quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Greves

Neste caso, a dos Enfermeiros.
Em 1º lugar, a opinião genérica quanto à mesma: é justa.
A proposta de redução salarial de uma classe já mal remunerada à partida é infame, os enfermeiros não podem naturalmente pactuar com isso, e têm a óbvia solidariedade de toda a sociedade pensante.
É claro que a proposta de redução visa, afastando-nos do lado emocional da coisa, dar início a negociações que darão origem à manutenção do anterior estatuto, sendo tal medida encarada como uma vitória por parte dos sindicatos, e provavelmente não passando esse mesmo resultado do objectivo final do governo. Isto é, baixar a fasquia, para depois se repôr ao nível anterior, abafando a contestação que estaria à partida associada à manutenção da dita ao mesmo nível. Ao preço de uma greve? Parece ser um preço que este governo julga valer a pena pagar. São os joguetes socio-profissionais que os políticos gostam de fazer, e este parece particularmente vocacionado para isso.
Enfim, desejo-lhes boa sorte, e que consigam não se ficar pelo status quo prévio, que já de si era mau.
Mas eu já tinha manifestado antes essas opiniões. Este post serve ainda para outro desígnio: o da discussão da proliferação de uma certa quantidade de bestas, ligadas à referida profissão, que usam do legítimo descontentamento da classe para destilar ódio, inveja e calúnias acerca do "resto do mundo", entendendo-se por isso, dadas as limitações mentais das referidas criaturas, àquela meia dúzia de classes que os rodeiam.
Um exemplo paradigmático disso é o energúmeno autor do blog http://www.doutorenfermeiro.blogspot.com/. Uma nódoa no meio de uma classe que merecia mais digna representação, apesar de eu saber que isto dos blogs e da internet é o paradigma da Democracia, e que... bem, "eles" existem e pronto.
O demente não cessa, em curta visita ao "sítio", de balancear-se numa esquizofrénica interpretação (correcta, nessa metade) dos males da enfermagem deverem-se ao excesso de licenciados, pois tal como eles sabem por dolorosa experiência própria, isso esvazia-os de qualquer poder negocial (que poder negocial tem um homem que, ao reinvindicar um justo salário ou condições de trabalho de acordo com a sua diferenciação, tem no desemprego dois de igual profissão dispostos a substituí-lo em piores condições remuneratórias?), e entre uma saloia e polvilhada de ódio e inveja contestação à tentativa (já agora, vã) das corporações médicas estarem a fazer o seu papel, ou seja, tentarem limitar igual fenómeno na Medicina, com iguais consequências no futuro.
O mínimo, seria a criatura estar satisfeita e criticar, ou estar insatisfeita e elogiar.
Mas não, não há espaço a esse contraditório em tão redundante capacidade de raciocínio que por lá mora, naquele andar alto e esvaziado....
Por último, e não vou exemplificar por não ser apreciador do cheiro a esgoto na "minha casa", as constantes alusões a atitudes menos "éticas" de profissionais de outras classes, com a consequente generalização, digna de um perfeito exemplar Cro-Magnon dos tempos modernos, do tipo "os médicos isso..." (com base numa qualquer calúnia), "os farmacêuticos aquilo" (com base num facto de veracidade impossível de ser determinada), os "TAE's/bombeiros aqueloutro...". Poder-se-ia o ilustre questionar do porquê de nunca lhe ter passado pela cabeça, já agora, denunciar tais ilícitos. Existem polícias, existem tribunais, existem entidades fiscalizadoras. Ou porque não, pelo menos, nomear? Será que ele receia que um infractor, partindo do pressuposto que o mesmo é real e não mera personagem de ficção da sua torcida prosa, iria processá-lo ou persegui-lo, sabendo não ter a razão do seu lado? Iria um infactor expôr-se para além da cobarde denúncia anónima num duvidoso blog, havendo matéria realmente incriminatória?
E havendo mesmo ilícito, porque não isolar o ilícito? Porquê querer dar-lhe a amplitude de uma generalização? Eu arrisco: é melhor para excitar a audiência. Mas que audiência? Bem, cada qual se contenta com aquilo que lhe dá contentamento, e estou a começar a ficar tonto.
Por isso, voltemos ao ar puro. Não vou, evidentemente, por meu lado atrever-me a generalizar, e vou antes sublinhar bem que, felizmente, os enfermeiros são muito, muito melhor que isso, enquanto classe. É uma classe com classe, insubstituível no seu papel, e com imenso potencial de crescimento e desenvolvimento de competências.
E que estou com eles nas suas reinvindicações, apesar de, tal como as regalias dos médicos são infelizmente para todos os médicos, os bons e os maus, tais aventesmas como a que referi supra acabarem por também, sem qualquer mérito ou virtude, virem a beneficiar da maior justiça para todos. Justa para os bons, dolorosamente excessiva para alguns, como ele.
Importa é termos bem a noção, na classe de enfermagem tal como (ou ainda mais) na minha, que é importante preocuparmo-nos em separar o trigo do joio. Em sermos discriminatórios entre nós, em isolarmos e punirmos os comportamentos impróprios, e em separarmo-nos dos maus profissionais, protegendo, sobretudo, os doentes, mas também protegendo-nos a nós próprios.
Nem que seja para não termos que aturar a eventualidade de um cretino qualquer atirar-nos com o joio às trombas, com ares de profeta rodeado pelo seu invariável séquito acéfalo de seguidores, sempre pronto a achincalhar todos sem critério, pelo simples facto de nunca ter conseguido vislumbrar um seu reflexo, ou pelo menos não o ter conseguido reconhecer....

domingo, 27 de dezembro de 2009

Multiplicar para Reinar

Como se vê por esse gráfico, não estamos, em média, assim tão mal de médicos. Com mais 10.000, ficamos igualados aos recordistas gregos.
A questão, que não se quer ver, e que (mais importante) ninguém vai querer ver, quanto mais resolver, não é de números per capita. Antes fosse. Formar médicos a granel, a partir do início da década, vai resolver o problema (e será que é um real problema?) da despesa que se tem com o salário dos médicos. A custo, claro, como tem qualquer liberalização de acesso a uma profissão (e temos vários precedentes no país), da qualidade. Mas isso não interessa discutir agora, antes que me comecem a acusar de corporativismo....
Os reais problemas são:
-1º: A gestão dos recursos de saúde; a auto-gestão, entenda-se: "carreiras", foi desastrosa, e culpada de abusos corporativos diversos no passado; a infantil "liberalização" que se lhe seguiu, associada a uma relativa falta (ou inexistência de excesso) de médicos, levou a uma inflação dos serviços e a uma "mercenarização" de vários profissionais, que passaram, por troca com a perda de regalias que dantes usufruiam no sistema público, a exigir compensações financeiras disparatadas, que por falta de alternativas em meios humanos lá acabaram por ir sendo satisfeitas, em maior ou menor grau. Estratégia (des)governativa desastrosa, está-se a ver, cujo preço ainda estamos a pagar todos.
-2º: A questão geográfica. Uma falsa questão. Não há maior carência de médicos no interior que no litoral; estão é igualmente mal geridos, e no litoral há mais alternativas, e mais meios, pelo simples facto de estarem lá, em termos absolutos, em maior número (ainda que, per capita, a diferença não seja assim tão escandalosa, excepto em algumas regiões de excepção).
-3º: A questão da Especialização. Essa sim, uma verdadeira questão. Há médicos a mais em certas especialidades, e a menos noutras; não se rentabilizam as especialidades mais povoadas com competências específicas, antes fazendo destas património restrito de certas quintinhas; há especialidades "inúteis" (Endocrinologia; Reumatologia; Infecciologia...); há especialidades desmotivantes (Medicina Familiar); há especialidades técnicas que se "desperdiçam" em actividades assistenciais (Gastrenterologia; Cardiologia; Pneumologia; ...); as especialidades assistenciais "desperdiçam-se" em actividades burocráticas e de secretariado, e/ou desgastam-se em trabalho de sapa indiferenciado nas Urgências (Medicina Interna; Pediatria; Cirurgia Geral; Ortopedia; ...).
Mas isso, por outro lado, é complicado de resolver. Seria preciso uma "estratégia". E as estratégias, as boas, as verdadeiras, não são apanágio do nosso rotativo estado "à deux", politizadinho, amante de tachos e, acima de tudo, incapaz.
E não vou contestar (ou só contestarei depois de ver) esta política, que tem a vantagem de ser simples, logo aplicável, e que se calhar no objectivo final (em termos de resolução do problema) está certa, ainda que mal dirigida (ou "pouco cirúrgica", se preferirem): se formos muitos, e baratos, eventualmente as coisas melhorarão.
Duvido é que, mesmo assim, fiquem boas....

Salvar Vidas

Foi coisa que nunca fiz, apesar das múltiplas acusações ao longo dos anos.
Não é para deprimir ninguém, mas limito-me a adiar mortes, que é uma coisa bem diferente, e bem mais pedagógica de se ter em conta, nesses precisos termos. Eu, e todos os outros como eu (o que exclui da definição, não só os "alternativos", como também todos os experts em Saúde Pública da Medicina Moderna de todo o mundo desenvolvido ou em vias de tal, e os que a estes se rendem de forma acrítica, ou seja, 99% da população em geral, com os profissionais de saúde à cabeça...).
Feliz Natal (não confundir com essa ruinosa coisa consumista que nos infesta, e transforma em zombies psicóticos a vaguear sazonalmente em patéticas manadas nas estradas e centros comerciais por esse país fora), e "Boas Entradas", outra coisa que gostava que me explicassem o que raio quer dizer.... Deve ser por exemplo: os desejos que "a" doença que vos há de afligir (e/ou matar) não surja nos 364 dias seguintes àquele em particular. Podia ser outro dia qualquer, e outro intervalo de tempo, mas pronto, presumo que haja a necessidade para muitos de definir critérios....
Já o diziam num bom filme, tudo o que de inteligente se pode recomendar resume-se a: Carpe Diem. Por isso vivam lá a vossa vida, bem, e não se preocupem tanto com a morte e/ou a doença crónica que há de vir (e que não é passível de se "prevenir"), seguramente má e em má hora, que eu também me vou esforçar para fazer disso, todos os dias, a minha "religião".
Os votos de um excelente domingo 27 de Dezembro!

sábado, 28 de novembro de 2009

Férias

Pasmar é bom.
Por conjunturalidades diversas, estas férias não estão a ser bem de descanso à sombra da bananeira, mas enfim, lá estou longe do Hospital, por um período improvável de quase um mês.
Já vou a meio, e estou a gostar, sem pensar em Medicina, apesar dos entrecortes que me fazem sempre aqueles meus doentes crónicos de estimação, que lá me vão ligando com dúvidas existenciais diversas para o meu telemóvel.
Não estou a viajar, mas até prefiro, não sou adepto de aeroportos e aviões, e sempre estranhei essa curiosa apetência de tantos indígenas em fazer de conta que vão conhecer outros países passando neles um fim-de-semana, ou quinze dias, de correria.
Compreendo o atractivo de uma praia tropical, de um museu específico, de um espectáculo pontual exclusivo lá por fora.
Agora, cidades? Vilas, aldeias, paisagens? Uma boa fotografia e estou contentado, dispenso o som e o cheiro.
Por cá é que me sinto bem, apesar de todos os defeitos que tão bem (e tão excessivamente) nos reconhecemos.
Afinal, as férias são aquela coisa que porventura este país produz de melhor.
Eu também acho isso, um bacalhau do Minho, uma visita ao Gerês (com cavalgada para maçaricos se apetecer), uma posta mirandeza em trás-os-montes, uns enchidos das beiras, com sorte um pouco de neve, as planícies alentejanas, as praias do litoral alentejano e do Al(l?)garve, o descanso da sua própria casa, o falar a nossa língua, o ouvir falar a nossa língua, o nosso saneamento razoável, os nosso serviços de saúde acima da média (;-)... ora eis um cocktail para umas boas férias.
E agora, com a vossa licença, vou continuar as minhas, a fumar um saboroso cigarro, a preparar-me para ver o meu querido Sporting, em frente a um saboroso bife do lombo com molho de mostarda e batatas fritas!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Carlos Arroz

Fiquei a saber, pelo próprio no seu blog, que é o "Sindicalista" que faz "Desabafos".
Esperemos que continue a desabafar.
Só lhe fica bem.

Funerais

Dificilmente imagino cenário onde me sinta tão deslocado quanto o dos funerais a que tenho assistido, felizmente na qualidade de figurante secundário, que dos outros papeis me tenho livrado até aos dias de hoje.
Não posso deixar nunca de pensar qual é o meu papel no filme.
O homenageado não está contemporâneo para presenciar a reverência.
Os actores secundários, familiares directos e amigos próximos do defunto, estão demasiado imbuidos na sua tristeza pela perda para sequer aturar, imagino eu, chavões cretinos como acaba por ser qualquer frase que se formule, com a melhor e mais inteligente das intenções.
O que é suposto fazer ali? Consolar? E como?
-"Olha, a tua mãe já tinha muita idade, e estava a sofrer, foi melhor assim"?
-"É a vida"?
-"Só acontece aos melhores"?
Pensei muito nisso naqueles longos minutos mais recentes num evento similar, e continuo sem chegar a conclusão alguma.
A minha técnica é distância, cumprimento pontual sóbrio e não demasiado acalorado aos mais chegados, e sobretudo silêncio, muito silêncio. Aliás, nem me passa pela cabeça dizer o que quer que seja, por mais que aquilo que esteja a ouvir de algum enlutado me pareça ser uma pergunta.
Resulta.
Mas não deixo de pensar que pareço Darth Vader num cenário qualquer de A Casa na Pradaria.
Quando for finalmente a minha vez de ser a estrela do episódio, façam-me um favor, e sobretudo um favor a vós próprios, meus entes queridos e amigos devotos (sim, és tu, mãe!): fiquem em casa, e esperem, que a dor passa sozinha.

domingo, 15 de novembro de 2009

E agora, um pouco de Ciência...

Facto1: cinco casos mortais "por" gripe H1N1 (dou essa "de barato", para não frustrar os crentes...);
Conclusão1: a gripe H1N1 não faz baixar, aparentemente, a taxa de mortalidade normal para a época, por motivos de gripe.
Facto2: há casos descritos de síndroma de Guillain-Barré em doentes vacinados para a nova estirpe da gripe;
Conclusão2: a vacina anti-gripal "A", aparentemente, não confere imunidade para o síndroma de Guillain-Barré (incidência de 1/100.000*ano, com ou sem vacinas).
O resto, caros leitores, é próprio de conversa entre Druidas, e já me começa a faltar a marmita para este tema....

sábado, 14 de novembro de 2009

Direitos

Eu gostava agora de lançar o mote para a maior das faltas de liberdades dos nossos tempos, neste país (e noutros ditos "mais desenvolvidos"): o direito a uma morte digna.
Com a honrosa excepção dos EUA, com alguma variante é certo (sobretudo na questão da auto-determinação que costuma estar implícita ao "suicídio"...), não se concebe por cá conferir dignidade a quem ainda pugna pela mesma, antecipando de uma forma assistida a morte.
É um assunto que me preocupa bastante, quer pela consciência da inevitabilidade da coisa (morte), quer pela constatação das condições degradantes em que passamos os últimos minutos, horas, dias ou meses da nossa vida.
Por uma questão de vazio/tolerância legal, cada vez mais almas médicas sensíveis deixaram de tolerar o sofrimento dos últimos minutos de vida, até o das últimas horas. Mas quando se começa a prolongar a retro-acção paliativa, o ímpeto diminui, por óbvio impedimento legal, para não dizer por outras questões que dizem respeito à consciência de cada um (religiões e afins...).
Eu defendo a única medida enveredável possível nesse capítulo: liberalização total.
S.Exa quer morrer? Dirige-se a um gabinete, e diz que se quer suicidar, mas que visto ter dúvidas quanto à altura a que se deve atirar para ter um efeito garantido, visto não querer aparecer aos olhos dos seus familiares e conhecidos em forma de papa, ou simplesmente duvidando da eficácia e da analgesia do método, prefere que seja alguém que sabe o que está a fazer a conduzir o processo.
Isso permitiria que se averiguassem as causas da referida vontade suicidária (coisa que hoje não se faz, uma vez que não há portas onde bater quando se chega a essa fase executora), e aferir da sua consistência, com eventual espaço a soluções alternativas (factor porém não essencial, a meu ver), permitiria também que se pudesse planear toda uma série de burocracias que hoje acabam por ficar quase sempre por resolver (e para a envolvência traumatisada tratar mais tarde), e, pormenor relevante, daria ao sujeito (o sujeito, e a sua vontade, essa coisa cada vez mais exótica nos tempos de hoje...) a sempre aprazível capacidade de poder mudar de cenário sem ser em agonia, em sofrimento ou em vergonha.
Confronto-me por vezes com casos de pessoas que tentaram, de uma forma totalmente sincera, pôr termo às suas vidas. Questiono-me sempre, dado que os encontro obviamente em meio hospitalar, o que raio estarei eu a fazer, tentando devolver e/ou manter em vida alguém que, explicitamente, teve a sua última decisão em sentido contrário.
Pode ter mudado de ideias? Talvez, mas francamente, eu que não sou um herói dos nossos tempos, não penso muito nisso e procedo, uma vez que a Judiciária não me atrai por dentro.
E à noite penso noutra coisa.
Gostava era que, quando fosse a minha vez, não carecesse de tantas variáveis, não tivesse um sistema e uma sociedade tão virado contra mim, tão tolerante em deixar-me apodrecer lentamente até não passar de um vegetal respirante sem qualquer capacidade de decisão, sem qualquer consciência, um sistema tão condescendente em criar infra-estruturas desprovidas de pessoal e/ou meios suficientes para me darem conforto, e que no fundo se destinam apenas e só a esconder o estado degradante a que me obrigaram a chegar dos olhos sensíveis da maioria saudável, higienicamente, já que ninguém quer ter demasiada consciência do que vai acontecer naquele dia mais tarde....
E por isso, vamos em frente com o suicídio assistido, como manifestação suprema da liberdade individual, e de sobrevalorização do sujeito e da sua vontade contra a opinião de terceiros, no que respeita à sua vida (e morte).
Quem não estiver de acordo pode objectar conscientemente a fazer este tipo de assistência. Quando for preciso, nessas circunstâncias que desejo, poderão sempre contar comigo, num sistema público e gratuito perto de vós....
Ah, e o suicídio nunca seria obrigatório. Seria só para quem quer, ou para quem, além de querer, precisa (!) dele.
Caso contrário, já me decidi por uma guilhotina artesanal. É limpinho, fácil de coser para a apresentação no funeral ou na cremação (conforme a vontade dos contemporâneos), as conexões nervosas ficam seguramente seccionadas, e a percepção da dor não pode durar mais que alguns breves segundos.
Já imaginei uma complexa rede de seringas infusoras temporizadas, mas é muito mais complicado, sobretudo sem assistência (mas posso sempre tentar convencer um amigo!).
Terminava assegurando-vos que digo isto tudo, não por facilitismo nem crueldade ou insensibilidade, mas sim porque afinal, lá bem no fundo, até sou boa pessoa. Sei do que falo, e sei o que nos espera a todos um dia.
E por menos que acreditem hoje, um dia darão razão a estas palavras.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Tamiflu (r), essa Miragem....

Morreu agora um menino infectado com o vírus da Gripe A.
Morrem todos os anos alguns, com os parentes desse vírus, infelizmente, e que ninguém se atreva a procurar justificação ou justiça nisso.
Mais que a natural não-conformação dos pais, em luto, talvez no pior que se pode conceber, importa realçar a irresponsabilidade jornalística, mas enfim, procurar responsabilidade no Jornalismo de Hoje faz o mesmo sentido que defender as florestas no Sahara.
Acima de tudo, o supremo engano, que alguns colegas meus desgraçadamente parecem insistir em promover: o de que o oseltamivir (vulgo, Tamiflu (r)) evita o que quer que seja, cura o que quer que seja, previne o que quer que seja, apesar da inexistente evidência de tais factos.
Há uma recomendação, e ela deve ser cumprida, mas baseada em duvidosos critérios de "probabilidade de eficácia", NÃO demonstrada nunca, ainda, em estudos randomizados duplamente cegos, contra placebos (e por placebo importa salientar a importância de comparar essa molécula a tratamento sintomático com anti-inflamatórios e anti-piréticos!), ao mesmo tempo de um confortável grau presumido de "boa tolerância".
Presunções, e quem se dedica a esta profissão deveria ter tento na língua antes de insinuar que fulano infectado com H1N1 "devia" ter tomado essa molécula, e que essa molécula "teria" evitado o que quer que fosse.
Para os pais, que não conseguem (porque não) filtrar essa informação, obviamente que tal notícia tem o condão de dirigir indignação e raiva contra aqueles que, desprotegidos nesta palhaçada mediática em que vivemos quanto a este tema, acabam depois por ver manchada uma actuação em princípio sem mácula (pelo menos quanto à não administração da molécula, ou das consequências que isso teve no prognóstico verificado).
Por outras palavras, morreu uma criança, e a criança estava infectada com o H1N1.
O que sabemos mais?
-Não sabemos porque morreu;
-Não sabemos o que poderia ter sido feito para evitar a morte (seguramente que não oseltamivir, mas essa é uma pedagogia que, de tão embrionária, me parece condenada ao aborto...);
-Não sabemos se teria sido razoável ter outra atitude na fase em que foi inicialmente observada pelo Serviço de Pediatria do HSFX (e por razoável entende-se: reprodutível a todos os casos no futuro).
Sabemos que morreu, e que isso foi dramático.
Devem-se procurar respostas, as causas, para se melhorar no futuro, se possível, e esclarecer a população.
O que não se devia fazer, seguramente, era aproveitar de forma rapina este drama para vender papel. Mas a vergonha na cara, infelizmente, não queima.
Os meus pêsames a quem está de luto.
Mas também a minha solidariedade aos profissionais que estão enredados nesta polémica, pelo menos até que se apurem eventuais culpas, de má prática (que NÃO o não ter prescrito aquele placebo!) ou de negligência.
Mas isso vai ser bem investigado, podemos estar descansados quanto a esse ponto, resta saber se vamos conhecer as conclusões. Arriscar-me-ia a dizer que não, já que essas, provavelmente, não deverão ser nada mediáticas.
Mas cansa-me, esse remake insano dos nossos tempos....

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nota Editorial

Para que conste, apesar deste blog por intermédio do autor ser manifestamente contra a "paranóia gripal A" que se instalou, desde o seu surgimento, pelo burgo (este e os do restante habitat global), urge esclarecer que:
-Não se defendem aqui posições de putativas manobras intoxicadoras das altas elites norte-americanas ou outras, com a criação e/ou incubação e posterior disseminação do vírus (pelo simples facto que são... mera especulação);
-Não se dá o menor crédito à insana tentativa de se comparar os ínfimos efeitos secundários da vacina "anti-gripe A", em termos de doenças desmielinizantes do sistema nervoso central e periférico, com a maior (ainda que pequena) morbi-mortalidade de qualquer "gripe";
-E logo, defende-se que, tal como sucedia com a gripe sazonal, e de acordo com critérios "meramente" científicos, os grupos de risco se devem vacinar, por motivos não apenas de saúde pública (já não se falando aqui em termos de controlo da disseminação do vírus, obviamente impossível desde o início, mas sim de controlo da mortalidade acrescida que se verifica nesses grupos), mas também (sobretudo?) de evicção do colapso social de certas instituições fulcrais em qualquer época de gripe, seja ela sazonal ou "pandémica".
Ou seja, toda esta troupe de teóricos bacocos da "conspiração mundial" e dos empoladores dos "efeitos adversos infinitamente mais inócuos que os males que se evitam" não encontram aqui, lamentavelmente, um elemento da tribo.
Para que conste, clarifica-se.
Finalmente, o Bastonário da minha Ordem falou muito tarde (da histeria que entretanto já estava gerada em torno da gripe), e ainda por cima rematou mal ao deixar azo a dúvidas quanto à inocuidade da vacina (não respondendo à pergunta acerca da sua intenção de se vacinar).
Ele pertence a um grupo de risco enquanto médico (o risco aqui é de ficar incapaz para ajudar os doentes), ainda que enquanto Oftalmologista não seja evidentemente necessário ao normal funcionamento de qualquer elo da cadeia de atendimento a doentes descompensados pelas gripes, nas instituições nacionais que, como já se sabe há muitos anos, carecem de meios físicos e humanos para estes surtos recorrentes anualmente.
Ou seja, devia-se ter explicado antes, e melhor. Infelizmente, receio bem que a explicação não fosse aquela, racional, que eu esperaria à partida dele. Sabe-se lá porquê....
Enfim.