segunda-feira, 19 de novembro de 2007
domingo, 11 de novembro de 2007
Legados
Fala-se pouco em Medicina, nos tempos que correm, no "Serviço Público".
O médico acorre ao Hospital quando há uma catástrofe?
O médico não regressa a casa porque tem um doente instável?
O médico sacrifica 24 horas da sua vida pessoal numa Urgência porque alguém adoeceu ou faltou?
Serviço Público? Não, é um benemérito. E é um benemérito porque já se interiorizou que, afinal, não passa de um Funcionário Público, mais que um Servidor do Público. Muito por culpa dos governantes sucessivos. Muito por culpa de invejas corporativas de vários sectores da sociedade actual.
E o que deveria ser natural e óbvio, naquele cuja profissão é ajudar o próximo na doença e no sofrimento, é afinal, e cada vez mais, um acto desempenhado por força de um contrato com uma entidade (que não o doente) dentro horário de trabalho, ou, se fora dele, por benevolência.
Mas os médicos também não têm culpa neste estado de coisas?
A saúde evoluiu muito nos últimos anos, e também por culpa dos médicos, mas não terá falhado algo?
Falhou. Falhou a cegueira para com a sociedade, que permitiu que se instituíssem vícios de incumprimento por parte de uns, em termos de horário e de desempenho. Que permitiu que o parasitismo de uns fosse tolerado pelos outros todos. Que permitiu uma promiscuidade com a indústria farmacêutica muito para além do aceitável por parte de alguns.
E uns, ou alguns, numa sociedade mediatizada, é tido como o todo.
E o todo é de facto culpado, pela incapacidade demonstrada em controlar alguns.
E é este o legado às gerações de médicos vindouras:
-Ser tido no seu todo como sendo representativo da parte;
-Ver o seu desempenho avaliado por quem não é médico (em contraponto à ausência de controlo e avaliação eficaz de antes);
-Ver limitada a flexibilidade de horário que se desejaria;
-Ver limitado o contributo que a Indústria Farmacêutica poderia dar em actividades realmente importantes para a formação pós-graduada;
-Ver comprometida a estabilidade contratual para com as diferentes entidades do estado (em contraponto aos dias de hoje, em que não se indentifica ou consegue punir os "parasitas" do sistema).
Há que olhar em primeiro lugar para o umbigo, e mais que uma fatalidade circunstancial, o que aí vem (e que já tem vindo, cada vez mais, ao longo dos anos) é também uma consequência de uma geração que falhou.
É um legado.
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
Consulta-Expresso
Face à óbvia possibilidade de se aumentarem os índices de produtividade (dos que agora não produzem), e às imensas potencialidades de optimização dos diferentes sistemas de prestação de cuidados de saúde, por vezes, surge o patético....
Como uma recomendação administrativa recente que me chegou aos ouvidos, e que faz constar:
-Devem as primeiras consultas (aquelas em que não se conhece o doente de lado nenhum...) durar um máximo de 20 minutos e as segundas (aquelas em que o mesmo já foi visto anteriormente) durar um máximo de 10 minutos.
Interessante, pensei, exige-se aquilo que, trabalhosamente, demoro cerca de 3 vezes mais a fazer. Inépcia? Vamos considerar higienicamente que sim, um pouco, mas mesmo convertendo-me num profissional virtuosi do cronómetro, não almejo, francamente, conseguir alcançar o dobro do tempo exigido, e julgo que com défice de qualidade.
Ou seja, ou não sei fazer as coisas como deve ser, ou é estapafúrdio o dever considerado.
Por isso pensei como havia de fazer à minha vida, para o caso de me ameaçarem com o despedimento em caso de incumprimento.
E então será mais ou menos assim (neste exemplo, uma segunda consulta):
-Sr. X ao gabinete 8!
-...
tic tac tic tac
-Bom dia Doutor!
-Bom dia, já vamos num minuto de consulta, faltam 9 como pode ver por este cronómetro, por isso passe para cá os exames depressa e diga quais são as suas novas queixas.
-Bem, agora tenho esta falta de ar, bzz, bzz, bzz...
tic tac tic tac
-(após leitura e registo dos exames) Então aquelas dores articulares de que se queixava, melhores?
-Sim, sim, mas apareceu esta falta de ar...
-Bem, isso da falta de ar é melhor falar ao seu médico de família, e se ele achar necessário, nos 10 minutos dele de consulta, então há de fazer um pedido para ser observado aqui. Mas está melhor das dores articulares, muito bem....
-Mas é que fico muito aflito, e tenho ainda esta dor no peito, será que não me podia investigar estas queixas?
-Posso, mas já vamos em 6 minutos de consulta e ainda não escrevi nada no processo da consulta, mas vá falando, vá falando...
-Bzz bzz bzz...
tic tac tic tac
Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiing!!!!
-Pronto, já está, então aquilo das dores articulares eram aparentemente apenas umas artroses, continue a medicação, e qualquer coisa, já sabe, é só pedir ao seu médico de família que o referencie a esta consulta.... (sorriso)
-Mas então e estas queixas que lhe estive a contar, o que acha?
-Bem, é como lhe disse, é como o seu médico de família entender... (sorriso mantido)
-Ah... pronto, está bem. Podia-me passar uma receita para os remédios?
-Sr Y ao gabinete 8! ... ah, meu amigo, isso devia ter pedido aí um par de minutos antes do final da consulta, agora já estamos no tempo do doente seguinte. Mas pronto, o seu médico de família....
(PS: numa próxima oportunidade, uma primeira consulta para exemplo.)
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Síndroma Gripal
Aqui vai então um pouco de Serviço Público.
Síndroma gripal, ou "gripe", expressão vaga que designa um conjunto de sintomas inespecíficos cuja etiologia se atribui, à partida e por razões epidemiológicas, a um vírus. Influenza, ou outro.
Trocado por miudos, é quando uma pessoa, nesta época do ano, inicia queixas de dores musculares difusas, dores de cabeça, pode estar mais ou menos febril, pode ter dores de garganta, e apresenta um mal-estar geral com cansaço e adinamia.
Se pertence ao clube das dezenas de milhar de portugueses que vão partilhar estes sintomas a partir de agora, por favor, deixe-se estar em sua casa, descanse, compre Ben-U-Ron ou outro paracetamol qualquer (1g) e vá tomando ao sabor da temperatura (a partir dos 38ºC debaixo do braço, um máximo de 3 vezes por dia), adicione-lhe um anti-inflamatoriozinho não esteróide (por exemplo nimesulida 100mg de 12/12 horas) para espevitar ou andar simplesmente menos prostrado, e deixe passar o tempo....
Sobretudo: NÃO VÁ logo à Urgência mais próxima!
Assim tivesse feito uma alma qualquer há uns dias atrás, e talvez eu não tivesse passado o fim-de-semana de molho (já estão agora a perceber a motivação do post...).
Em caso de dúvida, ir ao médico assistente, de família. E não à Urgência.
E a altura para ter dúvidas (e ir ao médico de família, e não à Urgência) é:
-Surgimento de outros sintomas associados aos acima referidos: falta de ar, tosse com expectoração não branca, sintomas intoleráveis APESAR da medicação, vómitos.
-Febre persistente (com duração superior a 3-5 dias)
99% dos leitores com gripe este ano, com esta "receita", vão passar um bocado (menos) mau, e rapidamente voltar ao activo (não existem tratamentos específicos, ou "antibióticos", para estas viroses; ou seja, "passam sozinhas"). O restante 1% deve ir ao médico de família (E NÃO à Urgência!).
Se tiver mais de 65 anos, profissão exposta (eu sei, mas em casa de ferreiro...) ou doença crónica (sobretudo do foro cardíaco e pulmonar), aproveite e vacine-se.
Mas lembre-se, acima de tudo: NÃO VÁ à Urgência do Hospital mais próximo....
PS: já agora, participe no registo Nacional em http://www.gripenet.pt/index.php
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
Papeis Trocados
Aproximam-se eleições na Ordem dos Médicos (OM).
A confusão reinante no povo, que faz constar que esse organismo é uma arma corporativista dos médicos, tem razão de ser. E tem razão de ser porque até muitos, quiçã a maior parte, dos meus colegas também se prestam a este tipo de confusão.
E como em qualquer Democracia/órgão democraticamente eleito, as pessoas que votam não sabem necessariamente aquilo que fazem quando votam, levando a que se apresentem a votos pessoas que não correspondem necessariamente àquilo que delas se deveria esperar uma vez eleitas, subvertendo a razão de ser da existência da Entidade.
Por isso é que passamos a vida a dizer que se gasta demasiado em Saúde, elegendo gente de paleio musculado e sentido de responsabilidade plástica, que poupa em Saúde degradando ainda mais os Serviços, gerando ainda mais vozes revoltadas, e assim sucessivamente em círculo vicioso difícil de contrariar.
Reformar, é difícil. Assumir gastos para optimização dos recursos, dos gastos, do controlo de qualidade, é difícil. Muito mais no quadro de uma legislatura, até de duas.
Por isso não se faz. Por isso degrada-se a qualidade em nome da poupança de curto prazo, tanto mais facilmente quanto o sistema actual é tendencialmente gratuito para o utente e tendencialmente não lucrativo para empreendedores privados diversos, que só têm a ganhar com a mudança deste status quo....
Mas voltando à OM, dizia eu que muitos dos meus colegas queixam-se que, tratando-se do órgão representativo da saúde com maior visibilidade nos media, a OM não nos representar devidamente. Não acautelar devidamente os nossos interesses. Ser demasiado branda com o poder circunstancial, ter discurso mole e pouco perceptível.
Numa palavra, não defender a nossa qualidade de vida e a nossa imagem, em sentido lato. Profissionalmente, remuneratoriamente e socialmente.
Quando nós próprios pensamos assim, porque raio havemos de querer fazer crer a alguém que as opiniões emitidas pela OM são imparciais, e sempre com o intuito do bem maior para o doente?
Quando nós próprios somos incapazes de discenir entre o que deve ser um órgão regulador da qualidade da saúde e da Medicina que se exerce por cá, e um qualquer sindicato?
A OM deve controlar os médicos e a qualidade dos cuidados prestados, punir a má prática, denunciar os problemas.
Os nossos interesses devem ser acautelados noutro sítio.
Sob pena de prostituirmos este organismo, descredibilizando-o ainda mais.
Será difícil encontrar, repito, num sistema eleitoral em que os votantes são homens e mulheres com interesses particulares e algum viés de sentido das instituições, alguém que represente devidamente o papel pretendido.
Nas últimas eleições surpreendi-me, porém. Às vezes é assim, a fé nas pessoas, de tão pouca, dá lugar a momentos de êxtase à mínima réstea de engano. Pareceu-me ter vencido a lista menos populista e mais "séria", por assim dizer.
A opção era entre o actual bastonário e o Dr. Boquinhas (por esta altura certamente a gerir uma instituição de saúde qualquer por este país fora...).
Hoje a opção é entre a manutenção do discurso pausado e cuidado, e outro, muito mais populista, que apela ao voto naquele que "defenderá o interesse dos médicos". E não da Medicina.
Tenho alguma apreensão, pois.
Salvaguardando já agora que discordo de muitas das posições do actual bastonário, e desconheço, a bem dizer, a real motivação daquele que me parece ser o "candidato das feiras".
Ou seja, como é também cada vez mais comum nesta Democracia mediatizada, posso estar redondamente enganado.
Mas ficam aqui as minhas "impressões"....
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
Paternidades
Confronto-me por vezes, sobretudo desde que comecei a dar os primeiros passos nesta profissão, com a assunção, por uma parte não desprezível da comunidade, que tenho funções inusitadas de paternidade sobre umas quantas almas, apesar do dismatch (assegurado) de ADN.
É assim por exemplo que o diabético chega sorridente à consulta, ainda mais gordo que o costume, com todos os parâmetros a assegurar descontrolo da doença, com inobservância manifesta de todas as recomendações, com o ar travesso do menino que chumbou no teste e nem quer saber.
Ninguém se interroga acerca da pertinência de tal pessoa estar a ocupar um lugar numa consulta onde poderia bem estar outro doente, mais interessado em seguir as indicações que nela são proferidas, e em controlar a sua doença, ao contrário da deste exemplo.
Aliás, alguns, em boa verdade, interrogam-se. Um Diabetologista francês disse, em conferência bem contestada, que no final das suas consultas dava indicação aos seus doentes para voltarem a partir de 3 meses daquela data, desde que pesassem menos dois quilos. Muitos consideraram tais palavras uma profanação da santidade da profissão... mas adiante.
Acima de tudo, questiono-me, e não raras vezes pergunto: qual a finalidade da presença daquela alma ali? As respostas, quando as há, variam dentro de um vasto e paranormal leque.
Também é assim, noutro exemplo, que o bêbado chega violento à Urgência, geralmente porque foi encontrado a fazer desacatos num local qualquer, e, pela alteração do estado de consciência da criatura, alguém julgou ser aquele serviço o indicado para o mesmo "curar" a bebedeira. Ou simplesmente porque alguém bebeu demais e está "sonolento", ou "enjoado" (não se riam, sucede mesmo isso, e com regular frequência...).
Não parece interessar nada que naquele serviço estejam pessoas a desempenharem supostamente bem a sua profissão, e que dispensavam os insultos, as grosserias ou simplesmente a perda de tempo com o energúmeno.
Não parece interessar nada que naquele serviço estejam pessoas a precisarem realmente de cuidados médicos urgentes, secundários a acaso maior que o entornar voluntário de excesso de álcool pelas goelas abaixo.
Não parece interessar nada que o alcoólico patológico seja responsável pelo estado em que se encontra, e que por isso deveria continuar a ser responsável pelo que faz no estado de inconsciência que ele próprio induziu. Poderia ser que no futuro, e proactivamente, ele pensasse duas vezes antes de voltar a ficar num estado semelhante.
O mesmo se aplica a um sem número de situações, em que se assume que a pessoa doente (muitas vezes a começar pela própria) não é responsável pela sua irresponsabilidade, e por isso carece de cuidados permanentes deste manã de bondade e paternalismo que é a figura clássica do médico dos dias que correm.
Julgo que só tínhamos a ganhar se passássemos a tratar pessoas que querem colaborar no seu prórpio tratamento, e na cura ou prevenção da doença.
Sou a favor do controlo de observância aos tratamentos.
Sou a favor da prevenção da aterosclerose em pessoas interessadas em prevenir a aterosclerose, e não no tratamento do "colesterol" de fumadores, e não no controlo da hipertensão de diabéticos indisciplinados.
Sou contra o lema: "mais vale prevenir o que se pode". Porque o lema sai caro, em recursos, em medicamentos e em acessibilidade aos cuidados por parte daqueles que têm uma ideia mais clara do que pretendem fazer com a sua própria saúde.
Ou seja, todos têm o direito, e os profissionais de saúde tem o dever, de informar a população para que se inteire das consequências dos seus comportamentos e status de risco.
Mas tratar, só se deve tratar quem quer.
E quem quer, trata-se.
Quem não quer ou quem não se trata, mesmo quando nem parecer saber que não se quer tratar, não se trata.
Sob pena de se perder, um dia, o direito à maioridade.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Morte Certa
Encontrei no site de um colega (MEMI) a seguinte notícia:
"V.F.X: Família de grávida que morreu vai processar hospital
A família de uma mulher grávida do Carregado, cujo funeral se realizou no domingo, pretende mover uma acção judicial contra o Hospital Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, por alegada negligência na morte da familiar, mas hospital contrapõe.
"Vamos até às últimas consequências, até perder as forças", relatou à agência Lusa Inês Baptista, irmã gémea de Alexandra Alves Baptista, de 31 anos de idade, que faleceu na quinta-feira, "A autópsia acusou que ela tinha uma hemorragia hepática e uma eclâmpsia, mas para mim não chega", disse a familiar, que admite recorrer aos tribunais.
Inês Alves Baptista não compreende como a irmã faleceu, após passar "de uma hora para a outra" a sofrer de lesões hepáticas que lhe "rebentaram o fígado", quando não tinha quaisquer antecedentes clínicos e uma vez que "se fosse doente as análises que tinha feito há uma semana acusariam".
Contactada pela Lusa, a directora clínica do Hospital Reynaldo dos Santos, Ana Alcasar, ainda sem conhecer o resultado da autópsia, revelou que, numa primeira avaliação preliminar efectuada ao longo de segunda-feira, "não terá havido negligência por parte dos profissionais", mas a unidade hospitalar vai abrir um processo de avaliação interna, como acontece "sempre que há uma morte inesperada", no sentido de apurar responsabilidades.
Alexandra Alves Baptista, grávida de 31 semanas, deu entrada na quinta-feira pelas 10:30 no hospital vila-franquense com tensão alta a 15/8, onde ficou internada, tendo sido a segunda vez que recorreu à unidade (da primeira vez sentiu também contracções) devido a problemas de hipertensão, causada por um alegado nervosismo resultante da morte de um familiar.
Foram administradas duas injecções para controlar a tensão, após receber medicação oral que não surtiu efeito (em vez de baixar, subiu a tensão para 22/12).
"Não sei que injecções eram, mas dez minutos depois a minha irmã começou a piorar, queixando-se de dores mesmo muito fortes na barriga e nos rins, estava cheia de suores, aos vómitos e a querer revirar os olhos", contou Inês Alves Baptista, numa altura em que a tensão já tinha descido para 10/5.
Por parte do hospital, "não há uma relação causa-efeito", explicando que os problemas de hipertensão com alterações no sistema renal (eclâmpsia) são "frequentes" no fim da gravidez, mas neste caso o problema "desenvolveu-se de forma mais ou menos abrupta".
Face ao estado clínico reservado, os médicos decidiram transferi-la para o Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, a fim de retirar o bebé de dentro da mãe e colocá-lo na incubadora, já que o Hospital Reynaldo dos Santos apenas dispõe de incubadora a partir das 34 semanas.
O agravamento da situação clínica obrigou os bombeiros a regressarem para trás [ quem deu a ordem?] de modo a antecipar a operação, conseguindo tirar ainda com vida o recém-nascido, que acabaria por morrer minutos depois.
No momento da intervenção,"surgiu um problema porque ela estava com uma hemorragia hepática", contou Inês Alves Baptista, recebendo a informação do médico de que a sua irmã teria de ser reencaminhada para o Hospital Curry Cabral, para ser submetida a um transplante de fígado.
Após dar aí entrada às 22:00 horas, acabaria por falecer meia-hora depois devido a uma hemorragia hepática e a uma eclâmpsia, segundo o resultado da autópsia, deixando duas filhas de sete e nove anos de idade.
"Se ela estava com dores, se tinha a tensão alta desde há uma semana, porque não a mandaram logo para o São Francisco Xavier?", questiona a familiar, para quem "tem de haver um culpado".
O Hospital Reynaldo dos Santos aguarda agora pelos resultados do processo de averiguações, que deverão ser conhecidos dentro de quinze dias, remetendo mais explicações para essa altura.
Diário Digital / Lusa "
As reacções são de difícil controlo, mas de fácil explicação. Apesar de toda a gente o saber em teoria, ninguém está realmente preparado para os seguintes factos:
-Hoje em dia ainda se morre;
-Morre-se, mesmo que se seja criança, adolescente, mãe ou pai jovem, grávida, excelente pessoa, humanista, ...;
-Por vezes, por mais que essa pessoa seja (bem) assistida, morre na mesma.
Não sei o que se passou nesse Hospital e relativamente a essa senhora, mas sendo médico assolam-me inúmeras dúvidas quanto ao caso em particular. É uma situação delicada, para quem o dia-a-dia constitui-se de questões apesar de tudo parecidas,e que felizmente para todos nós acabam por resultar num "bem maior". Seja como for, sei o suficiente para, em atitude de "douta ignorância" dos factos, me escusar de falar sobre aquilo que desconheço.
Mas de duas coisas tenho a certeza:
1º: Devia ser considerado criminoso que, no rescaldo de uma situação traumatizante como esta, se entrevistem familiares que, por razões óbvias, não têm o estado de espírito ideal para emitir uma opinião ponderada sobre a matéria; esta é a altura inicial do luto, da negação e do inconformismo com a perda, e devia ser mais respeitado por aqueles que, com menores escrúpulos, imediatamente aproveitam as emoções mediatizadas para fazer subir um pouco mais o share da empresa privada para quem trabalham (ou as publicações, não interessa).
2º: A indignação e a desolação, são, mais que um direito, uma fatalidade para todos os que conheciam a vítima. O que não é sinónimo que exista, necessariamente, um "culpado".
Porque, e por menos preparados que possamos estar (cada vez mais) para aquilo que outrora era uma evidência, sim meus senhores, morre-se.
Morre-se sempre, e morre-se sempre mal.
O que distingue estes casos de morte precoce, no fundo, é que fica mais gente, e durante mais tempo, com saudades. É que não dá para desviar o olhar. É que não se trata de gente arrumada na prateleira dos excedentários da vida.
Aos 70 aninhos já ninguém se importaria muito com esta perda, em circunstâncias semelhantes.
Aos 80 até seria um alívio.
A morte é dura. E a vida não chega para nos prepararmos para ela, a nossa e a dos que amamos.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Sentidos da Longevidade
A beleza de uma criança a crescer.
A feiura de um velho a perecer.
A comoção perante uma criança triste.
A evicção da solidão do velho.
O fanado castiço.
O desdentado embaraçoso.
A atracção pelo potencial futuro.
O desprezo pelo desempenho passado.
A dor pelo sofrimento.
A indiferença.
O esforço altruista pelo bem-estar.
O medo da despesa.
O cheirinho a bebé.
O fedor a velho.
O encanto da aprendizagem.
A intolerância pela demência.
A birra tolerada.
As manias insuportáveis.
O palrar encantador.
O guinchar medonho.
...
O mundo é das crianças, e pelas crianças.
Questiono-me frequentemente: será que sabemos o que dizemos, quando queremos ser velhos, muito velhos?
Julgaremos nós sequer imaginar o que nos espera?
Como será estar perante contemporâneos decrépitos, perante filhos com "mais que fazer", perante uma sociedade que nos olha como um encargo, e daqueles que urge aligeirar?
Perante a fragilidade da idade acrescida da doença, perante a invalidez e a dependência, perante funcionários de lares e de serviços de saúde como os de hoje...?.
No viés óbvio da minha visão destas coisas, julgo preferir morrer cedo, rodeado de gente que me ama e que vai sentir a minha falta, ainda enquanto elemento reconhecidamente útil da sociedade, e protegido por aqueles da indiferença.
Não vejo empenho em resolver este problema.
E para o resolver, seria preciso primeiro assumi-lo. Para o assumir teríamos que nos envergonhar, muito.
Ainda nem demos o primeiro passo....
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Consciências
O que diferencia, perante a sociedade, aquele médico que denuncia má prática de um colega altruisticamente, em benefício exclusivo do mais fraco e do que menos possibilidades tem de se defender daquele que é mais ignorante, incapaz ou negligente, daquele médico que denuncia má prática de um colega mesquinhamente, por quezília, inveja e má fé, com o intuito único de chatear alguém de quem não se gosta por este ou aquele motivo, que nada tem a ver com a matéria usada para lhe estragar a vida (a denúncia)?
Nada, meus senhores.
Por isso evita-se. Por isso é raro.
Daí eu julgar ser preciso muita coragem para se denunciar um (mau) colega. Daí não ser preciso apenas "alguma" virtude para se enveredar por algo do género, mas quase um estado de excelência de alma que, pela raridade da coisa, não deixa de me espantar. O que só por si é pena e sinal dos tempos....
Assisti pois, em tempos, a algo assim.
Conheço o denunciante, e sei que o fez gratuitamente. Não a pedido dos doentes, que pelas mais diversas razões nem conhecimento têm da atitude dele. Não a troco de qualquer reconhecimento, que o não teve, e antes pelo contrário, passou a ser alvo, no mínimo, de desconfiança por parte de todos aqueles que consideram tal acto como uma traição ao sagrado princípio do "não denunciarás" ninguém da irmandade, por menos fraterno ou recomendável que seja. Não sem a ameaça mais ou menos velada de golpe igualmente forte, ainda que não movido por razões humanistas como foi o dele, para não dizer mais, ou menos....
Implicitamente leia-se: sob pena de se sujeitar a denúncias torpes e falsas. A muita areia para os olhos. Que em última análise resulta num baralhar de factos que confunde inevitavelmente quem não pertence ao meio nem conhece as pessoas.
Se a isso juntarmos uma progressão na carreira infinitamente menor do denunciante, quando comparado com o denunciado, o quadro ainda se torna mais perigoso. Ou mais confuso, para quem um dia leia as linhas e entrelinhas do sucedido.
O que esse meu bom amigo tem a ganhar com isso? Nada.
A perder, seguramente alguma coisa.
Se não contarmos com essa outra "coisa", periférica, que é a consciência. A dele.
Ele merece contentar-se com isso, com o prazer de se olhar no espelho. Pouca gente se contenta, pouca gente sequer se importa. E ele não terá muito mais com que se satisfazer no final desta história, creio.
Um grande bem haja, pois, a esse meu corajoso e anónimo colega. Na gratuitidade do seu acto, e na excelência da sua virtude.
Há ainda pessoas assim, meus raros, mas por isso mesmo ainda mais estimados, leitores: inspiradoras.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Desabafo 2
Ao contrário do que por vezes se espera, os médicos são simples humanos, sujeitos por isso às contingências das imperfeições próprias desta condição. Como tal, têm também superstições. Há uma superstição relativa a doentes que são enfermeiros ou médicos ou seus familiares. Dizemos na gíria que isso constitui um factor de risco e acreditamos que esses doentes têm ad initio uma maior probabilidade de ter complicações graves da sua patologia. Outra superstição diz respeito aos doentes que, ante a angústia e o mau-estar da sua doença, seja ela um simples resfriado ou uma pneumonia grave, deixam escapar as infames palavras “eu vou morrer”. Mais que manifestações de desânimo, acreditamos que essas palavras são verdadeiras e enexoráveis premonições. Acho que estou perto de criar uma nova superstição pessoal. Esta está relacionada com os doentes cujos familiares obrigam os bolsos das lapelas das nossas batas a engolir indigestas notas. Acontece que no contexto do estudo que foi feito a propósito do dito síndroma febril se descobriu um cancro no rim... Doravante só usarei batas sem bolsos.
Acho que estou perto de criar uma nova superstição pessoal. Esta está relacionada com os doentes cujos familiares obrigam os bolsos das lapelas das nossas batas a engolir indigestas notas. Acontece que no contexto do estudo que foi feito a propósito do dito síndroma febril se descobriu um cancro no rim... Doravante só usarei batas sem bolsos.
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