domingo, 29 de maio de 2011

Gratuitidade da Saúde em Portugal

Um dos chavões mais grosseiramente falsos desta terra.
Um dos chavões mais exasperantes, recorrentemente repetido por "beneplácitos" que não hesitam em usar e desperdiçar o nosso dinheiro, eufemisticamente designado por "dinheiro do Estado" ou "de todos nós" (como se também lhes pertencesse a "eles"...), querendo geralmente ir ainda mais longe dando-nos a entender que é pertença de alguma entidade (tipográfica?) misteriosa supra-nacional, e que se não for desperdiçado ao desbarato num qualquer Serviço Público será devolvido à procedência e perdido para sempre.
A Saúde NÃO É gratuita. O SNS NÃO É gratuito.
Em pequenas (e redutoras) frases...:
-Os salários dos profissionais (e suas reformas) custam muito dinheiro...;
-A comparticipação dos medicamentos custa muito, muito dinheiro...;
-Os exames complementares de diagnóstico, e inúmeros consumíveis usados em saúde, custam balúrdios de dinheiro...;
-A tecnologia em saúde é muito cara (e usa-se tecnologia de ponta, muitas vezes num qualquer vão de escadas do Hospital);
-As estruturas físicas em Saúde, e sua manutenção, custam muito dinheiro;
-Tudo o que anda "à volta" das estruturas de saúde (lavandarias, tratamentos de materiais, transporte de doentes, empresas alimentares, etc...), custa muito dinheiro.
Ou seja, isto não é "gratuito". Isto é, isso sim, um enorme MONSTRO insaciável sorvedor de toneladas de dinheiro, de uma enorme parte do rendimento dos portugueses, de uma grande parte do nosso salário, do nosso trabalho, todos os meses.
Chamar-lhe "gratuito", ou "tendencialmente gratuito" porque se pagam uns trocos para se ser atendido aqui ou ali ou comparticipar isto ou aquilo, é, ou profundamente estúpido, ou altamente insultuoso (quando feito, como não raras vezes o é, com dolo de expressão).
E quando eu me indigno com esta suposta gratuitidade, ao contrário do que ameaçam os que se alimentam deste monstro por nós sustentado para assustar os incautos, não pretendo que deixe de existir Universalidade de acesso aos cuidados de saúde, bem pelo contrário. Nem pretendo que passe a ser pago por cada um de nós, bem pelo contrário; espero isso sim que o SNS se torne minimamente sustentável, por forma a que persista para sempre, não existindo apenas para os que adoecem hoje mas para que continue para quando adoecerem os meus filhos e netos.
Pretendo é que as pessoas saibam que isto é caríssimo (e não "gratuito"), que há formas menos caras de se gerir com igual (ou melhor) eficácia isto tudo, prestando melhores serviços, combatendo-se o desperdício, o laxismo, o tachismo partidário que existe, e em peso, nas instituições de saúde por este país fora.
Isto é: saibam bem que é possível pagarem muito menos do que pagam hoje em dia (e que é imenso!!), e passarem a ter melhores cuidados de saúde.
Ou seja, a conjuntura não é: "isto é fraquito, mas pelo menos é gratuito". Isto serve para enganar papalvos e eternizar tachos que muito agradam a tantos, a demasiados, há demasiado tempo....
A real conjuntura é: isto é um brutal desperdício, uma péssima gestão do vosso dinheiro, com a desculpa de ser "pela vossa saúde", quando na realidade é consequência de despotismo puro e duro do Estado sorvedor, incompetente e irresponsável. Deve-se, e sobretudo PODE-SE, fazer muito melhor, gastando menos do nosso dinheiro (ele é NOSSO), por um SNS universal que não deixe ninguém sem tratamento neste país.
É mesmo possível, assim haja vontade em assumir-se isso.
É o mínimo, o "primeiro passo"....

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Enfermeiros

Isto a propósito de uma mensagem que muito me entristeceu, e que recebi, por mail, proveniente de uma amiga enfermeira, que a deve ter reencaminhado para a sua lista de contactos, e da qual constava mais ou menos o seguinte: era intitulada "os enfermeiros também contam!" ou algo do género, e era o link para um vídeo acerca do irmão alucinado do Paulo Portas que, após internamento relacionado com um cancro, fez um elogio sentido à classe de enfermagem publicamente, num canal qualquer de televisão.
O que me entristeceu não foi, obviamente, o elogio não se ter dirigido principalmente ao médico que o tratou, e muito menos o facto de ter feito o elogio a essa classe que tanto admiro.
O que realmente me deixa perplexo é tudo aquilo que terá levado a baixar a auto-estima a esta representante da classe, ao ponto de publicitar o referido vídeo, como se fosse de estranhar que o papel do enfermeiro fosse reconhecidamente importante, quando eu sei que ela está cansada de saber que conta, e muito, no Serviço onde trabalha, e onde ninguém consegue fazer como ela o seu papel.
E isto leva-me a um considerando acerca da ânsia que alguma franja da classe dos enfermeiros terá na aquisição de competências diversas, que os aproximarão mais aos médicos, afastando-os ao mesmo tempo mais da enfermagem tradicional, como eu a reconheço. Essa franja deve alimentar-se dessas dúvidas que pairam sobre alguns, da importância do seu papel nos cuidados de saúde. Do seu papel tal como ele existe HOJE!
O bom enfermeiro, hoje, é quem está junto do doente, é seu amigo e confidente, seu "tratador" naquilo que temos de mais íntimo e que é a nossa higiene pessoal, é seu monitor de parâmetros vitais e o primeiro passo no reconhecimento de sintomas e sinais, o interlocutor com outros actores (como médicos) e por isso na abordagem adequada subsequente e instituição do tratamento apropriado. E isso, não é feito por mais ninguém que não ele. Nem se coaduna com registos ridiculamente extensos que preenchem o tempo de quem devia era estar junto dos que precisam dele, nem com esticar de "ratios", nem com mais esta ou aquela competência.
E porquê? Porque "isto" que devia acontecer, já é trabalho tempo inteiro, que facilmente preenche o horário de qualquer profissional de enfermagem!
Não se deve, por outro lado, confundir a desvalorização em termos salariais (e nunca de importância da profissão) da classe, com a necessidade da sua reforma. O que se passa é que não precisamos de tantos enfermeiros, e não que precisamos de novos sub-tipos de enfermeiros (idem aspas com os médicos, cuja única diferença é que se têm defendido melhor em termos de formação desenfreada de elementos no ensino Superior).
O pior que podia acontecer era termos enfermeiros com competências, logo defeitos, que os tornassem mais parecidos com os médicos, sem que com isso fossem médicos (ou tornando-se assim "médicos de segunda"), acrescendo a perda de qualidades que são exclusivas dos enfermeiros (ficando, ainda por cima, "enfermeiros de segunda"...).
Os doentes, e todos os sistemas de saúde, precisam dos enfermeiros. Destes, que já existem há muito, por serem precisos e preciosos. Julgo não ser preciso inventar nada. Apenas valorizar o que somos e temos, sem complexos infundados de inferioridade, devidos a razões que nada têm a ver com a essência da profissão em si, de nobreza imaculada.
Oxalá eu tenha um enfermeiro assim para tratar de mim um dia, quando precisar. E não um desses hi-tech que alguns estão a querer "inventar".

Estado Ladrão

O Estado é um ladrão. Ou, pelo menos, um filho indigente que nunca mais sai de casa para ganhar a sua independência, constituindo fonte alargada de despesa para os seus progenitores.
E os progenitores do Estado, somos nós (e não o contrário, apesar de comumente nos inverterem essa realidade no dia-a-dia).
Diz-vos isso um funcionário público que trabalha em exclusividade para esse Estado. Ou seja, que teria tudo, à partida, a ganhar com a manutenção deste estado de coisas. Mas que, por sentido ético do que devia ser a gestão da coisa pública, e por respeito pelos que produzem e financiam estes desvarios, me junto assim ao coro dos que defendem o "Estado mínimo" essencial.
O Estado gere mal a Saúde. É chocante como se poderia poupar brutalmente em consumíveis com medidas simples (que se vão tomando, por desporto -porque nada a isso obriga nos dias que correm...-, aqui e ali, num ou noutro serviço não raras vezes acusado de "excesso de zelo" por esses desvarios auto-infligidos). Os meios humanos são mal geridos; investe-se em Especialidades inúteis, e descuram-se Especialidades essenciais; retiram-se competências aos que as praticam liberalizadoramente a todos, e conferem-se competências exclusivas a quem se vai servir delas num proteccionismo para seu lucro próprio; gastam-se "Ferraris" em válvulas cardíacas inseridas percutaneamente, em stents e em CDI's, e poupa-se nos antidiabéticos orais, ou nos esfigmomanómetros dos centros de saúde e na regularidade dos rastreios; proliferam chafaricas "de excelência", que não são mais que a micro-extensão do umbigo de determinada personalidade médica, onde não são precisas para nada por serem muitas mais que as necessárias para a população que deveriam servir, e rareiam depois meios humanos (e físicos) noutros centros onde, por esse motivo, se deixa de ter acesso a determinada técnica de reconhecido benefício clínico para as pessoas sofredoras de determinada patologia (exemplo clássico: hemodinâmica de intervenção nos enfartes agudos do miocárdio, onde deve haver uns 10 centros em Lisboa e arredores, na maior parte dos quais se passam os dias a coçar... enfim, enquanto que depois mais para os lados da província se mantém um tratamento de segunda com fibrinólise ou menos que isso, com as perdas de miocárdio e de qualidade de vida subsequente por insuficiência cardíaca que isso representa...). Rodam por cargos de direcção dos Hospitais e dos Serviços encartados diversos, deste ou daquele partido ao sabor dos delírios do povo, sem exigência de resultados, sem responsabilização, sem competência, sem mérito. Instituem-se "avaliações" patéticas (as patéticas "carreiras") e que não são representativas de nada, para justificar uma ascenção na carreira pseudo-meritocrática, quando na realidade é, na melhor das hipóteses, cronológica ou por antiguidade (mas não raras vezes por "cunha" e/ou factores partidários/de simpatia clubística diversa).
Isto na Saúde....
Nas outras áreas, que não domino, vejo obrigarem-me a pagar por um sistema público de ensino que não uso porque não presta nem serve o interesse dos meus filhos (que é o de aprenderem) nem o dos seus pais (e que devia passar por deixá-los trabalhar, por exemplo), pelo que tenho que voltar a pagar um privado.
Vejo investirem em estradas portajadas por consórcios de respeitabilidade duvidosa, em TGV's, em aeroportos, em estádios de futebol, em canais de televisão, em empresas de enigmática "utilidade pública" (para lá da de nos sorverem o dinheiro), e vejo-os fazerem isso tudo como se o dinheiro fosse deles, como se o dinheiro caísse do céu, e não fosse NOSSO, do povo que cede parte do seu rendimento mensal para financiar este disparate com o qual nos habituamos a conviver, e que é o Estado.
Por isso, caros amigos, estou definitivamente rendido ao "Ultra-Liberalismo", no sentido de deixar de haver um Estado sorvedor do nosso dinheiro, e que depois o redistribui nestes investimentos ruinosos que não servem nada nem ninguém para lá dos interesses obscuros de uns quantos boys e girls que por lá se encontram (e que não têm obviamente interesse nenhum em mudar este estado de coisas...).
Admito pois que o Estado deve ser muitíssimo menos gastador (os nossos impostos devem ser reduzidos a <25% do que representam actualmente nas receitas daquele), e muitíssimo mais um mero regulador das regras fundamentais por que se devem reger os privados (a começar, evidentemente, pela Universalidade dos Cuidados de Saúde, que acredito que seriam prestados com mais qualidade -e critério- aos cidadãos, a um custo muito menor, que o sistema "gratuito" de hoje, que de gratuito, evidentemente, não tem nada...).
O problema é que, em Portugal, não tenho partido....

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Estupidez Invernal do Costume

Desta feita sem gripe A nos noticiários, cheios dela (ou doutras) nas Urgências.
Efeitos óbvios da falta de mediatização:
-As pessoas esqueceram-se das medidas de higiene (ou acharam que só valiam a pena naquele ano em particular);
-As pessoas esqueceram-se de se vacinar;
-As pessoas esqueceram-se que locais fechados, sobretudo se forem locais destinados à concentração de doentes (como os Serviços de Urgência, por exemplo...), são propensos à partilha de aerossóis com bicheza diversa;
-Os governantes esqueceram-se das medidas de isolamento desses doentes que deram óbvios bons resultados no ano transacto, como os SAG's (Serviços de Atendimento à Gripe), quer na propagação da doença (factor menos importante), quer no descongestionamento das Urgências (por sua vez deveras significativo);
-A "propaganda" anda em baixo, e já ninguém, afinal, parece morrer de "gripe" em Portugal.
Ou seja, e ao contrário do ano anterior, a gripe voltou a encher as Urgências, as Enfermarias, os Cuidados Intensivos.
E voltou a ser, tal como foi em todos os invernos (excepto o transacto), um problema, e a matar muitos milhares de novos e velhos. Não por ser "A", nem por ter esta ou aquela letra.
Foi por ter voltado a ser negligenciada e esquecida, como sempre (excepto no ano transacto) tem sido.
E assim se vai vivendo, no reino da Saúde Pública ao ritmo dos media e outras tamifludices.

Velhos na Estrada

Na cidade capital de distrito (na "província") onde exerço, estava eu de saída de uma Urgência de 24h, e invulgarmente de saída para casa, e aproveitei para uma passagem pelo centro da cidade para resolver problemas mundanos pendentes, daqueles para os quais raramente conseguimos algumas horas para os "despachar" (haverá assim tanta gente com o "expediente" que tantas dessas coisas parecem requerer?), e constatei um fenómeno curioso.
Parecia que a velharia da cidade, que eu podia jurar estar toda em peso no Serviço de Urgência há um quarto de hora atrás, tinha saído em peso para a estrada nos seus calhambeques para me boicotar a missão cívica de chegar ao sítios devidos para tratar "da água", "da luz", "do gás", "do seguro", "do banco", "dos correios", e por aí fora....
Desde o octagenário com óbvia espondilose cervical que se atravessa de uma rua sem prioridade à frente do meu carro (que por sua vez roda habitualmente "desconfiado", conhecedor que já é destas estradas, e em velocidade de cruzeiro) com a tranquilidade de quem não faz a mínima ideia dos efeitos de uma desaceleração lateral na sua rígida e frágil tubagem axial, passando pelo nervosamente apressado boinado no sentido contrário que, com a autoridade do seu pisca, ou então com a inconsciência que lhe facultam as suas (um dia eventualmente letais) cataratas, vira espantosamente atravessando-se (mais uma vez) à minha frente obrigando a (atempada) travagem, até ao esquecido/demente do clube, desses que vai alternando travagens e pequenas acelerações, sem piscas nenhuma outra sinalética, a permitir aos seguidores os mais diversos exercícios de adivinhação (em como se a intenção dele será estacionar, parar em 2ª fila, apenas chatear, ou ainda se se terá perdido numa agudização da sua doença neurológica de base).
Ia pensando eu, mais ou menos exasperado, mais ou menos compreensivo, conforme o tempo que me era dado para racionalizar o curioso circo que se ia desenrolando, quem seriam os médicos de família que iam renovando as cartas a esta gente, e quantos deles teriam efectivamente aquela, caso os primeiros fossem responsabilizados pela detecção de óbvias incapacidades na sequência de alguns acidentes que, no meu imaginário, seguramente devem ir acontecendo por esse país fora.
Enfim, alheando-me da minha lusa falta de civismo, perder a carta, e o direito de conduzir, logo de se deslocar autonomamente onde bem se entende, é morrer um pouco.
Pelo visto, não há muitos com coragem para infligir tal desgosto aos seus pacientes, ou pelo menos estes acabam por arranjar quem se comova.
E eu, sinceramente, não sei bem o que pensar sobre isso.
Se deva de uma vez por todas munir-me da paciência que me falta para com esses meus concidadãos de maioridade, ou se kitar o meu carro com um calmante míssil telecomandado.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Burgueses e Capitalistas

Eu sou, parece, um burguês capitalista.
Não nasci assim.
Pais trabalhadores com escolaridade mínima, emigrantes porque por cá só vislumbravam o limiar da sobrevivência e ambicionavam algo mais para o seu futuro, sendo corajosos qb para se aventurarem no desconhecido, verdadeiros herdeiros do instinto descobridor dos seus antepassados, dispostos a arriscar, não diria tudo, mas mesmo muito em troca do sonho de uma vida melhor.
Filhos a quem foi oferecido o privilégio de poder ultrapassar os 10 anos de idade sem terem que trazer dinheiro para casa, como lhes sucedeu a eles, permitindo-lhes estudar até provecta idade para, caso "tivessem cabeça", experimentarem talvez um curso superior, coisa cujos meandros claramente desconheciam para lá da parca experiência do dia-a-dia em contacto com alguns "doutores". Filhos, entre os quais tive a sorte e o privilégio de me incluir. Filho deste heróis-progenitores.
Não calculavam provavelmente que as notas dariam para "Medicina", e que o curso implicaria sustentarem-me até uma idade em que eles há muito eram já meus progenitores, e salariados independentes já com um mínimo de conforto auto-suficiente na vida, mas pacientemente foram alimentando o meu desvario, e lá acabei, um belo dia (e ligeirinho, para os timings que a coisa implica), por me transformar neste burguês capitalista que sou hoje.
É claro que as minhas "origens humildes" levam-me a ter valores que, a meu ver, me conferem indubitável vantagem selectiva relativamente a alguns para quem as coisas podem parecer caídas do céu, ou seja, em termos de insight com o meio que me rodeia.
A única coisa que não fica seguramente acautelada com estas mesmas origens, é a minha tolerância para o "discurso do desgraçadinho", que nunca mais passa de moda em Portugal. Será a maldição que veio de mão dada com a bênção.
O "desgraçadinho" é por exemplo o delinquente que me espatifou o carro na maldita hora em que me lembrei de ir à capital em lazer um dia.
Pensei, mal, que a vida seria mais colorida se dividida entre o sossego da minha quintinha e o contacto cultural e/ou social do mundo exterior, e estava, como já o confessei noutros posts, redondamente enganado.
Não há pois nada de bom que se passe para lá dos postes que delimitam a minha quintinha.
Porque nada impede que nos deparemos com alguma vítima do imperialismo burguês (que eu pelos vistos materializo), um desfavorecido da sociedade, marginalizado pelas gélidas regras do capitalismo, e que esta destrua um nosso qualquer bem material.
Há coisas piores? É fácil imaginar que sim. Podiam ter insultado a minha própria pessoa ou deteriorado a minha saúde, ou ter-me melindrado psicologicamente ou moralmente com algum outro tipo de violência, ou pior ainda, tê-lo feito a alguém que prezo.
Mas por mais milhentos de formas piores que eu consiga encontrar de ser ofendido e desrespeitado, tal não serve infelizmente de grande consolo a este ingrato espírito com a mania das exigências, e difícil de contentar.
Para que conste, o carro não é mau mas é em segunda mão. Custou-me a ganhar o dinheiro que nele investi.
Vivo bem não sendo rico, mas não trabalho para aquecer, nem para satisfazer caprichos de ininputáveis (ou pelo menos ininputados) fedelhos mimados. Ou não acho que devia....
Confesso dar-me uma náusea extrema ao imaginar esta legião de cretinos que se estão nas tintas para o esforço e o trabalho, dos outros, que me fazem trabalhar para compensar os estragos que directa e indirectamente me infligem, que me adiam a vida e a dos meus dessa forma, passando de certa forma impunes, não apenas por serem cobardes inúteis numa sociedade medrosa que se está a borrifar e se habitua perigosamente a conviver com esta gentalha sem tomar nenhuma atitude, mas sobretudo pelo clima de desculpabilização, em abstracto, que todos teimam em perpetuar para com delinquentes merdosos, só porque "não têm", em contraponto com as suas vítimas, porque "têm" (muito ou pouco, não interessa: "têm" mais que eles, logo serão "culpados" disso).
Como se "ter" não implicasse esforço, suor, trabalho e sacrifício. Como se "ter" fosse sinónimo de oferta, de dádiva.
Como se estragar fosse sinónimo de revolta, como se fosse legítimo, como se fosse desculpabilizável. Como se fosse admissível. Só porque alguma "pobre alma" que "não tinha" estragou, por definição, a um "privilegiado" que "tinha".
As cigarras andam por aí, e até se congregam em partidos políticos e outras agremiações que lhes dão voz, apoiados por uma essencial iliteracia congénita, que lhes alimenta as carteiras de sócios desviando de qualquer réstia de moralidade.
E as formigas nunca mais se põem a pau. As formigas andam com complexos de culpa, as formigas esqueceram-se das suas origens, e da origem das suas provisões.
As formigas hoje em dia até toleram ser governadas por espécimens aparentados de cigarras, que as fazem trabalhar para sustentar outra cigarras, escravizando-as com o argumento terrorista de lhes retirarem tudo o que têm (e vão tirando cada vez mais). E como o espírito de formiga não se coaduna com a carência sem uma boa luta para a contrariar, toleram a opressão das cigarras, a troco de cada vez menos de tudo o que produzem. Toleram a destruição gratuita do fruto do seu trabalho em nome da não-agressão a inúteis cigarras alienadas e misantropas, inúteis e ingratas, , que por sua vez vão doutrinando a sociedade com catecismo próprio para se auto-desculpabilizarem.
Faz-me lembrar aqueles filmes comoventes em que se observa a redenção de um adorável criminoso/vilão/delinquente qualquer, convertido em crente a Deus e na Humanidade. Há dezenas de filmes desses, e muitos deles bem aclamados. Não estou a falar (apenas) daqueles em que o "herói" está no corredor da morte a filosofar, ou em que nos debruçamos 90 minutos nas maldades que se infligem às pobres criaturas em estabelecimentos prisionais, como um jogo de futebol viciado contra os guardas prisionais (esses malandros).
Mas em tantos outros, que todos conhecem. E que parecem demonstrar as milhentas formas de reabilitação dos à partida mais desprovidos de qualquer réstia de Humanidade.
Para nosso consolo?
Pois nesses filmes falta sempre o outro lado da questão. O lado da vítima que desapareceu ou que ficou mais ou menos irremediavelmente lesada. E os familiares da vítima, filhos, cônjuge, pais. E os amigos da vítima. Que vão vivendo como podem à medida que o criminoso se "reabilita". A quem lhes foi retirado para sempre algo, muito, sempre demais, sem culpa nem escolha, enquanto o delinquente se "enriquece moralmente" nesse fenómeno maravilhoso da reabilitação.
Que para alguns limpa o "fenómeno do crime" perpetrado, ainda que nunca se tenha bem em conta esse pormenor colateral que são as vítimas, geralmente culpadas de estarem emocionalmente incapazes de ver a beleza da coisa, de alimentarem sentimento desagradáveis e malsanos de vingança, de desconhecerem o fenómeno do perdão e as suas capacidades curativas. E como tal sempre marginalizadas desses belos quadros que pintámos, e pomos despudoradamente em exposição para iludir os distraídos.
Cabe-nos a nós, enquanto seres pensantes, não nos esquecermos dos pormenores fundamentais que alguma propaganda politicamente correcta procura branquear.
Em nome da salubridade social.
Desta sociedade que vamos deixar aos nossos filhos.

sábado, 29 de janeiro de 2011

E Cig

Ou cigarro electrónico.
A revolução, acreditem, está mesmo a chegar, e se eu tivesse dinheiro de sobra, comprava acções de algumas destas empresas.
Lentamente, os fumadores têm vindo a ser empurrados para a rua, e não apetecendo nada parar de fumar à maioria deles, também não lhes agrada a nova condição de terem que se incomodar para poder satisfazer o seu amado vício. Nem que seja só pelo tal incómodo, a todos passou pela cabeça que, se não fosse tão difícil, até valeria a pena parar de fumar só para não ter que continuar nesse ciclo de ficar "esganadinho" por um cigarro até não aguentar mais, descer não sei quantos andares para fumar um cigarro à pressa, quando não são logo dois de enfiada (para a viagem, e nicotinemia adequada durante mais tempo), com repetição do circo até chegar ao carro ou a casa, onde apenas temos que lidar com os nossos filhos proto-fascistas e a nossa impaciente esposa de narinas sensíveis e a palavra "cancro" na ponta da língua. Ou interromper uma refeição, ou aguentar horas a fio entre aeroportos e aviões, por aí fora.
Enfim, um calvário em crescendo logarítmico de há uns anos a esta parte.
Zyban? Se a ideia é não ficar deprimido, o melhor é mesmo continuar a fumar....
Champix? Se a ideia é ficar nauseado, o melhor continua a ser não largar o tabaco (e largar o Champix!).
Não havia soluções mágicas... até os e-cig's!
Consiste o "device" numa bateria (carregável numa tomada de electricidade qualquer) que vaporiza um líquido que contém diferentes concentrações pré-determinadas (à escolha do freguês) de nicotina num recipiente (a "fazer de" filtro), e que tem a forma vaga de um cigarro. Até tem uma ponta com luzinha de côr à escolha, a fingir ser a ponta incandescente de um cigarro. Ou seja, deixa-se de inalar fumo com nicotina, e passa-se a inalar vapor de nicotina.
Como em princípio estamos viciados é na nicotina e não no fumo, e como em princípio o fumo é que faz mal aos fumadores e não a nicotina, julgo ter-se descoberto a galinha dos ovos de ouro!
Eu experimentei, e garanto-vos que não tendo qualquer recente tendência masoquista nem vontade de deixar este belo vício, praticamente deixei de fumar e passei a "vaporizar, quase em exclusivo.
Na minha condição de ex-fumador e recém-vaporizador, confesso-vos a total ausência dos efeitos nocivos da cessação tabágica (e que não toleraria à partida), mantendo-me calmo, sorridente, paciente (ou pelo menos não pior do que era nessas virtudes que nunca foram propriamente as minhas), até mais satisfeito ainda do que estava enquanto fumador.
Isto porque, desde que sou um "vaporizador", posso vaporizar onde me apetece!
No gabinete médico, no bar do Hospital, junto dos doentes, no gabinete da consulta, no carro com as crianças e os vidros fechados (o que dá um jeitaço quando chove), no avião, no aeroporto, na casa de banho, na cama! E ninguém se queixa, não deita cheiro (podendo inclusive escolher-se um aroma agradável no tal líquido, daqueles que as pessoas até comentam que aquilo que estamos a vaporizar cheira bem!), e a nicotinemia lá vai andando concerteza em níveis adequados à nossa sanidade mental. Não se queima roupa, não se fica com mau hálito, dão-se as passas que são precisas (e não apenas as que cabem no comprimento de um cigarro).
Os que tossem melhoram e deixam de tossir, a capacidade pulmonar melhora.
Ou seja, estou rendido, e aconselho vivamente.
É que além dos inequívocos benefícios em não-maleficiência pulmonar, neoplásica e até cardio-vascular, ainda fica por uma pequena fracção do custo que se vem tendo com o obscenamente taxado tabaco, recuperando-se o investimento inicial em poucas semanas, e poupando-se muitas centenas de euros logo no final do primeiro ano.
Há empresas chinesas, americanas e europeias à escolha, é só pôr "e cig" no google, navegar e dar uso à conta no PayPal.
E, já agora, há ainda e-cigars e até e-pipes!
Os árabes já tinham inventado há muitos anos uma coisa parecida, aqueles cachimbos de água a que chamam "chicha". Isto dispensa porém o carvão ou o fogo, e, pormenor fundamental: tem nicotina (e pode ter mesmo muita nicotina!).
Experimentem, vão ver que não se vão arrepender!
Deixem de fumar passando a vaporizar, continuando a nicotinizar-se. E, pormenor fundamental, tal como foi outrora e já não é hoje, nicotinizar-se ao ritmo que bem entendem, sem complexos de culpa incutidos por estes milhentos de amostras mussolínicas de ridículos proxenetas da saúde pública, que por aí (e cada vez mais) proliferam.
Confesso que alimento o secreto desejo de ver quais serão as reacções dos nossos estadistas se aderirmos a isto em massa. O que eles irão fazer sem os nossos milhões, com os quais eles tanto contam para os seus desvarios orçamentais. Irão suspender as medidas de perseguição (a ver se o pessoal larga o vapor e volta ao tabaco)? Irão fazer-se campanhas a favor do tabaco (ou, hipótese de longe mais provável: contra o "vapor")? O que irão eles taxar agora, e com que desculpa?
E o melhor de tudo é que vamos morrer na mesma, e as nossas doenças (que também vamos ter, como qualquer não-fumador), vai sair na mesma do orçamento de Estado para a saúde, e não vai ser mais barato do que o cancro que teríamos com o tabaco. E tudo isso sem sermos acusados de arruinarmos o cadavérico SNS! Nem de matarmos os vaporizadores-passivos mais histriónicos, os tais que condenando vivamente o nosso (anterior) vício tabágico teimavam em não abdicar da nossa companhia em lugares públicos, a não ser que a troco de nos expulsar dos mesmos. Nem que para isso tivessem que tentar provar que o tabagismo passivo mata mais criancinhas em África que a fome, a falta de cuidados de higiene e médicos básicos e os microorganismos. E logo, no resto do mundo.
Bem.... Os gordos e os sedentários que se vão pondo a pau!

Ingenuidades

Hoje foi um dia giro....
Num revivalismo de tempos recentes, em que não me encontrava moralmente tão conspurcado como hoje, passeava-me eu pelas Urgências do meu Hospital à procura de alguém quando fui abordado por um jovem colega, interno de uma especialidade a fazer atendimento em balcões.
Devem-lhe ter dito: "olha, vai ali um gajo que faz Cuidados Intensivos, vai-lhe falar do doente!". E ele diligentemente veio.
A parte bonita, pura, foi a forma como ele desde logo começou a conversa, aniquilando qualquer possível encaminhamento favorável às suas eventuais pretensões:
-"Dr, queria-lhe falar de um doente que tenho ali em coma, a ver o que acha que lhe devo fazer mais...";
Não conhecendo eu o colega, não consegui virar costas à pergunta por solidariedade corporativa e sempre surpreso pela aparente ânsia de querer fazer melhor, e então dei seguimento ao diálogo adiantando: -"Diz-me lá então o que se passa?".
-"É um doente de 103 anos, que vive num lar, e que hoje ficou em coma (blábláblá...)";
(Julgando ter percebido mal..., passados alguns segundos) -"Quantos anos?"
-"103!", responde-me o meu incauto interlocutor, em jeito de detalhe que me teria escapado.
Foi encantador, e não vos maço com o resto do caso clínico.
Se fosse minimamente traquejado, saberia que nunca, mas nunca deve começar uma conversa, particularmente se pretender que se escale no grau de "investimento" de um doente, com "-tem mais que 80 anos-", nem tão pouco com "-vive num lar-".
Uma pessoa com mais de 80 anos, e que respira, já está muito bem para a idade, independentemente da sua condição clínica. É que em princípio, com essa idade, está-se morto. Estatisticamente.
Com 103 anos então, não interessa o que se segue na conversa, só conseguimos pensar em como é possível alguém atravessar duas guerras mundiais e ainda estar vivo. Em passar da lamparina, e do cântaro, pela electricidade, pela televisão, pelo telefone, pelo carro, e chegar ao avião, ao foguetão, aos computadores e ao telemóvel! Até o iPad ele viu (se é que ele ainda conseguiria ver). Fabuloso!
E não se preocupem com o meu colega, fui absolutamente correcto e dei conselhos adequados, ainda que no sentido de uma abordagem conservadora "apropriada à idade" que o desiludiu de certa forma, quanto ao caso clínico que me transmitiu na totalidade, ainda que não tenha a certeza de ter estado muito concentrado em todas as partes, de tão endorfínicas que ele deixou as minhas sinapses.
É bonito, ser-se assim.
Mas passa-lhe, infelizmente.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Estupor

Estado estuporoso será aquele em que se apodera de nós um torpor que nos impele a nada fazer, por absoluta falta de vontade, estímulo ou vã esperança de que qualquer acção resulte numa reacção digna do esforço, ainda que mínimo.
É este estupor que me invade, ao ver que me retiram 10% do salário supostos governantes que nada conseguem governar (a não ser, eventualmente, governarem-se a eles próprios), por não saberem fazer contas, nem gerir o dever (muito) e o haver (pouco) deste pobre país, ao longo de anos e anos de "saudável alternância democrática".
Reside a minha residual esperança numa entidade externa que nos valha (chamem-lhe FMI, UE, o que quiserem) mais amiga da matemática, e que venha pôr dolorosa ordem neste caos organizativo, que multiplicou as cigarras e estrangulou as formigas em nome de ideais que giram à volta do facilitismo, do anti-meritocratismo travestido de equalitarismo, enfim, de cretinismo, populismo, nadismo....
É este estupor que me cala a revolta, por saber nada valer a pena dizer ou fazer, por total ausência de capacidade auditiva ou pensante destas pseudo-entidades que nos deviam gerir e regular, e cuja inutilidade, ou incapacidade, são directamente proporcionais à aderência aos postos que ocupam.
Só podemos aspirar a mudar as moscas, e estas pelas anteriores (por nem sequer se vislumbrarem moscas novas no horizonte). E saberão por posts anteriores o meu fascínio pelo insecto em causa....
Foi este estupor ainda que, em dia de eleições presidenciais, me levou activamente a resistir a qualquer ideal de civismo ou de pseudo-democracia pseudo-participativa, e a ficar, contra todos os estímulos familiares (pessoas que nunca deixam de me surpreender na sua fé de que, ao contrário do que racionalmente bem sabem, não contam mais que um mísero voto entre tantos outros que os dilui até uma ínfima insignificância, resultando na eleição destes energúmenos que parecem eternizar-se à frente dos nossos destinos), na minha bendita casinha a não fazer rigorosamente nada, o que foi bem melhor do que fazer de conta que estaria a fazer algo nada fazendo. Optando entre e melindrado incapaz, co-responsável por tudo isto, e vencedor da eleição, e o delirante opositor principal derrotado, mais atreito a poesias que a números, e o lunático outsider que achou um dia que mudar-se para Belém haveria de ser como gerir uma chafarica, tipo um gabinete de consulta de província, já para não falar naquele candidato da agremiação esquizofrénica que é sempre vencedora à partida e à chegada, independentemente da quantidade de votos, que vai sendo cada vez mais residual (o daquela esclerosada mas ainda, pelos vistos, não enterrada ideologia que parecia ter provado a sua falência, há para aí uns vinte anos atrás...), e, claro, o palhaço de serviço.
Enfim, é na minha bendita casinha, rodeada pela sua cerca, habitada pelos meus intimidantes (ainda que inofensivos) cães, longe de estímulos visuais em movimento, de sons ou de fragrâncias que não sejam intermitentemente as da minha fossa séptica (um perfume francês neste cenário), que encontro paz e descanso.
É a minha ilha, o meu éden, e faço de conta que ela não se integra num concelho incapaz de um distrito incapaz de um país incapaz, cheio de gente incapaz que elege incapazes à sua imagem.
Para manutenção dessa deliciosa ilusão dos sentidos, espero manter o ingrediente fundamental da fórmula: mantê-la longe das pessoas. Por forma a manter-me também eu longe das pessoas. Mantendo, obviamente, as pessoas longe dela, e logo, de mim. Nem todos terão o privilégio de conseguir tal coisa. Orgulho-me muito, por meu lado, de ter alcançado um dos meus objectivos vitais, talvez o mais importantes de todos (materialmente falando), que é esse.
Dessa casa, cada vez mais, só saio para o meu trabalho, onde tento criar um ambiente saudável entre os vários co-protagonistas da prestação de cuidados para a optimização dos mesmos, tornando-os cada vez melhores e eficientes, com noções de tentar bem gerir bens materiais finitos que nos saem do bolso a todos, com uma noção esperadamente adequada da minha importância e ao mesmo tempo da minha irrelevância enquanto actor. E não me saio nada mal, nas irrelevantes contas desta irrelevância nacional global.
E volto a seguir para a minha gruta, onde pretendo resguardar a minha família, e resguardar-me a mim próprio.
Na esperança que, um dia, todos façamos o mesmo. Cada vez melhor, como um ambicioso objectivo dos capazes, que se quererão muitos e mais motivados.
Mas tudo isso no tal estado de profundo estupor social, incrédulo de resultados que se vejam em tempos vizinhos, desconfiado da solvência da parte profundamente enquinada da nossa mentalidade global enquanto povo.
E, claro, sabendo que um dia desses isso vai passar. Assim surja um ilusor que me iluda da real desilusão que é tudo isso.

domingo, 24 de outubro de 2010

Médico Explica Medicina a Jornalistas Desportivos

Que me desculpe o MEMAI pelos direitos de autor, mas aqui vai:
Dizer que um determinado jogador padece de um "traumatismo da face" é o mesmo que dizer que o jornalista que escreve a alarvidade é um "apreciador de cinema francês".
Ou seja, não diz nada.
O traumatismo é a causa de lesão (e há vários tipos de traumatismo), podendo provocar desde uma contusão simples, uma ruptura muscular, uma lesão articular/ligamentosa, passando por uma fractura exposta, até não ter qualquer consequência na saúde do jogador.
Ou seja, se quisermos e soubermos, devemos dizer o que o jogador "tem" (e ele não "tem" traumatismo), ou em caso contrário, dizer apenas que sofreu um traumatismo cujas consequências ainda não se apuraram.
Voltando à analogia, o facto do jornalista ser apreciador de cinema francês pode querer dizer muita coisa. Porém, se o pretendido é simplesmente pronunciarmo-nos sobre as suas aptidões profissionais, devemos ser específicos e escrever apenas que ele é estúpido.
Faz lembrar aquela abordagem da morte pelo outro extremo de sequência (ou consequência): em última análise, somos todos vítimas de morte cerebral por paragem cárdio-respiratória (ainda que, em bom rigor, não necessariamente por essa ordem).