um dia giro....
Num revivalismo de tempos recentes, em que não me encontrava moralmente tão conspurcado como hoje, passeava-me eu pelas Urgências do meu Hospital à procura de alguém quando fui abordado por um jovem colega, interno de uma especialidade a fazer atendimento em balcões.
Devem-lhe ter dito: "olha, vai ali um gajo que faz Cuidados Intensivos, vai-lhe falar do doente!". E ele diligentemente veio.
A parte bonita, pura, foi a forma como ele desde logo começou a conversa, aniquilando qualquer possível encaminhamento favorável às suas eventuais pretensões:
-"Dr, queria-lhe falar de um doente que tenho ali em coma, a ver o que acha que lhe devo fazer mais...";
Não conhecendo eu o colega, não consegui virar costas à pergunta por solidariedade corporativa e sempre surpreso pela aparente ânsia de querer fazer melhor, e então dei seguimento ao diálogo adiantando: -"Diz-me lá então o que se passa?".
-"É um doente de 103 anos, que vive num lar, e que hoje ficou em coma (blábláblá...)";
(Julgando ter percebido mal..., passados alguns segundos) -"Quantos anos?"
-"103!", responde-me o meu incauto interlocutor, em jeito de detalhe que me teria escapado.
Foi encantador, e não vos maço com o resto do caso clínico.
Se fosse minimamente traquejado, saberia que nunca, mas nunca deve começar uma conversa, particularmente se pretender que se escale no grau de "investimento" de um doente, com "-tem mais que 80 anos-", nem tão pouco com "-vive num lar-".
Uma pessoa com mais de 80 anos, e que respira, já está muito bem para a idade, independentemente da sua condição clínica. É que em princípio, com essa idade, está-se morto. Estatisticamente.
Com 103 anos então, não interessa o que se segue na conversa, só conseguimos pensar em como é possível alguém atravessar duas guerras mundiais e ainda estar vivo. Em passar da lamparina, e do cântaro, pela electricidade, pela televisão, pelo telefone, pelo carro, e chegar ao avião, ao foguetão, aos computadores e ao telemóvel! Até o iPad ele viu (se é que ele ainda conseguiria ver). Fabuloso!
E não se preocupem com o meu colega, fui absolutamente correcto e dei conselhos adequados, ainda que no sentido de uma abordagem conservadora "apropriada à idade" que o desiludiu de certa forma, quanto ao caso clínico que me transmitiu na totalidade, ainda que não tenha a certeza de ter estado muito concentrado em todas as partes, de tão endorfínicas que ele deixou as minhas sinapses.
É bonito, ser-se assim.
Mas passa-lhe, infelizmente.