sábado, 25 de outubro de 2008

Nem Mais

Médecine Interne
Un article de Wikipédia, l'encyclopédie libre. La médecine interne est la plus complète des spécialités médicales. Dépassant le cadre de la médecine d'organe, elle s'intéresse au diagnostic et à la prise en charge globale des maladies de l'adulte avec une prédilection pour les maladies systémiques (par exemple le lupus érythémateux disséminé) et les maladies auto-immunes en général. Un médecin qui pratique la médecine interne s'appelle un interniste.
En France, la médecine interne est la spécialité des démarches diagnostiques difficiles et de la prise en charge des adultes souffrant de polypathologies ou de maladies générales. Au carrefour des spécialités d’organe, l’interniste possède les aptitudes nécessaires pour établir une synthèse dans les situations complexes et pour mettre en place des stratégies diagnostiques ou thérapeutiques hiérarchisées. Il prend soin du malade vu comme un tout. Le fractionnement de certaines spécialités en « sur-spécialités » de plus en plus étroites, fruit du progrès médical et technologique et indispensable aux soins de certains patients, implique un recours de plus en plus nécessaire à des médecins formés à la synthèse comme le sont les internistes. Les services de médecine interne tiennent un rôle central à l’hôpital. Ils ont pour mission de recevoir des patients sans diagnostic ou polypathologiques, souvent hospitalisés en aval des services d’urgence et dans un état grave. Le fréquent contexte d’urgence et de complexité médicale nécessite la mobilisation et la coordination des moyens humains autour du patient, ainsi que la mise en œuvre de moyens techniques ou de procédures diagnostiques et thérapeutiques sophistiquées. Cette activité implique un travail en équipe, multidisciplinaire et multiprofessionnel, caractéristique de la médecine interne. Les internistes ont également une fonction de consultant pour les médecins de ville ou hospitaliers, leur apportant une aide en toutes situations.
En Belgique, la situation est assez semblable. En théorie, la cardiologie, la gastro-entérologie, l'endocrinologie, l'allergologie, etc. sont des spécialisations à part entière, mais à côté de cela il existe bel et bien des internistes qui s'intéressent à l'ensemble de ces domaines.
En Algérie, la médecine interne est aussi au carrefour des autres spécialités : l’approche globale du malade peut parfois éviter à celui-ci un circuit contraignant lié à l’approche par organe. La médecine interne a cette ambition. Illustration d'un cas de patient suivi pendant plusieurs années (5 à 6 ans), de façon séparée par différentes spécialités : Orthopédie pour une gonarthrite, maladies infectieuses pour une épididymite, ophtalmologie pour une atteinte oculaire. Ce n’est qu’en médecine interne qu’a été évoqué le diagnostic de maladie de Behcet dans sa forme oculaire grave pouvant mettre en jeu le pronostic visuel, et que le patient a bénéficié d’un traitement approprié et cela grâce à l’approche globale. Ceci n’illustre qu’un cas de retard de diagnostic de quelques années.
En conclusion : l’être humain est un organisme et non un ensemble d’organes, l’approche d’un malade doit être globale pour arriver à un diagnostic précis donc une meilleure prise en charge. Le retard de diagnostic de plusieurs pathologies dont les maladies de système résulte souvent d’une approche restrictive du malade.

domingo, 19 de outubro de 2008

O Cliente às Vezes tem Mesmo Razão...

Aconteceu-me mais uma vez, e como disse anteriormente, olhem que até me esforço....
Antes do mais, o costumeiro enquadramento geral, resumidamente, da qualidade do atendimento aos "utentes" na Urgência onde prestamos serviço (das 08h00 às 08h00 do dia seguinte, por exigência da maioria das instituições). Às 09h00 costuma-se começar com um sorridente "então, caríssimo Sr x, que más notícias o trazem por estas bandas?"; às 17h00 será mais um profissional "boa tarde Sr x, então, conte-me lá do que se queixa?"; às 23h00 um esfíngico "boa noite, o que o traz aqui a esta hora?" (note-se no pormenor do: "a esta hora", já a demonstrar incredulidade face à desproporção da relação consultas/verdadeiras urgências...); às 04h00, bem, já será uma histeria persecutória  olheirenta do tipo: "há uma semana? tem febre há uma semana? e lembra-se de vir agora, aqui, às 04h00? logo quando estou aqui eu, no meu turno da noite?".
Enfim, a história da minha vida uma vez por semana, que eu tento contrariar mantendo a primeira forma ao longo do tempo todo, com maior ou menor sucesso.
Mas voltando ao tema de abertura do post, voltei a falhar, meus caros.
Como do costume, lá me apareceu a meio da noite o tradicional "cansaço há um mês", sem mais nada de especial. O quadro clínico, dramatizado pela filha (muito mais do que pelo próprio doente), minou desde logo os alicerces da relação médico-familiar do doente, e desde logo tratei de enquadrar a filha do dito cujo com a setença pré-qualquer-observação, acrescentando: "sabe, cansaço há um mês NÃO É uma urgência". Qual cliché, ela desde logo argumenta que o pai deve "estar muito mal", que o médico de família "não dá conta do recado", que os exames que aquele pediu "ainda vão demorar um semana", blá blá blá....
De paciência cada vez mais minguante, procurando desesperadamente pôr termo àquela conversa antes que a mesma degenerasse seriamente, concluí: "minha Sra, aqui, só vou assegurar-me que o paizinho não tem uma situação a carecer diagnóstico e abordagem terapêutica com carácter de urgência. O resto, vai ter mesmo que ser com o médico de família, com os exames demorados, etc.... Não se fazem abordagens certas nos sítios errados, e ou muito me engano, ou está a fazer o pai perder tempo, assim como as verdadeiras urgências que possam estar na sala de espera a esta hora, a aguardar que eu conclua esta observação!".
E lá fui ver o Sr, após aquilo que eu julgava ter sido mais um inútil exercício de Pedagogia.
Ou seja, mais uma historieta comum, que se vai fatalmente repetindo com todos os que conhecem os meandros do sítio em causa.
Mas afinal voltava-se a tratar de uma daquelas outras historietas, mais raras, que nos prova que nem tudo o que brilha é ouro, e passado pouco tempo, vejo-me a internar o homem no Serviço de Observação por hiperosmolalidade diabética (diagnóstico inaugural).
Tudo encaminhado, chega o doloroso momento de comunicar o sucedido à familiar.
Triunfante, ela excama, babada: "ah, afinal era mesmo uma situação urgente!".
Rasteiro, ainda vislumbrei a eventualidade de lhe responder que não, que o quadro clínico deveria ter sido diagnosticado antes, que o pai deveria fazer análises de vez em quando, e se o tivesse feito, não chegaria à conclusão que tinha diabetes daquela invulgar maneira, mas retrocedi, antes de lhe dar um argumento definitivo para me dar uma estocada final, reconhecendo intimamente a minha imprudente abordagem, grato pela grandiosidade de espírito, inchado de orgulho, da progenia presente, ao não me desancar mais ainda, para além daquela subtil declaração de vitória, que o ingrato destino fez com que ela merecesse.
É a vida....

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Os 7 Pecados Mortais do Médico

Vá lá, chamemos-lhes antes os Pecados Boçais, que de mortais têm pouco. Apenas nos tornam um pouco mais sonolentos nessa hipnose do dia-a-dia, que tudo tende a banalizar, a relativizar e a homogeneizar num supremo "é a vida"....
1º: Ignorância/(des)Conhecimento. O pior de todos. Com inteligência ainda há esperança, por pior que sejam os demais atributos;
2º: Vaidade. Os Narcisos da Classe, que por aí proliferam, carcterizam-se por olhar demasiado para o espelho e pouco para o doente. Perde-se em empatia, e sem empatia não há boas histórias, sem as quais não se consegue fazer o bem devido;
3º: Gula. Não são os mais perigosos, mas talvez os mais asquerozos. Aquele pequinho de boquinha espremidinha pela doutorice (in Garrett, ou seria Camilo?...) sobretudo interessado em ganhar dinheiro, e mais dinheiro, sem contemplações pelo sofrimento de quem apenas quer ser tratado, por mais que muitas vezes tenha o dever de o tratar gratuitamente na instituição pública devida. Mas sabe-se, numa Classe que cada vez tem menos classe, que muito guloso acaba por praticamente convidar o "utente" a deslocar-se ao gabinete pagante, se quiser continuar com um nível semelhante de cuidados. Mas pronto, há defeitos piores, ainda que cheirem melhor....
4º: Estupidez. É mau, muito mau, o médico estúpido. Como é um termo de interpretação lata, sublinho que quero nele incluir aqueles profissionais para os quais é tudo simples. Sempre simples, nunca complicado, e tudo o que é complicado é inventado e/ou irrelevante (o "sexo dos anjos", na gíria). Também há uma prole excessiva dessas criaturas na classe. De tal forma que já se conseguem organizar em legiões de simplificadores vocacionados em destruir todos aqueles que "complicam" as coisas. Entenda-se: os que questionam os outros e a si próprios, os que duvidam, os que receiam o erro, os que procuram, os que investigam, os que se preocupam com a eventualidade do simples não ser assim tão verdadeiramente simples, e de se poder tornar complicado para o objecto da simplificação, em última análise: o doente.
5º: Esperteza. O antónimo do anterior, que também não é de todo virtuoso (se desprovido de inteligência), só que pelo menos não atrapalha. Ele é o expert da comitiva na faculdade de, mesmo estando presente no local de trabalho, mesmo estando decididamente a mexer-se de um lado para o outro, respirando, comendo e falando, conseguir ter a relevância prática de um qualquer comatoso. Não faz mal aos doentes, pelo facto de não lhes tocar, ou de o fazer de forma absolutamente asséptica. Totalmente desprovidos de capacidade iatrogénica, não conseguem porém ir além de um ténue efeito placebo. Os doentes acabam invariavelmente tratados por outros médicos, para os quais existem diversos subterfúgios de encaminhamento, que esses espertos tão bem conhecem. É difícil de explicar, mas qualquer médico que faz Urgências neste país sabe exactamente do que (e de quem) estou a falar, metaforicamente. Alguns exemplos para os outros: nunca chamar ninguém com mais de 65 anos (o mais certo é estarem mesmo doentes...); nunca deixar de chamar alguém para ver os nossos doentes (co-responsabilizando-o inocentemente); nunca ter pressa (a pressa leva a mais trabalho, a maior risco de erro, a mais desgaste, ao mesmo salário...); chamar todos os que, decididamente, não têm nada a ver com a nossa especialidade (para os poder encaminhar, dando a ilusão de se estar a trabalhar), e por aí fora. São mais ou menos assim, os espertos aos quais me refiro.
6º: Preguiça. Muitas vezes também é esperto, mas desses já falei. Esta outra estirpe é, apesar de tudo, menos irritante. É aquele que já se fartou desta vida anti-meritocrática que é a nossa (ou que já nasceu assim...), e que chegou à conclusão que não valia a pena ralar-se. É aquele que muitas vezes até é bom colega, e preocupado com os seus doentes, mas que já não se entusiasma, não evolui, estagna e torna-se estagnante para os outros. Tem outros interesses, não sendo necessariamente guloso. Pode tão só gostar de literatura e outras Artes aparentadas, pode ser culto, ou simplesmente gostar mais de PlayStations que das últimas guidelines das doenças que deveria tratar. Muitas vezes acaba ficando estúpido.
7º: Idade. A idade por cá, pela minha constatação, está inversamente relacionada com a capacidade de fazer as coisas funcionarem à nossa volta. Se a isso juntarmos a agravante de, em consequência dessa "coisa" a que chamam genericamente de carreira, os cargos de chefia estarem sobretudo entregues a colegas com uma certa idade, o caso assume contornos de verdadeiro pecado boçal. Entre as chefias às quais me refiro, baloiçamos em geral entre dois extremos. Num deles, o chefe porreiro, facilmente adulável, que cede aos caprichos de todos, que não consegue mandar nada, e pôr nada, muito menos um serviço, a funcionar. Do outro, o incapaz (ou pelo menos não tão capaz quanto pensa) esquizofrénico, cujo delírio está entre ser um Deus do Olimpo que deve ser idolatrado, sob pena de censura, ou que pelo menos nunca deve ser posto em causa, sob pena de persecução. Claro que se aliado a isso tivermos critérios de justiça, tratamento meritocrático de todos os profissionais subalternos, capacidade de organização e visão de futuro, até podemos estar perante um excelente "chefe". Mas os profundamente intrincados complexos da velha geração de Abril incapacita-os de não confundir autoridade com ditadura, e por isso temos que nos contentar entre o inconsequente e o delirante.
É a vida....

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Dentistas nesta Escandinávia à Beira-Mar Plantada

Houve um certo sururu quanto a um Sr. Dr., por sinal aposentado, militar de carreira, que seria Estomatologista e que, para pasmo da Sociedade distraída que é a nossa, prestaria serviços de Urgência/Emergência num posto de saúde qualquer do Alentejo.
Demorei algum tempo, confesso, a perceber a natureza do problema.
Afinal, eu, médico diferenciado numa especialidade hospitalar, clínico com formação em Intensivismo, certificado com os cursos de Suporte Avançado de Vida, de Advanced Trauma Life Support, de Sepsia Severa, de Fundamental Critical Care Support, entre outros menos "badalados", passei a minha vida, de instituição em instituição, a constatar o que vai sucedendo pelas Urgência por esse país fora.
E estou cansado de saber que tudo vai parar às Urgências, tanto nos pequenos "postos" como também nas grandes Urgências, dos Hospitais Centrais, e nas das instituições privadas mais publicitadas também.
Sim, meus senhores, desde Estomatologistas, ou nem sequer isso, médicos que acabaram o curso (tal como aqueles) e que depois não se especializaram em nada (nem sequer em Estomatologia...), fazendo carreira de "banqueiros" (pagos, em geral, a peso de ouro, estratosfericamente acima de todos os demais pertencentes aos quadros das instituições, e das várias especialidades), e até internos que estão em formação nesta ou naquela especialidade, para descanso dos mais graduados que assim se esquivam muitas vezes aos seus deveres, delegando nos mais novos a troco de gratidão, formação e uma nota melhor no final do ano.
Mas agora já sei qual é o problema. O "povo" não sabia. Não sabia que a esmagadora maioria dos médicos que os atendem nas Urgências não tem qualquer formação, nem sequer vocação, em Medicina de Urgência, ou em Emergência médica.
E agora já sabe.
Mas não bastava terem perguntado?

sábado, 30 de agosto de 2008

Tiques

Dito com a satisfação pela faculdade que me é cada vez mais rara, ainda me vou conseguindo chocar de vez em quando neste pequeno rectângulo.... Alguma alma iluminada, certamente após aturado raciocínio por detrás de uma secretária de um qualquer ministério oculto, decidiu que os doentes fumadores deixam de poder fumar quando ficam doentes. O motivo da coisa? Induzir a cessação tabágica? Só se for durante o internamento. Limpar o ambiente? Ninguém diz que poderiam fumar em locais agora proibidos. Nada disso. E eu arrisco: uma questão de estilo, de imagem, ou se quiserem de "princípios". Fumar faz mal à saúde, por isso não se deve fumar no Hospital e arredores enquanto se está nele internado. Direito à auto-determinação? A fazer o que bem se entende com o seu corpo e a sua saúde (entenda-se, sem maior ambição: a ser tratado, ainda que a fumar)? Questiúnculas parasitas da inevitável conclusão. E ainda vá lá que não se obrigue as criaturas a assinar um documento em como deixam de fumar por um determinado período de tempo, sob pena de pagarem uma multa ou ainda de verem recusado um, ou dois, internamentos próximos, quando estes se justificassem. E a questão do sofrimento que se induz numa pessoa que deixa de poder satisfazer uma dependência física e psicológica, para mais numa altura já de si delicada (estando doente), são amendoins para toda esta gente. O ridículo aproxima-se do seu zénite quando falamos de alcoólicos. Qual é o médico que não adora ver a clássica evolução destes seres em regime de internamento: primeiro a discreta ansiedade, o pedido inocente de alta ("doutor, eu acho que já estou bom; posso-me ir embora?"). Ainda com discursos relativamente normais, quando progressivamente, cada vez lá mais para o fundo de um estado de consciência prestes a extinguir-se, começam a tremelicar cada vez mais, já nem se preocupam em fingir lucidez, até que chega o sublime delírio; é vê-los a tentar apanhar moscas inexistentes e outra bicheza que tal (a hilariante zoópsia...), a serem amarrados à cama, quais seres possuídos numa mais ou menos boa "mise en scène" do Exorcista, a serem sedados com doses recorde de benzodiazepinas (eu ontem "dei-lhe" 120mg de diazepam, e o homem ainda conseguia arrancar a cabeceira da cama!), a perturbarem a enfermaria num raio variável, a suarem que nem desalmados, em hipertermia, por vezes a convulsivar em delirium, a vomitar e até, quem sabe, a morrer de uma pneumonia de aspiração induzida por essa recusa terminante de, obviamente, se dar um copito de tinto a cada refeição a estas amaldiçoadas almas. É verdade meus senhores, não seria preciso embebedar as animálias, bastaria dar-lhes um mínimo de álcool que evitasse a espectacular privação que tanto gostamos de induzir. Mas não. Também não se pode beber. Não que isso vá favorecer abstinência subsequente. Porque não vai. Não que isso seja, nessa altura ou futuramente, bom para a saúde do ser em causa. É sobretudo perigoso para a saúde. E já agora, o que pensam os doentes (no início, na tal fase ainda lúcida) disso tudo? Estamo-nos todos bem a cagar para isso! Aliás, diria mesmo que dum Hospital, depois de lá se entrar, dificilmente se sai. Ainda pasmo com o paternalismo (...para não usar outro termo) de certos colegas meus que ponderam, seriamente, sedar indivíduos e mantê-los internados, só porque esses defendem uma ideia de futuro próximo que não passe pelo ideal de reconstituição de saúde defendido pelo mesmo profissional. Ainda que perfeitamente conscientes e com o juízo que Deus lhes deu. Mas nem tudo são más notícias. Se for heroína, faz-se uma substituição como deve ser, e com elemento aparentado. Este país, ainda que por vezes não o reconheçamos, continua a ser muito perigoso para a individualidade que cada um de nós constitui. E essa liberdade individual, que ingenuamente julgamos ser um dado adquirido nos tempos que correm, não passa ainda, em demasiadas circunstâncias, de mera ilusão, bastando para a respectiva desilusão uma pequena confrontação com certas realidades, que todos teimamos em continuar a não encarar de frente.

sábado, 9 de agosto de 2008

Tem ALTA!

Eis o maior impropério que me acusam de proferir, de há longos anos a esta parte: "tem alta". Muitos dos familiares de doentes, por vezes até alguns doentes, entendem esta afirmação como a suprema declaração de "desprezo médico" (eu não diria "negligência", neste caso...). Dois lados, como do costume; diria mesmo três, neste particular: -O meu, em que sou pressionado a diagnosticar depressa, a tratar mais depressa ainda (e a tratar enquanto diagnostico, de preferência), e a mandar embora o doente assim que ele começa a respirar. Para assim poder receber outro, e desimpedir os corredores da Urgência, desimpedindo os quartos da minha enfermaria. E ter uma boa "estatística", ainda que nesta proto-meritocracia ninguém ligue ainda muito a esse e a outros índices de "produtividade" que tais. -O de alguns familiares de doentes, que com o internamento de casos difíceis de gerir em casa, polimedicados, multi-patológicos, ou simplesmente hiper-dependentes nas actividades da vida diária, ou de atenção, e ávidos consumidores da paciência dos que os rodeia, vêem ali a "golden oportunity" para se livrarem do trambolho, temporaria ou definitivamente (para um lar ou equivalente celestial). -O dos doentes, geralmente alheios a todas essas pressões, que em regra apenas pretendem pôr-se bons ou pelo menos melhores, excepto aqueles poucos casos cuja tristíssima vida os leva a achar acolhedoras as instalações medievais da média dos nossos hospitais, e o amadorismo da maioria dos serviços que neles se prestam, no dia-a-dia. Um caldinho explosivo, como facilmente se adivinha. Aprendi a lidar com a coisa: -Aviso precoce da alta, para mentalização precoce e melhor aceitação; -"Ameaça" permanente de alta; as pessoas preferem que uma ameaça precoce seja adiada do que uma surpresa, ainda que tardia, se confirme; -Compensações: tem alta E VEM para consulta brevemente; a alta da consulta é menos dolorosa, e pode ser considerada mais um degrau na instalação da "dor" de voltar a receber um familiar incómodo em casa. Agora mais a sério, sendo que brincando-se se podem transmitir conceitos muito reais: a percepção de não ter que haver restitutio ad integrum no momento da alta ainda não é familiar de muitos portugueses; o doente não tem que ter alta saudável, mas sim logo que puder continuar o seu tratamento no domicílio, para se curar definitivamente lá; por outro lado, a família tem que se adaptar e estar preparada e mentalizada para se adaptar às novas disfuncionalidades do doente internado, nem que seja prevendo a sua transferência para uma instituição, em caso de incapacidade em lidar com isso em casa (e nunca, nunca achar que cabe ao "Hospital" a resolução do problema social do seu familiar). Nuances? Muitas, tantas que ficaria a escrever aqui a noite toda e não as esgotaria. Só para ainda referir duas: às vezes, as altas são precoces (medicamente falando - e não na perspectiva familiar), o doente tem que voltar por ter agravado o seu estado de saúde no domicílio, e teria beneficiado em ficar mais alguns dias no Hospital; mas noutras, é tardia, e o doente agrava por se infectar (entre outras coisas) na instituição, seja como for agravando o seu estado de saúde, e enriquecendo escusadamente os sempre excessivos números de iatrogenia, por infecções nosocomiais ou outros motivos. No equilíbrio está a virtude. Mas ninguém é perfeito.

sábado, 26 de julho de 2008

Lixo

Revista Sábado, Fernando Esteves e Cª.... Mas sublinho: nada contra, cada um que escolha o seu próprio pequeno-almoço. As ratazanas também são filhas de Deus, e se a calúnia dá de comer a algumas, não serei eu a retirar o pão da boca de ninguém, ainda para mais por um preço tão baixo quanto é algum "zum-zum" de quem cujo QI precisa de alguma ginástica.... Acima de tudo, assinalo que esse lixo não é da minha área. Os jornalistas a sério que o varram.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Eis a Questão

And who by fire, who by water, who in the sunshine, who in the night time, who by high ordeal, who by common trial, who in your merry merry month of may, who by very slow decay, and who shall I say is calling? And who in her lonely slip, who by barbiturate, who in these realms of love, who by something blunt, and who by avalanche, who by powder, who for his greed, who for his hunger, and who shall I say is calling? And who by brave assent, who by accident, who in solitude, who in this mirror, who by his lady's command, who by his own hand, who in mortal chains, who in power, and who shall I say is calling?

Leonard Cohen

Um homem que torna este mundo melhor. Um mágico, não tenham dúvidas. Traduz em palavras, agrupando-as em melodias, as angústias da vida e o mistério do amor. Um grande obrigado à Sra que foi autora do desfalque milionário que o terá arruinado e obrigado a este "Tour", que incluiu o sublime concerto no Passeio Marítimo de Algés do passado sábado à noite, pelo serão. Partilhei desapaixonadamente o convertido budista com outros 9.999 seres de bom gosto, e não tive ciumes. Essa aldrabona, que não conheço, acaba por ser uma santa. E o Homem (com H grande) é um preguiçoso.... Essa voz merecia ter sido ouvida mais vezes ao longo de todos estes anos, fiquei quase ofendido de não lhe detectar sinais de fraqueza e faltas de fôlego. Há noites que nos tornam, simplesmente, felizes. Há noites em que nos lembramos da benção de ter vivido até então. Abençoado seja este canadiano preguiçoso, por mais este milagre do contentamento. E agora, meus senhores, já posso morrer ;)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

AVC Topo de Gama

Tem menos de 75 anos?
Está a sentir falta de forças num hemicorpo?
Então parabéns, pois é candidato a um AVC "topo de gama".
O AVC "topo de gama" caracteriza-se pelo direito a cuidados diferenciados numa Unidade de AVC, onde se centralizam os cuidados a este tipo de doentes, o que se provou ser francamente benéfico em termos prognósticos, quer estejamos a falar de mortalidade, quer (e sobretudo) estejamos a falar de morbilidade, comparativamente aos cuidados "standart".
Nessas Unidades, os doentes morrem, portanto, menos, e sobrevivendo mais, sobrevivem também melhor, com menos défice funcional, para o resto das suas vidas. Isso por diversos motivos, que são conhecidos, mas que não me parece pertinente estar aqui a escarafunchar (melhor estadiamento, maior intensidade e precocidade no início da reabilitação funcional, maior celeridade na execução dos exames, melhor controlo dos parâmetros vitais, da glicemia, etc...).
O problema, em Portugal e se calhar nos outros países também, é que há relativamente poucas vagas nas Unidades, para muitos AVC's. O que portanto obriga à destrinça entre AVC's "topo de gama" e AVC's "de segunda".
Os AVC's "de segunda" são os AVC's dos (muito) velhos (geralmente >80 anos), e os AVC's dos doentes que, à partida, até já estavam muito mal antes do AVC.
Em suma, os doentes em que não é necessário "investir" tanto.
Claro que esses doentes seriam muito melhor tratados numa Unidade dessas, comparativamente ao tratamento que recebem numa enfermaria convencional, do que aqueles para as quais essas Unidades afinal se destinam. Não que os médicos ou enfermeiros sejam melhores ou mais empenhados, mas porque há mais médicos para menos doentes, mais enfermeiros para menos doentes, monitores permanentes para todos os doentes, e cuidados centralizados para esses doentes.
Diria mesmo, e sem me enganar, que o benefício relativo nesse grupo de doentes até seria seguramente maior, do que numa população de menor risco, como a que no fundo caracteriza a indicação para entrar numa dessas Unidades.
Ou seja, os que estão mais fragilizados são os que recebem menos cuidados. Porquê? Porque estando mais fragilizados, têm seguramente pior prognóstico à partida do que os outros, e logo potencial de recuperação menor. Ou seja, são brindados com a facultação de cuidados "de segunda", que é para recuperarem ainda menos, e/ou morrerem mais. Peço perdão: para recuperarem e morrerem como dantes, ou como "sempre"... (para verem que o politicamente correcto é um exercício permanente, também nas linhas deste blog).
O mais engraçado é que durante muito tempo, esses "critérios" de admissão, não publicados mas conhecidos de todos, não me chocaram e pareciam lógicos, dada a desigualdade na correlação: capacidade de facultar cuidados altamente diferenciados versus número de candidatos a esses cuidados.
Revendo a coisa com cuidado, é uma perversão. E mais uma machadada na pouca dignificação que se atribui a essa coisa, que é a recta final da vida.
O que só me leva a reforçar a minha convicção de, nos dias que correm, e com tendência a piorar cada vez mais para o futuro, o melhor mesmo é não chegar a "muito velho", particularmente se não se estiver abençoado por uma salvadora demência moderada a severa.
Por isso, caro leitor, olhe bem para todas as perspectivas (...nomeadamente a do seu avô), e pense duas vezes antes de prevenir essa sua aterosclerose.
PS: claro que se o "muito velho" se chamar Mário Soares ou Manuel de Oliveira, e apesar do manifesto desinteresse público em investir o que quer que seja em qualquer uma dessas personalidades, o critério de admissão ajusta-se (ver alínea 1: ponderação de país terceiro mundista).