sábado, 29 de janeiro de 2011

E Cig

Ou cigarro electrónico.
A revolução, acreditem, está mesmo a chegar, e se eu tivesse dinheiro de sobra, comprava acções de algumas destas empresas.
Lentamente, os fumadores têm vindo a ser empurrados para a rua, e não apetecendo nada parar de fumar à maioria deles, também não lhes agrada a nova condição de terem que se incomodar para poder satisfazer o seu amado vício. Nem que seja só pelo tal incómodo, a todos passou pela cabeça que, se não fosse tão difícil, até valeria a pena parar de fumar só para não ter que continuar nesse ciclo de ficar "esganadinho" por um cigarro até não aguentar mais, descer não sei quantos andares para fumar um cigarro à pressa, quando não são logo dois de enfiada (para a viagem, e nicotinemia adequada durante mais tempo), com repetição do circo até chegar ao carro ou a casa, onde apenas temos que lidar com os nossos filhos proto-fascistas e a nossa impaciente esposa de narinas sensíveis e a palavra "cancro" na ponta da língua. Ou interromper uma refeição, ou aguentar horas a fio entre aeroportos e aviões, por aí fora.
Enfim, um calvário em crescendo logarítmico de há uns anos a esta parte.
Zyban? Se a ideia é não ficar deprimido, o melhor é mesmo continuar a fumar....
Champix? Se a ideia é ficar nauseado, o melhor continua a ser não largar o tabaco (e largar o Champix!).
Não havia soluções mágicas... até os e-cig's!
Consiste o "device" numa bateria (carregável numa tomada de electricidade qualquer) que vaporiza um líquido que contém diferentes concentrações pré-determinadas (à escolha do freguês) de nicotina num recipiente (a "fazer de" filtro), e que tem a forma vaga de um cigarro. Até tem uma ponta com luzinha de côr à escolha, a fingir ser a ponta incandescente de um cigarro. Ou seja, deixa-se de inalar fumo com nicotina, e passa-se a inalar vapor de nicotina.
Como em princípio estamos viciados é na nicotina e não no fumo, e como em princípio o fumo é que faz mal aos fumadores e não a nicotina, julgo ter-se descoberto a galinha dos ovos de ouro!
Eu experimentei, e garanto-vos que não tendo qualquer recente tendência masoquista nem vontade de deixar este belo vício, praticamente deixei de fumar e passei a "vaporizar, quase em exclusivo.
Na minha condição de ex-fumador e recém-vaporizador, confesso-vos a total ausência dos efeitos nocivos da cessação tabágica (e que não toleraria à partida), mantendo-me calmo, sorridente, paciente (ou pelo menos não pior do que era nessas virtudes que nunca foram propriamente as minhas), até mais satisfeito ainda do que estava enquanto fumador.
Isto porque, desde que sou um "vaporizador", posso vaporizar onde me apetece!
No gabinete médico, no bar do Hospital, junto dos doentes, no gabinete da consulta, no carro com as crianças e os vidros fechados (o que dá um jeitaço quando chove), no avião, no aeroporto, na casa de banho, na cama! E ninguém se queixa, não deita cheiro (podendo inclusive escolher-se um aroma agradável no tal líquido, daqueles que as pessoas até comentam que aquilo que estamos a vaporizar cheira bem!), e a nicotinemia lá vai andando concerteza em níveis adequados à nossa sanidade mental. Não se queima roupa, não se fica com mau hálito, dão-se as passas que são precisas (e não apenas as que cabem no comprimento de um cigarro).
Os que tossem melhoram e deixam de tossir, a capacidade pulmonar melhora.
Ou seja, estou rendido, e aconselho vivamente.
É que além dos inequívocos benefícios em não-maleficiência pulmonar, neoplásica e até cardio-vascular, ainda fica por uma pequena fracção do custo que se vem tendo com o obscenamente taxado tabaco, recuperando-se o investimento inicial em poucas semanas, e poupando-se muitas centenas de euros logo no final do primeiro ano.
Há empresas chinesas, americanas e europeias à escolha, é só pôr "e cig" no google, navegar e dar uso à conta no PayPal.
E, já agora, há ainda e-cigars e até e-pipes!
Os árabes já tinham inventado há muitos anos uma coisa parecida, aqueles cachimbos de água a que chamam "chicha". Isto dispensa porém o carvão ou o fogo, e, pormenor fundamental: tem nicotina (e pode ter mesmo muita nicotina!).
Experimentem, vão ver que não se vão arrepender!
Deixem de fumar passando a vaporizar, continuando a nicotinizar-se. E, pormenor fundamental, tal como foi outrora e já não é hoje, nicotinizar-se ao ritmo que bem entendem, sem complexos de culpa incutidos por estes milhentos de amostras mussolínicas de ridículos proxenetas da saúde pública, que por aí (e cada vez mais) proliferam.
Confesso que alimento o secreto desejo de ver quais serão as reacções dos nossos estadistas se aderirmos a isto em massa. O que eles irão fazer sem os nossos milhões, com os quais eles tanto contam para os seus desvarios orçamentais. Irão suspender as medidas de perseguição (a ver se o pessoal larga o vapor e volta ao tabaco)? Irão fazer-se campanhas a favor do tabaco (ou, hipótese de longe mais provável: contra o "vapor")? O que irão eles taxar agora, e com que desculpa?
E o melhor de tudo é que vamos morrer na mesma, e as nossas doenças (que também vamos ter, como qualquer não-fumador), vai sair na mesma do orçamento de Estado para a saúde, e não vai ser mais barato do que o cancro que teríamos com o tabaco. E tudo isso sem sermos acusados de arruinarmos o cadavérico SNS! Nem de matarmos os vaporizadores-passivos mais histriónicos, os tais que condenando vivamente o nosso (anterior) vício tabágico teimavam em não abdicar da nossa companhia em lugares públicos, a não ser que a troco de nos expulsar dos mesmos. Nem que para isso tivessem que tentar provar que o tabagismo passivo mata mais criancinhas em África que a fome, a falta de cuidados de higiene e médicos básicos e os microorganismos. E logo, no resto do mundo.
Bem.... Os gordos e os sedentários que se vão pondo a pau!

Ingenuidades

Hoje foi um dia giro....
Num revivalismo de tempos recentes, em que não me encontrava moralmente tão conspurcado como hoje, passeava-me eu pelas Urgências do meu Hospital à procura de alguém quando fui abordado por um jovem colega, interno de uma especialidade a fazer atendimento em balcões.
Devem-lhe ter dito: "olha, vai ali um gajo que faz Cuidados Intensivos, vai-lhe falar do doente!". E ele diligentemente veio.
A parte bonita, pura, foi a forma como ele desde logo começou a conversa, aniquilando qualquer possível encaminhamento favorável às suas eventuais pretensões:
-"Dr, queria-lhe falar de um doente que tenho ali em coma, a ver o que acha que lhe devo fazer mais...";
Não conhecendo eu o colega, não consegui virar costas à pergunta por solidariedade corporativa e sempre surpreso pela aparente ânsia de querer fazer melhor, e então dei seguimento ao diálogo adiantando: -"Diz-me lá então o que se passa?".
-"É um doente de 103 anos, que vive num lar, e que hoje ficou em coma (blábláblá...)";
(Julgando ter percebido mal..., passados alguns segundos) -"Quantos anos?"
-"103!", responde-me o meu incauto interlocutor, em jeito de detalhe que me teria escapado.
Foi encantador, e não vos maço com o resto do caso clínico.
Se fosse minimamente traquejado, saberia que nunca, mas nunca deve começar uma conversa, particularmente se pretender que se escale no grau de "investimento" de um doente, com "-tem mais que 80 anos-", nem tão pouco com "-vive num lar-".
Uma pessoa com mais de 80 anos, e que respira, já está muito bem para a idade, independentemente da sua condição clínica. É que em princípio, com essa idade, está-se morto. Estatisticamente.
Com 103 anos então, não interessa o que se segue na conversa, só conseguimos pensar em como é possível alguém atravessar duas guerras mundiais e ainda estar vivo. Em passar da lamparina, e do cântaro, pela electricidade, pela televisão, pelo telefone, pelo carro, e chegar ao avião, ao foguetão, aos computadores e ao telemóvel! Até o iPad ele viu (se é que ele ainda conseguiria ver). Fabuloso!
E não se preocupem com o meu colega, fui absolutamente correcto e dei conselhos adequados, ainda que no sentido de uma abordagem conservadora "apropriada à idade" que o desiludiu de certa forma, quanto ao caso clínico que me transmitiu na totalidade, ainda que não tenha a certeza de ter estado muito concentrado em todas as partes, de tão endorfínicas que ele deixou as minhas sinapses.
É bonito, ser-se assim.
Mas passa-lhe, infelizmente.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Estupor

Estado estuporoso será aquele em que se apodera de nós um torpor que nos impele a nada fazer, por absoluta falta de vontade, estímulo ou vã esperança de que qualquer acção resulte numa reacção digna do esforço, ainda que mínimo.
É este estupor que me invade, ao ver que me retiram 10% do salário supostos governantes que nada conseguem governar (a não ser, eventualmente, governarem-se a eles próprios), por não saberem fazer contas, nem gerir o dever (muito) e o haver (pouco) deste pobre país, ao longo de anos e anos de "saudável alternância democrática".
Reside a minha residual esperança numa entidade externa que nos valha (chamem-lhe FMI, UE, o que quiserem) mais amiga da matemática, e que venha pôr dolorosa ordem neste caos organizativo, que multiplicou as cigarras e estrangulou as formigas em nome de ideais que giram à volta do facilitismo, do anti-meritocratismo travestido de equalitarismo, enfim, de cretinismo, populismo, nadismo....
É este estupor que me cala a revolta, por saber nada valer a pena dizer ou fazer, por total ausência de capacidade auditiva ou pensante destas pseudo-entidades que nos deviam gerir e regular, e cuja inutilidade, ou incapacidade, são directamente proporcionais à aderência aos postos que ocupam.
Só podemos aspirar a mudar as moscas, e estas pelas anteriores (por nem sequer se vislumbrarem moscas novas no horizonte). E saberão por posts anteriores o meu fascínio pelo insecto em causa....
Foi este estupor ainda que, em dia de eleições presidenciais, me levou activamente a resistir a qualquer ideal de civismo ou de pseudo-democracia pseudo-participativa, e a ficar, contra todos os estímulos familiares (pessoas que nunca deixam de me surpreender na sua fé de que, ao contrário do que racionalmente bem sabem, não contam mais que um mísero voto entre tantos outros que os dilui até uma ínfima insignificância, resultando na eleição destes energúmenos que parecem eternizar-se à frente dos nossos destinos), na minha bendita casinha a não fazer rigorosamente nada, o que foi bem melhor do que fazer de conta que estaria a fazer algo nada fazendo. Optando entre e melindrado incapaz, co-responsável por tudo isto, e vencedor da eleição, e o delirante opositor principal derrotado, mais atreito a poesias que a números, e o lunático outsider que achou um dia que mudar-se para Belém haveria de ser como gerir uma chafarica, tipo um gabinete de consulta de província, já para não falar naquele candidato da agremiação esquizofrénica que é sempre vencedora à partida e à chegada, independentemente da quantidade de votos, que vai sendo cada vez mais residual (o daquela esclerosada mas ainda, pelos vistos, não enterrada ideologia que parecia ter provado a sua falência, há para aí uns vinte anos atrás...), e, claro, o palhaço de serviço.
Enfim, é na minha bendita casinha, rodeada pela sua cerca, habitada pelos meus intimidantes (ainda que inofensivos) cães, longe de estímulos visuais em movimento, de sons ou de fragrâncias que não sejam intermitentemente as da minha fossa séptica (um perfume francês neste cenário), que encontro paz e descanso.
É a minha ilha, o meu éden, e faço de conta que ela não se integra num concelho incapaz de um distrito incapaz de um país incapaz, cheio de gente incapaz que elege incapazes à sua imagem.
Para manutenção dessa deliciosa ilusão dos sentidos, espero manter o ingrediente fundamental da fórmula: mantê-la longe das pessoas. Por forma a manter-me também eu longe das pessoas. Mantendo, obviamente, as pessoas longe dela, e logo, de mim. Nem todos terão o privilégio de conseguir tal coisa. Orgulho-me muito, por meu lado, de ter alcançado um dos meus objectivos vitais, talvez o mais importantes de todos (materialmente falando), que é esse.
Dessa casa, cada vez mais, só saio para o meu trabalho, onde tento criar um ambiente saudável entre os vários co-protagonistas da prestação de cuidados para a optimização dos mesmos, tornando-os cada vez melhores e eficientes, com noções de tentar bem gerir bens materiais finitos que nos saem do bolso a todos, com uma noção esperadamente adequada da minha importância e ao mesmo tempo da minha irrelevância enquanto actor. E não me saio nada mal, nas irrelevantes contas desta irrelevância nacional global.
E volto a seguir para a minha gruta, onde pretendo resguardar a minha família, e resguardar-me a mim próprio.
Na esperança que, um dia, todos façamos o mesmo. Cada vez melhor, como um ambicioso objectivo dos capazes, que se quererão muitos e mais motivados.
Mas tudo isso no tal estado de profundo estupor social, incrédulo de resultados que se vejam em tempos vizinhos, desconfiado da solvência da parte profundamente enquinada da nossa mentalidade global enquanto povo.
E, claro, sabendo que um dia desses isso vai passar. Assim surja um ilusor que me iluda da real desilusão que é tudo isso.

domingo, 24 de outubro de 2010

Médico Explica Medicina a Jornalistas Desportivos

Que me desculpe o MEMAI pelos direitos de autor, mas aqui vai:
Dizer que um determinado jogador padece de um "traumatismo da face" é o mesmo que dizer que o jornalista que escreve a alarvidade é um "apreciador de cinema francês".
Ou seja, não diz nada.
O traumatismo é a causa de lesão (e há vários tipos de traumatismo), podendo provocar desde uma contusão simples, uma ruptura muscular, uma lesão articular/ligamentosa, passando por uma fractura exposta, até não ter qualquer consequência na saúde do jogador.
Ou seja, se quisermos e soubermos, devemos dizer o que o jogador "tem" (e ele não "tem" traumatismo), ou em caso contrário, dizer apenas que sofreu um traumatismo cujas consequências ainda não se apuraram.
Voltando à analogia, o facto do jornalista ser apreciador de cinema francês pode querer dizer muita coisa. Porém, se o pretendido é simplesmente pronunciarmo-nos sobre as suas aptidões profissionais, devemos ser específicos e escrever apenas que ele é estúpido.
Faz lembrar aquela abordagem da morte pelo outro extremo de sequência (ou consequência): em última análise, somos todos vítimas de morte cerebral por paragem cárdio-respiratória (ainda que, em bom rigor, não necessariamente por essa ordem).

sábado, 23 de outubro de 2010

Tomates

Ou falta deles.
Passo a concretizar esta reflexão:
Há doentes maus, idosos, com muitas doenças, com muita dependência de terceiros, com muito pouca ou nenhuma vida de relação.
Isso leva, à chegada ao Hospital aquando de uma intercorrência, ou de uma agudização das suas diversas cronicidades, ou do simples evoluir mais ou menos lento das suas patologias irreversíveis de base, a ponderar qual o grau de "investimento" que se deve fazer nesse caso particular.
Porquê? Porque não se pode oferecer tudo a todos, ou, por outras palavras, o melhor em termos de cuidados a todos. E deve-se racionalizar, para se oferecer o melhor aos "melhores" candidatos.
Isto, não só não é criticável, como é altamente louvável, na minha perspectiva. Ou seja, não faz sentido nenhum, num caso extremo para facilitar (isso depois complica, e muito, lá mais pelo meio...), ventilar um velhote com insuficiência respiratória crónica, a fazer oxigénio domiciliar ou VNI, demente ou vegetativo após um AVC, sem vida de relação com o meio circundante, acamado.
Mas PODE-SE fazer. Seria bom, na perspectiva de o manter vivo, fazê-lo. Mas isso implicaria assumir que passava a haver lista de espera nas Unidades de Cuidados Intensivos deste país (o que, já agora sublinhe-se, é incompatível com a sobrevida dos candidatos). Ou seja, quem calhasse de precisar delas numa das raras alturas em que haveria vagas safava-se, os outros todos, paciência. É um critério (a "ordem de chegada"), que até poderia ser resolvido eficazmente se passasse a haver mais UCI's e intensivistas do que centros de saúde e médicos de família, e descobríssemos petróleo, muito petróleo, no nosso subsolo (que financiasse esses caríssimos centros de tratamento).
Não se faz assim, "guardam-se" as vagas para aqueles candidatos com "doença à partida potencialmente reversível", e com "bom estado potencial" após a estadia. E quem fala no caso extremo dos cuidados intensivos fala de outras unidades especializadas (coronárias, AVC's...).
O problema está, não no bem maior que se pretende em guardar as limitadas vagas para quem mais beneficia delas, mas sim com o que se faz com os "candidatos chumbados". Ou sobre os argumentos que por vezes inventamos para justificar o chumbo.
O mais clássico de todos é fingirmos estar a fazer "bem" ao doente, não porque ele está no final da vida e tem todo o benefício em não lhe prolongarmos o sofrimento, mas sim porque o "tubo", de repente, passa a ser uma "violência", ele passa a precisar de "tranquilidade" e não dos "catéteres" (coisas inúteis que por lá se põem) e do "rebuliço" de uma unidade daquele tipo.
Pior: muitos não assumem sequer que o doente é para deixar de molho, confortável, paliado, efectivamente sossegado, e seguem a prescrever antibióticos, oxigénio, alimentação, monitorização, e tudo o mais que se lembrem, como se de repente lhes desse um súbito assomo de consciência ou arrependimento.
Ou seja, o que me aborrece são os decisores de consistência (e consciência) interrupta e/ou lábil. Que acham que uma determinada pessoa não é para investir assim tanto, mas na qual se deve investir assim-assim. Que fingem que cuidados mais invasivos, MELHORES, passam a ser cuidados maus para um determinado candidato, mas que já não é mau prolongar-lhe a vida não-invasivamente.
Se a ideia é prolongar a vida, prolongue-se o melhor que se sabe e pode. Se a ideia é não prolongar o sofrimento, então... não se prolongue o sofrimento, trate-se o sofrimento e deixe-se a doença seguir o seu curso. Se a doença é má mas a intercorrência é reversível, trata-se a intercorrência com o melhor que se pode. Ou então: se a doença é má, e a intercorrência reversível, então não se faça nada e deixe-se a intercorrência levar esse doente mau. São duas posições legítimas, desde que minimamente coerentes num determinado espaço e tempo.
Agora, não se trate a intercorrência assim-assim, porque a doença de base é má. Nem se passe a tratar todas intercorrências, independentemente das doenças de base.
Estas dúvidas existenciais saem mais baratas ao contribuinte se tratarmos o decisor com uma benzodiazepina, oferecendo-lhe de seguida a possibilidade de uma retemperadora noite de sono.
E o doente, podem acreditar em mim quando o digo, agradece.
Mas lá que isto ainda anda perigoso demais para eu morrer com um mínimo de "segurança", ai isso anda.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Com Tensão

Sem pretender ser pessimista....
Mas não vejo saída possível para a "crise" de funcionamento dos hospitais na actualidade.
Os hospitais que funcionam "bem" são aqueles que conseguem ir buscar mais dinheiro (para eventualmente, na melhor das hipóteses, investir em infra-estruturas e meios humanos) ao bolo do SNS.
Para funcionar "bem" e serem recompensados nos orçamentos devem seguir uma série de recomendações/critérios que não se coadunam por si só (e às vezes, antes pelo contrário) com melhoria da qualidade dos cuidados de saúde.
A título de exemplo: um Hospital recebe por "episódio".
Um "episódio" de Urgência (ou seja, um "utente" que vai ao serviço de Urgência) rende x (valor fixo), em que x deve ser superior ao gasto para o serviço se auto-financiar. As "verdadeiras urgências", em princípio, saem mais caras que x, por isso devem ser atendidas várias "falsas urgências", para que o ganho com estas financiem as verdadeiras.
Isto leva, obviamente, ao aproximar do serviço do seu colapso, com aumento dos tempos de atendimento, ainda que uma triagem com qualidade faça recair o ónus da espera tendencialmente nos menos urgentes.
Seja como for, o burnout de serviços já de si geralmente mal servidos de meios humanos, a actividade permanente que favorece o erro (quantos mais casos pouco graves, maiores são as probabilidades de escaparem ao crivo alguns de gravidade que mereceriam maior concentração de atenção) e o desvio da actividade para fora da sua vocação (de urgência) faz invariavelmente decaír a qualidade por esse país fora.
E atitudes sensatas, como "limitar" o acesso aos serviços de Urgência às verdadeiras urgências, deixa de fazer sentido, em nome da rentabilização do mesmo.
O Hospital também ganha em função do "episódio" de consulta. Quantas mais consultas por unidade de tempo, maior a rentabilidade do profissional.
Escusado será dizer que essa profissionalização em consultas "expresso" tem o seu je ne sais quoi. Em primeiro lugar, a desvalorização relativa da actividade assistencial em enfermaria, porém fundamental relativamente aos casos mais graves e complexos (e esse ponto, a meu ver, é muito grave), e com uma exigência inerente muito elevada aos profissionais que a desempenham bem. Em segundo lugar, a duvidosa relação que existirá entre "muitas consultas" e "boas consultas".
Por fim, uma terceira achega, a dos GDH que facultam muito dinheiro aos hospitais. Num Hospital, a sua alma natural, que é a Medicina Interna, o internamento e os casos de gravidade superior, equivalem a despesa/prejuízo de acordo com os actuais critérios de pagamento.
Os GDH que dão "lucro" vêm de serviços como a Cirurgia do ambulatório, as "consultas expresso" a granel e as urgências da treta, para além de umas quantas, pontuais, técnicas aqui e ali.
Escusado será dizer qual o sector privilegiado por qualquer administração nos tempos que correm. Não é o médico que interna o doente complicado para o estudar mais ou menos demoradamente, com exames algumas vezes complexos, com tratamentos algumas vezes dispendiosos. Não é o médico que só fica com os doentes complicados na consulta, dando alta aos mais "simples" (que podem ser seguidos por qualquer médico de família), que faz exames completos no seu período de consulta e que, por isso, vê 5 ou 6 doentes em 4 horas bem preenchidas, em vez de 40 em 1 hora, como em algumas "consultas" que existem (e isto é a sério!), onde os doentes nem se sentam, e que só servem para ajustar INR's de pessoas sob anticoagulação oral. O episódio de consulta rende o mesmo ao Hospital. Ou seja, aquele que faz o que qualquer programa informático foleiro poderia (e deveria) fazer, é muito mais "rentável" (cerca de 40 vezes mais rentável) que aquele que queima os neurónios a pensar... doentes.
Por fim, escusado será dizer que o real objectivo de qualquer administração hospitalar competente que se preze, nos dias que correm, não passa por melhorar a qualidade dos serviços prestados, ou a sua diversidade, nem passa por melhorar a qualidade física ou humana da maioria dos Serviços e Consultas (nomeadamente os menos lucrativos, os mais "pesados": Medicina Interna; Cuidados Intensivos; Oncologia em geral), nem tão pouco por melhorar a qualidade dos profissinais que integram os seus quadros, melhorando assim a qualidade dos cuidados de saúde à população que serve.
Isso seria condenar o Hospital (e a população que ele serve) à privação dos fundos, tal como são distribuídos na actualidade, e à ruína subsequente.
O objectivo é, isso sim, ir "buscar dinheiro" ao Estado (logo, ao contribuinte), ainda que por meios artificialmente valorizados (pela própria administração do Estado), para o poder gastar em formas de maximizar ainda mais essa busca, num ciclo suicidário em termos sociais e financeiros, que não soluciona os reais problemas dos cidadãos (que são os tais problemas que não dão lucro), minando-lhe por outro lado qualquer possibilidade de ter um SNS sustentável, sem ser através de artifícios em que o objectivo primário de qualquer Hospital seja o de "enganar" a administração central por forma a esta desbloquear o máximo de fundos para este ou aquele.
São os sinais dos tempos. De hoje.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Competências

Quando é que, em saúde, devemos passar a ter uma determinada competência?
Sem qualquer critério corporativista, apenas pela lógica das coisas?
Parece-me simples quanto ao "critério mínimo": quando conseguimos resolver as iatrogenias que dela advêm. Mesmo que não individualmente, no mínimo estruturalmente (seguindo uma cadeia célere, bem oleada e solidária nessa resolução).
Quer pôr catéteres autonomamente? Tem que saber drenar pneumotórax e hemotórax.
Quer administrar sedativos (entre muitos outros fármacos)? Tem que saber reaminar.
Quer reanimar? Tem que saber (além dos simples algoritmos) arranjar acessos vasculares e entubar oro-traquealmente (e drenar pneumotórax hipertensivos, e drenar derrames pericárdicos, e ventilar, e avaliar neurologicamente, ...).
Quer realizar exames endoscópicos? Tem que ter retaguarda cirúrgica avisada (e saber reanimar, ...).
E por aí fora.
Podia ser que, dessa forma, se acabassem com muitas reivindicações bacocas que recorrentemente se ouvem por aí.
Quanto aos demais critérios (os de "qualidade"), estamos em Portugal, país das "Medicinas Alternativas" legalizadas (ou não ilegalizadas).
Não tenhamos por isso "delírios escandinavos", nem "complexos de canadiano".

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O Senhor Seja Louvado!

L'OMS déclare la pandémie de grippe H1N1 terminée

Julgo estarmos finalmente em condições para, novamente, nos começarmos a preocupar seriamente com "a gripe".
"Aquela" que, todos os anos, nos mata aos milhares.
E que não vem no Alfabeto....

Confusões Escusadas, Parte II

Petição Equivalência de Mestre aos titulares das anteriores licenciaturas com formação de 5/6 anos

Para:Assembleia da República

Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República, Os cidadãos a seguir assinados e identificados vêm, por este meio requerer que seja dada equivalência de Mestre aos titulares das anteriores licenciaturas com formação de 5/6 anos, na designação anterior à reforma de Bolonha. Com a Reforma do Ensino Superior (Decreto-Lei 74/2006, de 24 de Março), o título académico de licenciado passou a ser atribuído ao fim de um ciclo de estudos de 3 ou de 4 anos, quando no passado o título equivalente era designado por bacharel. Pelo contrário, antes da Reforma, à formação superior de 5 anos era atribuído o título de licenciado. Perante a existência no mercado de trabalho de diferentes formações e competências, a que corresponde o mesmo título académico, torna-se necessário referenciar o mesmo com a indicação do período em que foi obtido. Acresce que a Portaria nº 782/2009, que estabelece a Regulamentação do Quadro Nacional de Qualificações (QNQ), ignora a diferença anteriormente referida, pois no Anexo III atribuiu o mesmo nível ao bacharelato e à licenciatura (nível 6), sem diferenciar se os títulos foram obtidos antes ou depois da Reforma. Esta classificação desvaloriza, de forma gravosa, injusta e incompreensível, a qualificação profissional de centenas de milhar de licenciados pré-Bolonha na medida em que, não só colide com o reconhecimento das suas qualificações profissionais, aceite há dezenas de anos pela Sociedade, como também colide com o próprio ordenamento jurídico nacional, em especial na parte referente ao reconhecimento nas formações de nível superior, nomeadamente com o estabelecido na Lei n.º 9/2009, de 4 de Março, relativa a reconhecimento de qualificações profissionais. Exposição de Motivos: Nos termos dos acordos do processo de Bolonha, de que Portugal é desde o primeiro momento signatário, ocorreu recentemente no nosso País uma reestruturação profunda do quadro legal do sistema do ensino superior. O Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, alterado pelo Decreto-Lei n.º 107/2008, de 25 de Junho, tendo como referência a segunda alteração à Lei de Bases do Sistema Educativo adoptada pela Lei n.º 49/2005 de 30 de Agosto, estabelece, na perspectiva da preparação para a generalidade das profissões, dois graus académicos de formação superior principais: a) O grau de licenciado, correspondente ao 1º ciclo de estudos do Espaço Europeu do Ensino Superior, acordado pelos ministros do ensino superior na sua reunião em Bergen, Noruega, em Maio de 2005, no âmbito do processo de Bolonha - cf. especialmente o artigo 5.º do Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, alterado pelo Decreto-Lei n.º 107/2008, de 25 de Junho, supra-citado. b) O grau de mestre, correspondente ao 2º ciclo de estudos do Espaço Europeu do Ensino Superior, acordado pelos ministros do ensino superior na reunião de Bergen, supra-mencionada - cf. especialmente o artigo 15.º do referido Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, alterado pelo Decreto-Lei n.º 107/2008. Entendeu o poder político adoptar a designação de licenciatura para os novos primeiros ciclos de formação. Esta decisão, dificilmente entendível, mas que naturalmente se respeita no quadro democrático, levantou desde o primeiro momento, em muitos cidadãos, uma grande preocupação sobre futuras confusões entre designação e competências associadas, com a correspondente injustiça que se poderia perspectivar. As licenciaturas anteriores à reforma correspondiam, na generalidade, a formações acumuladas correspondentes a ciclos longos, que conferiam qualificações de base reconhecidas pela Sociedade como adequadas para o início de exercício de profissões com responsabilidade e níveis de complexidade elevadas. A portaria n.º 782/2009 adopta no seu Anexo III um alinhamento de reconhecimento de qualificações de ‘Bacharelatos e Licenciaturas’, sem qualquer reconhecimento da diferença inequívoca de qualificações entre as novas licenciaturas, primeiros ciclos que têm de facto relação com os antigos bacharelatos, e as antigas licenciaturas, que representam um nível acima do dos bacharelatos. Não é curial que, fazendo o Anexo III, e bem, menção expressa a um grau do anterior sistema, o bacharelato, não faça igualmente menção expressa ao outro grau desse mesmo sistema, a licenciatura. Não pode ser omitido que o termo “licenciado” se refere a níveis de formação académica marcadamente diferentes, consoante diga respeito ao sistema anterior, ou ao que está actualmente em vigor. A realidade é que, tal facto, é inaceitavelmente lesivo dos direitos dos titulares de licenciaturas anteriores à presente reforma. É necessário que fique claro, para os empregadores e para a sociedade em geral, que apesar de se estar a adoptar, por decisão legal, a mesma designação, está efectivamente a referir-se a níveis de qualificação diferentes, sendo adequado que a actual licenciatura esteja associada ao nível 6 (no mesmo nível do antigo bacharelato) e a antiga licenciatura dos regimes de ciclo longo anteriores ao Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, de que são titulares muitas centenas de milhares de licenciados, figure no nível imediatamente superior, nível 7, nível com correspondência ao do actual mestrado. E ainda: - Estando convictos que a equiparação proposta é uma ideia de princípio válida, e defensora dos interesses de todos os licenciados, sejam ou não membros das Ordens Profissionais e profissionais que se formaram antes do Processo de Bolonha; - Tendo presente que a Lei define que são as Instituições de Ensino Superior que têm competência para atribuir este tipo específico de equivalência; - Tendo, ainda, em conta que as Ordens Profissionais têm tido conhecimento de procedimentos e exigências muito diferentes consoante a Universidade, para a atribuição de equivalência quando solicitada; - Tendo em consideração que é necessária uma base objectiva, uma questão concreta colocada para que a Assembleia da República se veja na necessidade de legislar; - Tendo em consideração a objectividade do actual comprometimento de diversas situações de progressão de carreira, de candidatura a concursos públicos, ou da definição da prioridade curricular dos licenciados pré-Bolonha, cujo percurso material compreende um total efectivo de cinco ou mais anos lectivos, agora prejudicado pela modificação meramente formal da designação da estrutura três mais dois, actual Mestrado (integrado); - Que não poderão ser compatíveis realidades distintas, como é o caso das licenciaturas antes e pós Bolonha, uma correspondendo ao actual primeiro e segundo ciclo, cinco/seis anos, e a outra apenas ao primeiro ciclo. Proposta: Os signatários requerem que seja dada equivalência de Mestre aos titulares das anteriores licenciaturas universitárias com formação de 5/6 anos, na designação pré-reforma de Bolonha.

Os signatários
Em: http://peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=pet1

terça-feira, 3 de agosto de 2010

180º

Casal com 30 e tal anos.
Estabiliza daqui, estabiliza dali, finalmente parece haver condições mínimas para assegurar o sustento responsável de alguma descendência.
Casa nova paga ao banco em pontuais prestações, com quartinho em desenvolvimento, roupinhas, numa gravidez que vai correndo bem, 1ª ecografia morfológica, 2ª morfológica, tudo impecável....
35ª semana, a mala já está pronta, as ginásticas pré-parto com muitas outras grávidas em circunstâncias iguais prometem dar frutos brevemente, há entusiasmo e magia no ar.
Náuseas e vómitos.
Serviço de Urgência, CTG e ecografia fetal, tudo bem, "coisas de grávida".
Um par de dias depois mantêm-se as queixas, novo passeio ao SU: "feto morto".
Indignação, desconsolo, revolta.
Mas também doença: mãe com insuficiência hepática, trombocitopenia, coagulopatia, insuficiência renal. Vulgo síndroma HELLP.
Cesariana para extracção do feto morto, em princípio curativa.
Mas neste caso não, agravamento do quadro nas horas seguintes, sépsis, hemorragia com agravamento da coagulopatia, nova intervenção cirúrgica para extracção dos coágulos, persistência da insuficiência renal, afundamento neurológico e coma.
Sentimento de impotência de todos os envolvidos no caso perante a implacável evolução. Último e desesperado recurso: plasmaferese (substituição do plasma do doente por outro, em várias sessões).
E acontece o "milagre": acorda, é extubada, a função renal e restantes parâmetros analíticos melhoram, tem alta dos Cuidados Intensivos para a enfermaria, continua a fazer algumas sessões de plasmaferese até se resolver o quadro, há restitutio ad integrum.
Agora, nesta história feliz, ela pode viver, juntamente com marido, familiares e amigos, na sua casa nova, os gloriosos meses de luto por uma perda que ninguém lhe conseguirá explicar, e que ela nunca irá compreender.