terça-feira, 2 de dezembro de 2008
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
terça-feira, 11 de novembro de 2008
1=1
Porque é que as pessoas, quando recorrem ao privado, têm um melhor "atendimento"?
Começaria por esclarecer o conceito, pois vou-me ficar apenas pelo comentário ao "atendimento", entendendo-se aqui por isso a simpatia/empatia e disponibilidade do médico, bem como a celeridade com que são resolvidos os problemas/expectativas do doente.
E o atendimento, entendido como tal, é importante e, basicamente, o único responsável pela má imagem do serviço público, já que aceita-se, por ser provavelmente verdade, que o serviço público encontra-se servido com os melhores profissionais no "mercado", e terá mais meios, ainda que alguns novos hospitais privados façam finalmente alguma concorrência musculada.
Dito isto, sublinho que os melhores profissionais do Hospital onde que me encontro fazem sobretudo serviço público em exclusividade. Ou seja, aquele médico que conheço bem, ao qual recorrerei um dia para mim, ou pedirei que veja a minha mãezinha quando essa adoecer, em geral, não faz "privada".
E que os piores, muitas vezes, têm uma perninha na "privada", com contraditório sucesso.
O que prova, coisa que já vou sabendo há muito tempo, que qualidade no atendimento nada tem a ver com competência nesse mesmo atendimento (a competência "ajuda", mas é absolutamente secundária, na percepção de qualidade do doente).
Porquê?
Se os competentes e dedicados estão no público, e os outros até fazem "privada", porque é que a qualidade de atendimento não é entendida como inversa (boa no público e má no privado)?
O custo não explica tudo, já que o estado gasta eventualmente mais dinheiro do contribuinte com o sistema público do que o contribuinte gasta recorrendo à privada.
Os meios são importantes, mas não explicam tudo.
O facto do acesso ser universal, e de haver discriminação positiva no atendimento de certa patologia "onerosa" em exclusividade no público, já poderá adiantar algo mais....
Mas eu quero mesmo é falar da fórmula 1=1 no privado, e 2=1 no público.
Ou seja, enquanto que no privado 1 médico faz o trabalho de 1 médico, no público serão precisos 2 para o mesmo efeito: um indigente, nunca penalizado, perpetuando-se na indigência, na inação, na incapacidade, na preguiça, para um competente, desmotivado, sobrecarregado de trabalho, injustiçado perante o primeiro.
E assim faz-se com ambos precisamente aquilo que qualquer um deles "despacharia" com alegria na privada (ou também no público, no caso do segundo), se houvesse meritocracia, se as regras do mercado se aplicassem um pouco mais a este anquilosado sistema que é o nosso de saúde (e público em geral), se se liberalizassem mais as regras do jogo.
Eu, essencialmente Conservador em termos de costumes, Socialista em questões sociais (particularmente no acesso à saúde), vejo-me tornar entusiasta Liberal em questões laborais. Porque esta fórmula dos 2=1, meus senhores, é cara e não resulta. E não vejo outra alternativa de 1 passar a ser igual a 1.
Despeçam-se os incompetentes sem piedade, reabilitem-se os "aproveitáveis" (que NÃO serão a maioria), premei-se o mérito e a competência (factor essencial neste ramo). E faça-se isso tudo com celeridade, com ligeireza até.
Enterre-se de vez o carreirismo, o funcionalismo público, a promiscuidade interesseira cíclica politizada desta "clique" ridícula que todos conhecemos, aos bocados, e que se vai perpetuando sem nunca mais ser "decapitada" ou "defenestrada".
Aproveite-se essa maioria de profissionais, "silenciosa" e escondida do reconhecimento do público, que está desmotivada por esses hospitais públicos fora, cansada de ver o chico-espertismo levar sempre a dele avante neste jardinzinho, encantador é certo, mas desesperadamente estático no que toca a assassinar interesses instalados, que só servem aqueles que dos outros se servem, sem nunca servirem para nada nem ninguém.
Serviço "Público"? Hoje, tal como está? Deixem-me rir....
Ou então definam "Público".
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Viabilidade & Investimento
Dois termos caros no dia-a-dia da Medicina que se vai praticando por aí: viabilidade e investimento.
Num extremo temos a abordagem que tudo o que (não) respira é para ser "investido", ainda que a viabilidade seja nula. E por nula incluo os não-raros casos de doentes em paragem cárdio-respiratória durante mais de 15 minutos sem assistência, ou de 30 minutos sem recuperação da circulação espontânea, apesar de assistidos, salvo excepções (afogamentos, etc...). Dizem os livros que a "viabilidade" neurológica é, nestes casos, próxima de zero. Ou seja, na prática, estamos a reanimar um corpo sem alma, um trambolho para a família e para a sociedade, dados os elevados custos de manter o "corpo" vivo no pós-reanimação, no Hospital ou fora dele. Há brinquedos bons, e mais baratos.
Outro caso de viabilidade duvidosa, é aquele desgraçado acamado, demente, internado mês-sim, mês-não por infecções diversas, escariado, a sobreviver no limiar das reservas dos seus órgãos sucessivamente insuficientes, que às vezes até inicia diálise (substituição renal), que faz oxigénio no domicílio, e mais coisas tivéssemos para o auxiliar e só lhe sobrevam os olhos com vida independente de assistência médica.
Num e noutro caso, a abordagem desenfreadamente "curativa" (de aspas bem carregadas) é, a meu ver, crime. E devia-se ter a coragem de não prolongar o sofrimento do ser humano que está à nossa frente, no primeiro caso, dando-lhe o privilégio de não ter que voltar a morrer mais tarde, e no segundo de não ter que continuar a viver nas condições lamentáveis que já ninguém consegue reverter. E nós, médicos, somos os responsáveis por essa decisão, sempre que os familiares não têm o bom-senso (ou a coragem, ou a sensatez) de preservar os doentes de uma eventual calamidade médica, que consiste no prolongamento desumano do sofrimento.
Por outro lado, e pelo menos tão grave nos meios que tenho frequentado, é a outra face desta mesma moeda. Ou seja, a decição de não "investir" por putativa falta de "viabilidade".
E putativa porque não raras vezes, a viabilidade é aferida pelo "aspecto" da criatura. Ora sendo que o fácies de um doente agónico ou em paragem cárdio-respiratória parecer-me, a mim, invariavelmente mau, tornando-se difícil pronunciar-me por esse meio acerca da viabilidade ou falta dela, desconfio. E demasiadas vezes é apenas esse o critério, à falta de qualquer outro.
A idade não ajuda. Se tiver mais de 80 anos, é bom que dê entrada no serviço de Urgência, aquando de uma patologia crítica súbita, com um sorriso convincente nos lábios, caso contrário arrisca-se a entrar no clube dos "desinvestidos", por melhor que estivesse antes da doença.
A hora de chegada também é factor decisivo, bem como as vagas nas enfermarias, o horário da próxima refeição, a disposição momentânea do clínico, a sobrecarga de trabalho do momento, o "à vontade" com as nuances da Medicina de Emergência, e nenhum desses factores deve ser menosprezado na qualidade da decisão final relativa à intensidade do investimento.
Por último, o "mas" fatal, aquele que nos diz que o equilíbrio entre o pender para um ou outro dos exageros descritos não é fácil: é que não é fácil mesmo decidir.
Nos casos de paragem cárdio-respiratória, raras são as vezes em que se consegue uma descrição minimamente convincente da altura da PCR. Não raras vezes se chega à conclusão que aquele "minutinho" que o doente esteve parado teve o efeito devastador de cerca de meia hora de isquémia naquele cérebro. Não raras vezes se vão buscar cadáveres agónicos no domicílio, que devem parar completamente na ambulância à saída de casa, e que dão entrada nos serviços de Urgência sem que ninguém se disponibilize para explicar o que quer que seja acerca do sucedido. E para o médico, aquele senhor em PCR, até prova em contrário, deve ser abordado como tendo acabado de parar naquele preciso momento, salvo evidência de putrefacção em contrário (mas não é fácil ser decisivo, e o tempo joga a desfavor do bom-senso nestas situações).
Idem aspas quanto às situações de falta de viabilidade dos doente crónicos e sofredores, em domicílios familiares ou em lares. Devendo-se juntar, nestes casos, as questões éticas importantes, e que são tudo menos consensuais dentro da própria classe.
Ou seja, uma questão complicada, esta da Viabilidade (e da Qualidade do Investimento subsequente).
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Reflexão do Dia
E se o seu Pai ou Mãe, esta noite...
-Tivesse um AVC?
-Que o deixasse hemiplégico (sem conseguir mobilizar metade do seu corpo)?
-Que o deixasse totalmente dependente de terceiros?
-Que o deixasse afásico (sem capacidade para comunicar)?
-Ou seja, que matasse aquela pessoa querida, tal como a conhece hoje?
-Se não tivesse dinheiro para o pôr numa instituição (vulgo "lar")?
-Se tivesse que passar o dia a trocar-lhe a fralda?
-A limpá-lo, a dar-lhe banho?
-A vesti-lo, a levantá-lo, a sentá-lo, a dar-lhe de comer, a deitá-lo?
-Se tivesse que ouvir os seus gritos durante a noite, regularmente?
-Se não tivesse com quem o deixar durante o dia enquanto trabalha?
-Ou pagar a alguém que tomasse conta dele nesse período?
-E tivesse por isso que deixar de trabalhar?
-O que acharia disso o seu cônjuge? E os seus filhos?
-De deixar de trabalhar, empobrecendo o agregado?
-Ou de trabalhar na mesma, deixando o idoso em condições deploráveis?
-E se esse cenário durasse anos?
-Intervalados com alguns internamentos, por intercorrências diversas da doença?
Se isso lhe acontecesse...
E acontece a alguém todos os dias...
E vai eventualmente acontecer-lhe a si, um dia, noutro dia...
O que seria da sua vida, tal como a concebe agora?
Até que ponto equacionaria a importância que tem, para si, a vida do seu progenitor?
Essa pessoa que hoje tanto adora?
Versus a sua própria vida, e a do seu agregado familiar?
Que hoje julga ser um dado tão adquirido? Tão estável?
terça-feira, 28 de outubro de 2008
O Que Eu Não Percebo
E a Helena F Matos também não....
Aqui está um texto dela (http://blasfemias.net/), sem tirar nem pôr (a não ser alguns itálicos e "bolds"):
"Paulo Rangel vai ter de aturar os ditos amigos dos animais até ao fim dos seus dias. Os animais, sobretudo os mamíferos tipo bola de pêlo, passaram a um estatuto melhor que humano: têm sentimentos, pensamentos e só praticam boas acções. São uma espécie de actualização do mito do Bom Selvagem. As mesmas almas que há umas décadas pasmavam com a superioridade moral dos guaranis agora desistiram da humanidade e deu-lhes para os cães, para os gatos e outros seres de pêlo e pena nos quais projectam todas as suas desilusões com a espécie humana.
Dizem que adoptaram um cão com a mesma naturalidade com que declaram que não vão ver o pai ou o tio ao lar porque lhes faz impressão. Falam dos bichanos como não falam dos filhos nem dos avós, tanto mais que os animais têm sobre os humanos ascendentes e descendentes a fantástica vantagem de não terem adolescência nem uma velhice tão prolongada. O caso tem foros psiquiátricos e em algumas situações quase criminosos. No Dubai país que não é propriamente conhecido pelo activismo político dos seus habitantes, cujos aliás manifestam uma tremenda indiferença pela situação dos trabalhadores estrangeiros, conhece-se uma mobilização inédita para salvar um tubarão-baleia Entretanto, ao lado, estão uns indianos numa situação de quase escravature e ninguém se indigna."
Os animais não têm culpa.
As pessoas, essas, é que estão cada vez mais doentes.
sábado, 25 de outubro de 2008
Nem Mais
Médecine Interne
Un article de Wikipédia, l'encyclopédie libre.
La médecine interne est la plus complète des spécialités médicales. Dépassant le cadre de la médecine d'organe, elle s'intéresse au diagnostic et à la prise en charge globale des maladies de l'adulte avec une prédilection pour les maladies systémiques (par exemple le lupus érythémateux disséminé) et les maladies auto-immunes en général. Un médecin qui pratique la médecine interne s'appelle un interniste.
En France, la médecine interne est la spécialité des démarches diagnostiques difficiles et de la prise en charge des adultes souffrant de polypathologies ou de maladies générales. Au carrefour des spécialités d’organe, l’interniste possède les aptitudes nécessaires pour établir une synthèse dans les situations complexes et pour mettre en place des stratégies diagnostiques ou thérapeutiques hiérarchisées. Il prend soin du malade vu comme un tout. Le fractionnement de certaines spécialités en « sur-spécialités » de plus en plus étroites, fruit du progrès médical et technologique et indispensable aux soins de certains patients, implique un recours de plus en plus nécessaire à des médecins formés à la synthèse comme le sont les internistes. Les services de médecine interne tiennent un rôle central à l’hôpital. Ils ont pour mission de recevoir des patients sans diagnostic ou polypathologiques, souvent hospitalisés en aval des services d’urgence et dans un état grave. Le fréquent contexte d’urgence et de complexité médicale nécessite la mobilisation et la coordination des moyens humains autour du patient, ainsi que la mise en œuvre de moyens techniques ou de procédures diagnostiques et thérapeutiques sophistiquées. Cette activité implique un travail en équipe, multidisciplinaire et multiprofessionnel, caractéristique de la médecine interne. Les internistes ont également une fonction de consultant pour les médecins de ville ou hospitaliers, leur apportant une aide en toutes situations.
En Belgique, la situation est assez semblable. En théorie, la cardiologie, la gastro-entérologie, l'endocrinologie, l'allergologie, etc. sont des spécialisations à part entière, mais à côté de cela il existe bel et bien des internistes qui s'intéressent à l'ensemble de ces domaines.
En Algérie, la médecine interne est aussi au carrefour des autres spécialités : l’approche globale du malade peut parfois éviter à celui-ci un circuit contraignant lié à l’approche par organe. La médecine interne a cette ambition. Illustration d'un cas de patient suivi pendant plusieurs années (5 à 6 ans), de façon séparée par différentes spécialités : Orthopédie pour une gonarthrite, maladies infectieuses pour une épididymite, ophtalmologie pour une atteinte oculaire. Ce n’est qu’en médecine interne qu’a été évoqué le diagnostic de maladie de Behcet dans sa forme oculaire grave pouvant mettre en jeu le pronostic visuel, et que le patient a bénéficié d’un traitement approprié et cela grâce à l’approche globale. Ceci n’illustre qu’un cas de retard de diagnostic de quelques années.
En conclusion : l’être humain est un organisme et non un ensemble d’organes, l’approche d’un malade doit être globale pour arriver à un diagnostic précis donc une meilleure prise en charge. Le retard de diagnostic de plusieurs pathologies dont les maladies de système résulte souvent d’une approche restrictive du malade.
domingo, 19 de outubro de 2008
O Cliente às Vezes tem Mesmo Razão...
Aconteceu-me mais uma vez, e como disse anteriormente, olhem que até me esforço....
Antes do mais, o costumeiro enquadramento geral, resumidamente, da qualidade do atendimento aos "utentes" na Urgência onde prestamos serviço (das 08h00 às 08h00 do dia seguinte, por exigência da maioria das instituições). Às 09h00 costuma-se começar com um sorridente "então, caríssimo Sr x, que más notícias o trazem por estas bandas?"; às 17h00 será mais um profissional "boa tarde Sr x, então, conte-me lá do que se queixa?"; às 23h00 um esfíngico "boa noite, o que o traz aqui a esta hora?" (note-se no pormenor do: "a esta hora", já a demonstrar incredulidade face à desproporção da relação consultas/verdadeiras urgências...); às 04h00, bem, já será uma histeria persecutória olheirenta do tipo: "há uma semana? tem febre há uma semana? e lembra-se de vir agora, aqui, às 04h00? logo quando estou aqui eu, no meu turno da noite?".
Enfim, a história da minha vida uma vez por semana, que eu tento contrariar mantendo a primeira forma ao longo do tempo todo, com maior ou menor sucesso.
Mas voltando ao tema de abertura do post, voltei a falhar, meus caros.
Como do costume, lá me apareceu a meio da noite o tradicional "cansaço há um mês", sem mais nada de especial. O quadro clínico, dramatizado pela filha (muito mais do que pelo próprio doente), minou desde logo os alicerces da relação médico-familiar do doente, e desde logo tratei de enquadrar a filha do dito cujo com a setença pré-qualquer-observação, acrescentando: "sabe, cansaço há um mês NÃO É uma urgência". Qual cliché, ela desde logo argumenta que o pai deve "estar muito mal", que o médico de família "não dá conta do recado", que os exames que aquele pediu "ainda vão demorar um semana", blá blá blá....
De paciência cada vez mais minguante, procurando desesperadamente pôr termo àquela conversa antes que a mesma degenerasse seriamente, concluí: "minha Sra, aqui, só vou assegurar-me que o paizinho não tem uma situação a carecer diagnóstico e abordagem terapêutica com carácter de urgência. O resto, vai ter mesmo que ser com o médico de família, com os exames demorados, etc.... Não se fazem abordagens certas nos sítios errados, e ou muito me engano, ou está a fazer o pai perder tempo, assim como as verdadeiras urgências que possam estar na sala de espera a esta hora, a aguardar que eu conclua esta observação!".
E lá fui ver o Sr, após aquilo que eu julgava ter sido mais um inútil exercício de Pedagogia.
Ou seja, mais uma historieta comum, que se vai fatalmente repetindo com todos os que conhecem os meandros do sítio em causa.
Mas afinal voltava-se a tratar de uma daquelas outras historietas, mais raras, que nos prova que nem tudo o que brilha é ouro, e passado pouco tempo, vejo-me a internar o homem no Serviço de Observação por hiperosmolalidade diabética (diagnóstico inaugural).
Tudo encaminhado, chega o doloroso momento de comunicar o sucedido à familiar.
Triunfante, ela excama, babada: "ah, afinal era mesmo uma situação urgente!".
Rasteiro, ainda vislumbrei a eventualidade de lhe responder que não, que o quadro clínico deveria ter sido diagnosticado antes, que o pai deveria fazer análises de vez em quando, e se o tivesse feito, não chegaria à conclusão que tinha diabetes daquela invulgar maneira, mas retrocedi, antes de lhe dar um argumento definitivo para me dar uma estocada final, reconhecendo intimamente a minha imprudente abordagem, grato pela grandiosidade de espírito, inchado de orgulho, da progenia presente, ao não me desancar mais ainda, para além daquela subtil declaração de vitória, que o ingrato destino fez com que ela merecesse.
É a vida....
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Os 7 Pecados Mortais do Médico
Vá lá, chamemos-lhes antes os Pecados Boçais, que de mortais têm pouco. Apenas nos tornam um pouco mais sonolentos nessa hipnose do dia-a-dia, que tudo tende a banalizar, a relativizar e a homogeneizar num supremo "é a vida"....
1º: Ignorância/(des)Conhecimento. O pior de todos. Com inteligência ainda há esperança, por pior que sejam os demais atributos;
2º: Vaidade. Os Narcisos da Classe, que por aí proliferam, carcterizam-se por olhar demasiado para o espelho e pouco para o doente. Perde-se em empatia, e sem empatia não há boas histórias, sem as quais não se consegue fazer o bem devido;
3º: Gula. Não são os mais perigosos, mas talvez os mais asquerozos. Aquele pequinho de boquinha espremidinha pela doutorice (in Garrett, ou seria Camilo?...) sobretudo interessado em ganhar dinheiro, e mais dinheiro, sem contemplações pelo sofrimento de quem apenas quer ser tratado, por mais que muitas vezes tenha o dever de o tratar gratuitamente na instituição pública devida. Mas sabe-se, numa Classe que cada vez tem menos classe, que muito guloso acaba por praticamente convidar o "utente" a deslocar-se ao gabinete pagante, se quiser continuar com um nível semelhante de cuidados. Mas pronto, há defeitos piores, ainda que cheirem melhor....
4º: Estupidez. É mau, muito mau, o médico estúpido. Como é um termo de interpretação lata, sublinho que quero nele incluir aqueles profissionais para os quais é tudo simples. Sempre simples, nunca complicado, e tudo o que é complicado é inventado e/ou irrelevante (o "sexo dos anjos", na gíria). Também há uma prole excessiva dessas criaturas na classe. De tal forma que já se conseguem organizar em legiões de simplificadores vocacionados em destruir todos aqueles que "complicam" as coisas. Entenda-se: os que questionam os outros e a si próprios, os que duvidam, os que receiam o erro, os que procuram, os que investigam, os que se preocupam com a eventualidade do simples não ser assim tão verdadeiramente simples, e de se poder tornar complicado para o objecto da simplificação, em última análise: o doente.
5º: Esperteza. O antónimo do anterior, que também não é de todo virtuoso (se desprovido de inteligência), só que pelo menos não atrapalha. Ele é o expert da comitiva na faculdade de, mesmo estando presente no local de trabalho, mesmo estando decididamente a mexer-se de um lado para o outro, respirando, comendo e falando, conseguir ter a relevância prática de um qualquer comatoso. Não faz mal aos doentes, pelo facto de não lhes tocar, ou de o fazer de forma absolutamente asséptica. Totalmente desprovidos de capacidade iatrogénica, não conseguem porém ir além de um ténue efeito placebo. Os doentes acabam invariavelmente tratados por outros médicos, para os quais existem diversos subterfúgios de encaminhamento, que esses espertos tão bem conhecem. É difícil de explicar, mas qualquer médico que faz Urgências neste país sabe exactamente do que (e de quem) estou a falar, metaforicamente. Alguns exemplos para os outros: nunca chamar ninguém com mais de 65 anos (o mais certo é estarem mesmo doentes...); nunca deixar de chamar alguém para ver os nossos doentes (co-responsabilizando-o inocentemente); nunca ter pressa (a pressa leva a mais trabalho, a maior risco de erro, a mais desgaste, ao mesmo salário...); chamar todos os que, decididamente, não têm nada a ver com a nossa especialidade (para os poder encaminhar, dando a ilusão de se estar a trabalhar), e por aí fora. São mais ou menos assim, os espertos aos quais me refiro.
6º: Preguiça. Muitas vezes também é esperto, mas desses já falei. Esta outra estirpe é, apesar de tudo, menos irritante. É aquele que já se fartou desta vida anti-meritocrática que é a nossa (ou que já nasceu assim...), e que chegou à conclusão que não valia a pena ralar-se. É aquele que muitas vezes até é bom colega, e preocupado com os seus doentes, mas que já não se entusiasma, não evolui, estagna e torna-se estagnante para os outros. Tem outros interesses, não sendo necessariamente guloso. Pode tão só gostar de literatura e outras Artes aparentadas, pode ser culto, ou simplesmente gostar mais de PlayStations que das últimas guidelines das doenças que deveria tratar. Muitas vezes acaba ficando estúpido.
7º: Idade. A idade por cá, pela minha constatação, está inversamente relacionada com a capacidade de fazer as coisas funcionarem à nossa volta. Se a isso juntarmos a agravante de, em consequência dessa "coisa" a que chamam genericamente de carreira, os cargos de chefia estarem sobretudo entregues a colegas com uma certa idade, o caso assume contornos de verdadeiro pecado boçal. Entre as chefias às quais me refiro, baloiçamos em geral entre dois extremos. Num deles, o chefe porreiro, facilmente adulável, que cede aos caprichos de todos, que não consegue mandar nada, e pôr nada, muito menos um serviço, a funcionar. Do outro, o incapaz (ou pelo menos não tão capaz quanto pensa) esquizofrénico, cujo delírio está entre ser um Deus do Olimpo que deve ser idolatrado, sob pena de censura, ou que pelo menos nunca deve ser posto em causa, sob pena de persecução. Claro que se aliado a isso tivermos critérios de justiça, tratamento meritocrático de todos os profissionais subalternos, capacidade de organização e visão de futuro, até podemos estar perante um excelente "chefe". Mas os profundamente intrincados complexos da velha geração de Abril incapacita-os de não confundir autoridade com ditadura, e por isso temos que nos contentar entre o inconsequente e o delirante.
É a vida....
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Dentistas nesta Escandinávia à Beira-Mar Plantada
Houve um certo sururu quanto a um Sr. Dr., por sinal aposentado, militar de carreira, que seria Estomatologista e que, para pasmo da Sociedade distraída que é a nossa, prestaria serviços de Urgência/Emergência num posto de saúde qualquer do Alentejo.
Demorei algum tempo, confesso, a perceber a natureza do problema.
Afinal, eu, médico diferenciado numa especialidade hospitalar, clínico com formação em Intensivismo, certificado com os cursos de Suporte Avançado de Vida, de Advanced Trauma Life Support, de Sepsia Severa, de Fundamental Critical Care Support, entre outros menos "badalados", passei a minha vida, de instituição em instituição, a constatar o que vai sucedendo pelas Urgência por esse país fora.
E estou cansado de saber que tudo vai parar às Urgências, tanto nos pequenos "postos" como também nas grandes Urgências, dos Hospitais Centrais, e nas das instituições privadas mais publicitadas também.
Sim, meus senhores, desde Estomatologistas, ou nem sequer isso, médicos que acabaram o curso (tal como aqueles) e que depois não se especializaram em nada (nem sequer em Estomatologia...), fazendo carreira de "banqueiros" (pagos, em geral, a peso de ouro, estratosfericamente acima de todos os demais pertencentes aos quadros das instituições, e das várias especialidades), e até internos que estão em formação nesta ou naquela especialidade, para descanso dos mais graduados que assim se esquivam muitas vezes aos seus deveres, delegando nos mais novos a troco de gratidão, formação e uma nota melhor no final do ano.
Mas agora já sei qual é o problema. O "povo" não sabia. Não sabia que a esmagadora maioria dos médicos que os atendem nas Urgências não tem qualquer formação, nem sequer vocação, em Medicina de Urgência, ou em Emergência médica.
E agora já sabe.
Mas não bastava terem perguntado?
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