sábado, 23 de outubro de 2010

Tomates

Ou falta deles.
Passo a concretizar esta reflexão:
Há doentes maus, idosos, com muitas doenças, com muita dependência de terceiros, com muito pouca ou nenhuma vida de relação.
Isso leva, à chegada ao Hospital aquando de uma intercorrência, ou de uma agudização das suas diversas cronicidades, ou do simples evoluir mais ou menos lento das suas patologias irreversíveis de base, a ponderar qual o grau de "investimento" que se deve fazer nesse caso particular.
Porquê? Porque não se pode oferecer tudo a todos, ou, por outras palavras, o melhor em termos de cuidados a todos. E deve-se racionalizar, para se oferecer o melhor aos "melhores" candidatos.
Isto, não só não é criticável, como é altamente louvável, na minha perspectiva. Ou seja, não faz sentido nenhum, num caso extremo para facilitar (isso depois complica, e muito, lá mais pelo meio...), ventilar um velhote com insuficiência respiratória crónica, a fazer oxigénio domiciliar ou VNI, demente ou vegetativo após um AVC, sem vida de relação com o meio circundante, acamado.
Mas PODE-SE fazer. Seria bom, na perspectiva de o manter vivo, fazê-lo. Mas isso implicaria assumir que passava a haver lista de espera nas Unidades de Cuidados Intensivos deste país (o que, já agora sublinhe-se, é incompatível com a sobrevida dos candidatos). Ou seja, quem calhasse de precisar delas numa das raras alturas em que haveria vagas safava-se, os outros todos, paciência. É um critério (a "ordem de chegada"), que até poderia ser resolvido eficazmente se passasse a haver mais UCI's e intensivistas do que centros de saúde e médicos de família, e descobríssemos petróleo, muito petróleo, no nosso subsolo (que financiasse esses caríssimos centros de tratamento).
Não se faz assim, "guardam-se" as vagas para aqueles candidatos com "doença à partida potencialmente reversível", e com "bom estado potencial" após a estadia. E quem fala no caso extremo dos cuidados intensivos fala de outras unidades especializadas (coronárias, AVC's...).
O problema está, não no bem maior que se pretende em guardar as limitadas vagas para quem mais beneficia delas, mas sim com o que se faz com os "candidatos chumbados". Ou sobre os argumentos que por vezes inventamos para justificar o chumbo.
O mais clássico de todos é fingirmos estar a fazer "bem" ao doente, não porque ele está no final da vida e tem todo o benefício em não lhe prolongarmos o sofrimento, mas sim porque o "tubo", de repente, passa a ser uma "violência", ele passa a precisar de "tranquilidade" e não dos "catéteres" (coisas inúteis que por lá se põem) e do "rebuliço" de uma unidade daquele tipo.
Pior: muitos não assumem sequer que o doente é para deixar de molho, confortável, paliado, efectivamente sossegado, e seguem a prescrever antibióticos, oxigénio, alimentação, monitorização, e tudo o mais que se lembrem, como se de repente lhes desse um súbito assomo de consciência ou arrependimento.
Ou seja, o que me aborrece são os decisores de consistência (e consciência) interrupta e/ou lábil. Que acham que uma determinada pessoa não é para investir assim tanto, mas na qual se deve investir assim-assim. Que fingem que cuidados mais invasivos, MELHORES, passam a ser cuidados maus para um determinado candidato, mas que já não é mau prolongar-lhe a vida não-invasivamente.
Se a ideia é prolongar a vida, prolongue-se o melhor que se sabe e pode. Se a ideia é não prolongar o sofrimento, então... não se prolongue o sofrimento, trate-se o sofrimento e deixe-se a doença seguir o seu curso. Se a doença é má mas a intercorrência é reversível, trata-se a intercorrência com o melhor que se pode. Ou então: se a doença é má, e a intercorrência reversível, então não se faça nada e deixe-se a intercorrência levar esse doente mau. São duas posições legítimas, desde que minimamente coerentes num determinado espaço e tempo.
Agora, não se trate a intercorrência assim-assim, porque a doença de base é má. Nem se passe a tratar todas intercorrências, independentemente das doenças de base.
Estas dúvidas existenciais saem mais baratas ao contribuinte se tratarmos o decisor com uma benzodiazepina, oferecendo-lhe de seguida a possibilidade de uma retemperadora noite de sono.
E o doente, podem acreditar em mim quando o digo, agradece.
Mas lá que isto ainda anda perigoso demais para eu morrer com um mínimo de "segurança", ai isso anda.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Com Tensão

Sem pretender ser pessimista....
Mas não vejo saída possível para a "crise" de funcionamento dos hospitais na actualidade.
Os hospitais que funcionam "bem" são aqueles que conseguem ir buscar mais dinheiro (para eventualmente, na melhor das hipóteses, investir em infra-estruturas e meios humanos) ao bolo do SNS.
Para funcionar "bem" e serem recompensados nos orçamentos devem seguir uma série de recomendações/critérios que não se coadunam por si só (e às vezes, antes pelo contrário) com melhoria da qualidade dos cuidados de saúde.
A título de exemplo: um Hospital recebe por "episódio".
Um "episódio" de Urgência (ou seja, um "utente" que vai ao serviço de Urgência) rende x (valor fixo), em que x deve ser superior ao gasto para o serviço se auto-financiar. As "verdadeiras urgências", em princípio, saem mais caras que x, por isso devem ser atendidas várias "falsas urgências", para que o ganho com estas financiem as verdadeiras.
Isto leva, obviamente, ao aproximar do serviço do seu colapso, com aumento dos tempos de atendimento, ainda que uma triagem com qualidade faça recair o ónus da espera tendencialmente nos menos urgentes.
Seja como for, o burnout de serviços já de si geralmente mal servidos de meios humanos, a actividade permanente que favorece o erro (quantos mais casos pouco graves, maiores são as probabilidades de escaparem ao crivo alguns de gravidade que mereceriam maior concentração de atenção) e o desvio da actividade para fora da sua vocação (de urgência) faz invariavelmente decaír a qualidade por esse país fora.
E atitudes sensatas, como "limitar" o acesso aos serviços de Urgência às verdadeiras urgências, deixa de fazer sentido, em nome da rentabilização do mesmo.
O Hospital também ganha em função do "episódio" de consulta. Quantas mais consultas por unidade de tempo, maior a rentabilidade do profissional.
Escusado será dizer que essa profissionalização em consultas "expresso" tem o seu je ne sais quoi. Em primeiro lugar, a desvalorização relativa da actividade assistencial em enfermaria, porém fundamental relativamente aos casos mais graves e complexos (e esse ponto, a meu ver, é muito grave), e com uma exigência inerente muito elevada aos profissionais que a desempenham bem. Em segundo lugar, a duvidosa relação que existirá entre "muitas consultas" e "boas consultas".
Por fim, uma terceira achega, a dos GDH que facultam muito dinheiro aos hospitais. Num Hospital, a sua alma natural, que é a Medicina Interna, o internamento e os casos de gravidade superior, equivalem a despesa/prejuízo de acordo com os actuais critérios de pagamento.
Os GDH que dão "lucro" vêm de serviços como a Cirurgia do ambulatório, as "consultas expresso" a granel e as urgências da treta, para além de umas quantas, pontuais, técnicas aqui e ali.
Escusado será dizer qual o sector privilegiado por qualquer administração nos tempos que correm. Não é o médico que interna o doente complicado para o estudar mais ou menos demoradamente, com exames algumas vezes complexos, com tratamentos algumas vezes dispendiosos. Não é o médico que só fica com os doentes complicados na consulta, dando alta aos mais "simples" (que podem ser seguidos por qualquer médico de família), que faz exames completos no seu período de consulta e que, por isso, vê 5 ou 6 doentes em 4 horas bem preenchidas, em vez de 40 em 1 hora, como em algumas "consultas" que existem (e isto é a sério!), onde os doentes nem se sentam, e que só servem para ajustar INR's de pessoas sob anticoagulação oral. O episódio de consulta rende o mesmo ao Hospital. Ou seja, aquele que faz o que qualquer programa informático foleiro poderia (e deveria) fazer, é muito mais "rentável" (cerca de 40 vezes mais rentável) que aquele que queima os neurónios a pensar... doentes.
Por fim, escusado será dizer que o real objectivo de qualquer administração hospitalar competente que se preze, nos dias que correm, não passa por melhorar a qualidade dos serviços prestados, ou a sua diversidade, nem passa por melhorar a qualidade física ou humana da maioria dos Serviços e Consultas (nomeadamente os menos lucrativos, os mais "pesados": Medicina Interna; Cuidados Intensivos; Oncologia em geral), nem tão pouco por melhorar a qualidade dos profissinais que integram os seus quadros, melhorando assim a qualidade dos cuidados de saúde à população que serve.
Isso seria condenar o Hospital (e a população que ele serve) à privação dos fundos, tal como são distribuídos na actualidade, e à ruína subsequente.
O objectivo é, isso sim, ir "buscar dinheiro" ao Estado (logo, ao contribuinte), ainda que por meios artificialmente valorizados (pela própria administração do Estado), para o poder gastar em formas de maximizar ainda mais essa busca, num ciclo suicidário em termos sociais e financeiros, que não soluciona os reais problemas dos cidadãos (que são os tais problemas que não dão lucro), minando-lhe por outro lado qualquer possibilidade de ter um SNS sustentável, sem ser através de artifícios em que o objectivo primário de qualquer Hospital seja o de "enganar" a administração central por forma a esta desbloquear o máximo de fundos para este ou aquele.
São os sinais dos tempos. De hoje.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Competências

Quando é que, em saúde, devemos passar a ter uma determinada competência?
Sem qualquer critério corporativista, apenas pela lógica das coisas?
Parece-me simples quanto ao "critério mínimo": quando conseguimos resolver as iatrogenias que dela advêm. Mesmo que não individualmente, no mínimo estruturalmente (seguindo uma cadeia célere, bem oleada e solidária nessa resolução).
Quer pôr catéteres autonomamente? Tem que saber drenar pneumotórax e hemotórax.
Quer administrar sedativos (entre muitos outros fármacos)? Tem que saber reaminar.
Quer reanimar? Tem que saber (além dos simples algoritmos) arranjar acessos vasculares e entubar oro-traquealmente (e drenar pneumotórax hipertensivos, e drenar derrames pericárdicos, e ventilar, e avaliar neurologicamente, ...).
Quer realizar exames endoscópicos? Tem que ter retaguarda cirúrgica avisada (e saber reanimar, ...).
E por aí fora.
Podia ser que, dessa forma, se acabassem com muitas reivindicações bacocas que recorrentemente se ouvem por aí.
Quanto aos demais critérios (os de "qualidade"), estamos em Portugal, país das "Medicinas Alternativas" legalizadas (ou não ilegalizadas).
Não tenhamos por isso "delírios escandinavos", nem "complexos de canadiano".

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O Senhor Seja Louvado!

L'OMS déclare la pandémie de grippe H1N1 terminée

Julgo estarmos finalmente em condições para, novamente, nos começarmos a preocupar seriamente com "a gripe".
"Aquela" que, todos os anos, nos mata aos milhares.
E que não vem no Alfabeto....

Confusões Escusadas, Parte II

Petição Equivalência de Mestre aos titulares das anteriores licenciaturas com formação de 5/6 anos

Para:Assembleia da República

Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República, Os cidadãos a seguir assinados e identificados vêm, por este meio requerer que seja dada equivalência de Mestre aos titulares das anteriores licenciaturas com formação de 5/6 anos, na designação anterior à reforma de Bolonha. Com a Reforma do Ensino Superior (Decreto-Lei 74/2006, de 24 de Março), o título académico de licenciado passou a ser atribuído ao fim de um ciclo de estudos de 3 ou de 4 anos, quando no passado o título equivalente era designado por bacharel. Pelo contrário, antes da Reforma, à formação superior de 5 anos era atribuído o título de licenciado. Perante a existência no mercado de trabalho de diferentes formações e competências, a que corresponde o mesmo título académico, torna-se necessário referenciar o mesmo com a indicação do período em que foi obtido. Acresce que a Portaria nº 782/2009, que estabelece a Regulamentação do Quadro Nacional de Qualificações (QNQ), ignora a diferença anteriormente referida, pois no Anexo III atribuiu o mesmo nível ao bacharelato e à licenciatura (nível 6), sem diferenciar se os títulos foram obtidos antes ou depois da Reforma. Esta classificação desvaloriza, de forma gravosa, injusta e incompreensível, a qualificação profissional de centenas de milhar de licenciados pré-Bolonha na medida em que, não só colide com o reconhecimento das suas qualificações profissionais, aceite há dezenas de anos pela Sociedade, como também colide com o próprio ordenamento jurídico nacional, em especial na parte referente ao reconhecimento nas formações de nível superior, nomeadamente com o estabelecido na Lei n.º 9/2009, de 4 de Março, relativa a reconhecimento de qualificações profissionais. Exposição de Motivos: Nos termos dos acordos do processo de Bolonha, de que Portugal é desde o primeiro momento signatário, ocorreu recentemente no nosso País uma reestruturação profunda do quadro legal do sistema do ensino superior. O Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, alterado pelo Decreto-Lei n.º 107/2008, de 25 de Junho, tendo como referência a segunda alteração à Lei de Bases do Sistema Educativo adoptada pela Lei n.º 49/2005 de 30 de Agosto, estabelece, na perspectiva da preparação para a generalidade das profissões, dois graus académicos de formação superior principais: a) O grau de licenciado, correspondente ao 1º ciclo de estudos do Espaço Europeu do Ensino Superior, acordado pelos ministros do ensino superior na sua reunião em Bergen, Noruega, em Maio de 2005, no âmbito do processo de Bolonha - cf. especialmente o artigo 5.º do Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, alterado pelo Decreto-Lei n.º 107/2008, de 25 de Junho, supra-citado. b) O grau de mestre, correspondente ao 2º ciclo de estudos do Espaço Europeu do Ensino Superior, acordado pelos ministros do ensino superior na reunião de Bergen, supra-mencionada - cf. especialmente o artigo 15.º do referido Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, alterado pelo Decreto-Lei n.º 107/2008. Entendeu o poder político adoptar a designação de licenciatura para os novos primeiros ciclos de formação. Esta decisão, dificilmente entendível, mas que naturalmente se respeita no quadro democrático, levantou desde o primeiro momento, em muitos cidadãos, uma grande preocupação sobre futuras confusões entre designação e competências associadas, com a correspondente injustiça que se poderia perspectivar. As licenciaturas anteriores à reforma correspondiam, na generalidade, a formações acumuladas correspondentes a ciclos longos, que conferiam qualificações de base reconhecidas pela Sociedade como adequadas para o início de exercício de profissões com responsabilidade e níveis de complexidade elevadas. A portaria n.º 782/2009 adopta no seu Anexo III um alinhamento de reconhecimento de qualificações de ‘Bacharelatos e Licenciaturas’, sem qualquer reconhecimento da diferença inequívoca de qualificações entre as novas licenciaturas, primeiros ciclos que têm de facto relação com os antigos bacharelatos, e as antigas licenciaturas, que representam um nível acima do dos bacharelatos. Não é curial que, fazendo o Anexo III, e bem, menção expressa a um grau do anterior sistema, o bacharelato, não faça igualmente menção expressa ao outro grau desse mesmo sistema, a licenciatura. Não pode ser omitido que o termo “licenciado” se refere a níveis de formação académica marcadamente diferentes, consoante diga respeito ao sistema anterior, ou ao que está actualmente em vigor. A realidade é que, tal facto, é inaceitavelmente lesivo dos direitos dos titulares de licenciaturas anteriores à presente reforma. É necessário que fique claro, para os empregadores e para a sociedade em geral, que apesar de se estar a adoptar, por decisão legal, a mesma designação, está efectivamente a referir-se a níveis de qualificação diferentes, sendo adequado que a actual licenciatura esteja associada ao nível 6 (no mesmo nível do antigo bacharelato) e a antiga licenciatura dos regimes de ciclo longo anteriores ao Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, de que são titulares muitas centenas de milhares de licenciados, figure no nível imediatamente superior, nível 7, nível com correspondência ao do actual mestrado. E ainda: - Estando convictos que a equiparação proposta é uma ideia de princípio válida, e defensora dos interesses de todos os licenciados, sejam ou não membros das Ordens Profissionais e profissionais que se formaram antes do Processo de Bolonha; - Tendo presente que a Lei define que são as Instituições de Ensino Superior que têm competência para atribuir este tipo específico de equivalência; - Tendo, ainda, em conta que as Ordens Profissionais têm tido conhecimento de procedimentos e exigências muito diferentes consoante a Universidade, para a atribuição de equivalência quando solicitada; - Tendo em consideração que é necessária uma base objectiva, uma questão concreta colocada para que a Assembleia da República se veja na necessidade de legislar; - Tendo em consideração a objectividade do actual comprometimento de diversas situações de progressão de carreira, de candidatura a concursos públicos, ou da definição da prioridade curricular dos licenciados pré-Bolonha, cujo percurso material compreende um total efectivo de cinco ou mais anos lectivos, agora prejudicado pela modificação meramente formal da designação da estrutura três mais dois, actual Mestrado (integrado); - Que não poderão ser compatíveis realidades distintas, como é o caso das licenciaturas antes e pós Bolonha, uma correspondendo ao actual primeiro e segundo ciclo, cinco/seis anos, e a outra apenas ao primeiro ciclo. Proposta: Os signatários requerem que seja dada equivalência de Mestre aos titulares das anteriores licenciaturas universitárias com formação de 5/6 anos, na designação pré-reforma de Bolonha.

Os signatários
Em: http://peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=pet1

terça-feira, 3 de agosto de 2010

180º

Casal com 30 e tal anos.
Estabiliza daqui, estabiliza dali, finalmente parece haver condições mínimas para assegurar o sustento responsável de alguma descendência.
Casa nova paga ao banco em pontuais prestações, com quartinho em desenvolvimento, roupinhas, numa gravidez que vai correndo bem, 1ª ecografia morfológica, 2ª morfológica, tudo impecável....
35ª semana, a mala já está pronta, as ginásticas pré-parto com muitas outras grávidas em circunstâncias iguais prometem dar frutos brevemente, há entusiasmo e magia no ar.
Náuseas e vómitos.
Serviço de Urgência, CTG e ecografia fetal, tudo bem, "coisas de grávida".
Um par de dias depois mantêm-se as queixas, novo passeio ao SU: "feto morto".
Indignação, desconsolo, revolta.
Mas também doença: mãe com insuficiência hepática, trombocitopenia, coagulopatia, insuficiência renal. Vulgo síndroma HELLP.
Cesariana para extracção do feto morto, em princípio curativa.
Mas neste caso não, agravamento do quadro nas horas seguintes, sépsis, hemorragia com agravamento da coagulopatia, nova intervenção cirúrgica para extracção dos coágulos, persistência da insuficiência renal, afundamento neurológico e coma.
Sentimento de impotência de todos os envolvidos no caso perante a implacável evolução. Último e desesperado recurso: plasmaferese (substituição do plasma do doente por outro, em várias sessões).
E acontece o "milagre": acorda, é extubada, a função renal e restantes parâmetros analíticos melhoram, tem alta dos Cuidados Intensivos para a enfermaria, continua a fazer algumas sessões de plasmaferese até se resolver o quadro, há restitutio ad integrum.
Agora, nesta história feliz, ela pode viver, juntamente com marido, familiares e amigos, na sua casa nova, os gloriosos meses de luto por uma perda que ninguém lhe conseguirá explicar, e que ela nunca irá compreender.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Os Nossos Antepassados

Quando penso neles, só me ocorre uma pergunta: o que andaram esses inúteis a fazer?
Crescemos a acreditar em histórias da carochinha.
"Se estudares/trabalhares muito, serás alguém", diziam-me. Constato hoje que se roubar, se enganar, se fraudular ou se desfalcar, muito mais depressa e eficazmente ascendo à condição de "alguém", do que trabalhando, que aliás é meio caminho andado para ser considerado parvo por estas bandas.
"Deves respeitar os outros para que os outros te respeitem". Essa então dispensa comentários....
"Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti".
"Não desobedeças às autoridades".
"Respeita o teu professor".
"Não mintas".
"Não te atrases, deixar as pessoas à espera é falta de respeito"....
Como é que alguém, no seu perfeito juízo, educa os filhos segundo estes princípios irreais, sabendo de antemão que lhe espera a desilusão certa, mais cedo ou mais tarde, ao constatar que nada do que sempre se defendeu junto dele é minimamente valorizado nestas sociedades desprovidas de valores?
Uns têm porque nasceram tendo. Alguns têm porque trabalharam, porque se esforçaram. Outros têm porque não é justo os privilegiados que trabalharam e se esforçaram terem, e eles não.
Uns são porque nasceram sendo. Outros têm que se submeter e intrometer em concursos desleais e farsas que tal, para tentarem ser. Outros ainda, simplesmente são porque acham que têm esse direito, sem sequer se esforçarem para parecer.
Onde está a Justiça afinal? Que assegura a igualdade de direitos (e de deveres)? Onde entra o Mérito no nosso dia-a-dia? O que ele oferece a quem o evidencia? Onde acaba a discriminação dos que têm e são sem o merecerem, e quando é que começa a discrimição aos que querem ter e ser cada vez mais sem fazerem nada por isso, pelo simples facto de acharem que outros devem sustentar os seus vícios e delírios?
Anda tudo doido.
Por isso, caros leitores, sempre que me falam em antepassados, limito-me a puxar resignado por mais um cigarro, suicidando-me mais um pouco.
É que eu não estava de todo preparado para ter que começar a fazer tudo desde o princípio....

Vírus do Nilo II

Via TTA d' "o som nu e cru"

terça-feira, 27 de julho de 2010

Vírus do Nilo

Ou do Tejo, neste putativo caso de que se fala....
Parece que anda para aí.
Não é muito interessante, o vírus, quer em termos semiológicos/de diagnóstico, quer de tratamento (ou até de prognóstico, essencialmente benigno).
Mas como estamos na Era da Epidemiologia, quem sabe está aí para chegar mais uma paranóica onda de pânico?
A ver vamos, eu cá sugeria um documentário sobre o tema com um doente infectado com o dito cujo, de preferência belo e jovem, com os pais a explicar o trajecto da vítima ao longo da sua infância (devidamente inconografado), a convulsivar por fim, e culminando numa sempre dramática assistolia monitorizada. Nem que fosse outro problema qualquer a causar a fatalidade, mas lembrando que esse é o efeito do vírus numa (ainda que irrisória) percentagem dos infectados ("inspirado em factos potencialmente reais"). Rematando, claro está, que a doença se manifesta por uma distinta febre e dores no corpo, para culminar na debandada do povo para os Serviços de Urgência por esse país fora, seguido por comunicados ministeriais e entrevistas a ratos de laboratório do Instituto Ricardo Jorge acerca das alterações climáticas e do Armagedão, mesmo aí ao virar da esquina.
Até lá, relembro-vos e gabo-me das minhas faculdades premonitórias, bastando para o provar que leiam o post anterior, em que de forma visionária defendia (já então...) a erradicação de todos esses vectores que nos vão preocupar.
Pode ser que sempre acabe por ver umas avionetas a pulverizar insecticidas por cima da minha quintinha, afinal. Chamar-se-ia a isso males que vêm por bem, ou de forma mais (apropriadamente) bíblica, que por vezes sempre se escreve direito por linhas tortas....
É o chamado "Efeito Gripe A". E seria o máximo, se não fosse tão caro.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Insectos

Não, não é metáfora. Trata-se mesmo de uma mini-crónica para lamentar que, neste século que traduz avançada idade civilizacional, ainda não se tenha resolvido um problema para o qual, do meu apartamento no segundo andar de uma qualquer cidade, nem estava sequer sensibilizado.
Desse meu 2º andar, sendo adepto fanático daqueles difusores que se ligam às tomadas em regime non-stop, nunca tive problemas com insectos, e julgo contarem-se, à vontade, com os dedos de uma única mão as moscas que eu matava ao longo de um ano. O meu contacto com insectos era esporádico, e a contenda facilmente decidida a meu favor, por inferioridade numérica franca dos espécimens em causa.
Desde que me mudei para esta quinta, de outra forma tão aprazível em visitas pontuais e em qualquer fotografia mais tosca, descobri um problema.
Esta bicheza não tem fim, resiste a quantidades humanamente tóxicas destes insecticidas que despejo pela casa, manifestamente ineficazes, e está na origem da minha mais recente obsessão.
Não são discretos os insectos, nem tímidos, e não são raras as vezes em que, tranquilamente sentado em frente a este monitor, acabo abalroado por uma qualquer mosca ou traça ou lá os nomes que inventam para estas coisas nojentas com asas que teimam em voar à minha volta.
Não facilito, e para além dos insecticidas apetrechei-me com redes mosquiteiras e um bem treinado regimento familiar, severamente punido de cada vez que falham as normas de segurança, destinadas a prevenir a intrusão dos invasores: portas que só se abrem num intervalo de tempo indispensável para, rapidamente, o corpo as atravessar; persianas que só se fecham com luzes apagadas; janelas que só se abrem com as redes postas....
E uma guerra total e impiedosa a tudo o que mexa fora do contexto do agregado. Só que esta guerra não tem fim, e já nem os rastejantes consigo controlar (apesar de serem, de longe, os menos irritantes). Não desisti, nem o farei, mas já pareço o zé das moscas de pano em riste atrás delas e dos seus aparentados.
As visitas ocasionais não estão sensibilizadas com o problema, e acabo por enxotá-las com a minha paranóia com maior eficácia do que às moscas (a Poorta!!!).
As moscas.... Para que servem moscas? Como é que as moscas ainda não foram extintas? Essas coisas irritantes com o seu zumbido de fundo, estúpidas ao ponto de esbarrarem contra os óculos do maior serial-killer de sempre da sua já longa história, sem qualquer noção de discrição ou sequer de camuflagem, que parecem pedir para serem esmagadas quanto antes irritando o predador até ao limite da sua paciência.
Desconfio que é por serem tantas. Onde é que nascerão, para eu completar de bom grado o genocídio em que me empenho totalmente, nos dias que correm?
Não me falem em "eco-sistemas", e não me digam que estas coisas têm lugar nos mesmos, quanto mais terem alguma função que não possa ser desempenhada eficazmente por outro qualquer ser menos irritantemente vivo. Eu próprio me voluntariava de bom grado para suprir essas eventuais funções, se isso adiantasse alguma coisa.
Não haverá um insecticida que se pudesse polvilhar em cima, pelo menos do território nacional, e que exterminasse esta espécie? Os escandinavos que a preservassem, se quisessem (e duvido que, até eles, o quisessem...). DDT? Outra coisa qualquer? Tantos anos de desenvolvimento tecnológico, tantos avanços na química, tanto armamento nuclear e biológico, e não se resolveu ainda esta questão, aparentemente simples?
Bem, isto até pode ser saudável para as crianças (o campo, e tal...), apesar da bicheza e das ervas que crescem por todo o lado no quintal, mas mal posso esperar pela hora em que regressar a um higiénico e limpo apartamento, assim a modos que imediatamente após eles irem às suas vidinhas, daqui a uns (distantes) anos....
E poder finalmente ver estas coisas todas através de fotografias, que alguns me mandam incessantemente por e-mail, e que a par da minha enorme imaginação chega e sobra para desfrutar de todo o prazer da coisa sem a necessidade de partilhar o cheiro, o ruído e a presença física da coisa.
Raios partam os bichos....