terça-feira, 6 de novembro de 2007

Síndroma Gripal

Aqui vai então um pouco de Serviço Público. Síndroma gripal, ou "gripe", expressão vaga que designa um conjunto de sintomas inespecíficos cuja etiologia se atribui, à partida e por razões epidemiológicas, a um vírus. Influenza, ou outro. Trocado por miudos, é quando uma pessoa, nesta época do ano, inicia queixas de dores musculares difusas, dores de cabeça, pode estar mais ou menos febril, pode ter dores de garganta, e apresenta um mal-estar geral com cansaço e adinamia. Se pertence ao clube das dezenas de milhar de portugueses que vão partilhar estes sintomas a partir de agora, por favor, deixe-se estar em sua casa, descanse, compre Ben-U-Ron ou outro paracetamol qualquer (1g) e vá tomando ao sabor da temperatura (a partir dos 38ºC debaixo do braço, um máximo de 3 vezes por dia), adicione-lhe um anti-inflamatoriozinho não esteróide (por exemplo nimesulida 100mg de 12/12 horas) para espevitar ou andar simplesmente menos prostrado, e deixe passar o tempo.... Sobretudo: NÃO VÁ logo à Urgência mais próxima! Assim tivesse feito uma alma qualquer há uns dias atrás, e talvez eu não tivesse passado o fim-de-semana de molho (já estão agora a perceber a motivação do post...). Em caso de dúvida, ir ao médico assistente, de família. E não à Urgência. E a altura para ter dúvidas (e ir ao médico de família, e não à Urgência) é: -Surgimento de outros sintomas associados aos acima referidos: falta de ar, tosse com expectoração não branca, sintomas intoleráveis APESAR da medicação, vómitos. -Febre persistente (com duração superior a 3-5 dias) 99% dos leitores com gripe este ano, com esta "receita", vão passar um bocado (menos) mau, e rapidamente voltar ao activo (não existem tratamentos específicos, ou "antibióticos", para estas viroses; ou seja, "passam sozinhas"). O restante 1% deve ir ao médico de família (E NÃO à Urgência!). Se tiver mais de 65 anos, profissão exposta (eu sei, mas em casa de ferreiro...) ou doença crónica (sobretudo do foro cardíaco e pulmonar), aproveite e vacine-se. Mas lembre-se, acima de tudo: NÃO VÁ à Urgência do Hospital mais próximo.... PS: já agora, participe no registo Nacional em http://www.gripenet.pt/index.php

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Papeis Trocados

Aproximam-se eleições na Ordem dos Médicos (OM).
A confusão reinante no povo, que faz constar que esse organismo é uma arma corporativista dos médicos, tem razão de ser. E tem razão de ser porque até muitos, quiçã a maior parte, dos meus colegas também se prestam a este tipo de confusão.
E como em qualquer Democracia/órgão democraticamente eleito, as pessoas que votam não sabem necessariamente aquilo que fazem quando votam, levando a que se apresentem a votos pessoas que não correspondem necessariamente àquilo que delas se deveria esperar uma vez eleitas, subvertendo a razão de ser da existência da Entidade.
Por isso é que passamos a vida a dizer que se gasta demasiado em Saúde, elegendo gente de paleio musculado e sentido de responsabilidade plástica, que poupa em Saúde degradando ainda mais os Serviços, gerando ainda mais vozes revoltadas, e assim sucessivamente em círculo vicioso difícil de contrariar.
Reformar, é difícil. Assumir gastos para optimização dos recursos, dos gastos, do controlo de qualidade, é difícil. Muito mais no quadro de uma legislatura, até de duas.
Por isso não se faz. Por isso degrada-se a qualidade em nome da poupança de curto prazo, tanto mais facilmente quanto o sistema actual é tendencialmente gratuito para o utente e tendencialmente não lucrativo para empreendedores privados diversos, que só têm a ganhar com a mudança deste status quo....
Mas voltando à OM, dizia eu que muitos dos meus colegas queixam-se que, tratando-se do órgão representativo da saúde com maior visibilidade nos media, a OM não nos representar devidamente. Não acautelar devidamente os nossos interesses. Ser demasiado branda com o poder circunstancial, ter discurso mole e pouco perceptível.
Numa palavra, não defender a nossa qualidade de vida e a nossa imagem, em sentido lato. Profissionalmente, remuneratoriamente e socialmente.
Quando nós próprios pensamos assim, porque raio havemos de querer fazer crer a alguém que as opiniões emitidas pela OM são imparciais, e sempre com o intuito do bem maior para o doente?
Quando nós próprios somos incapazes de discenir entre o que deve ser um órgão regulador da qualidade da saúde e da Medicina que se exerce por cá, e um qualquer sindicato?
A OM deve controlar os médicos e a qualidade dos cuidados prestados, punir a má prática, denunciar os problemas.
Os nossos interesses devem ser acautelados noutro sítio.
Sob pena de prostituirmos este organismo, descredibilizando-o ainda mais.
Será difícil encontrar, repito, num sistema eleitoral em que os votantes são homens e mulheres com interesses particulares e algum viés de sentido das instituições, alguém que represente devidamente o papel pretendido.
Nas últimas eleições surpreendi-me, porém. Às vezes é assim, a fé nas pessoas, de tão pouca, dá lugar a momentos de êxtase à mínima réstea de engano. Pareceu-me ter vencido a lista menos populista e mais "séria", por assim dizer.
A opção era entre o actual bastonário e o Dr. Boquinhas (por esta altura certamente a gerir uma instituição de saúde qualquer por este país fora...).
Hoje a opção é entre a manutenção do discurso pausado e cuidado, e outro, muito mais populista, que apela ao voto naquele que "defenderá o interesse dos médicos". E não da Medicina.
Tenho alguma apreensão, pois.
Salvaguardando já agora que discordo de muitas das posições do actual bastonário, e desconheço, a bem dizer, a real motivação daquele que me parece ser o "candidato das feiras".
Ou seja, como é também cada vez mais comum nesta Democracia mediatizada, posso estar redondamente enganado.
Mas ficam aqui as minhas "impressões"....

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Paternidades

Confronto-me por vezes, sobretudo desde que comecei a dar os primeiros passos nesta profissão, com a assunção, por uma parte não desprezível da comunidade, que tenho funções inusitadas de paternidade sobre umas quantas almas, apesar do dismatch (assegurado) de ADN.
É assim por exemplo que o diabético chega sorridente à consulta, ainda mais gordo que o costume, com todos os parâmetros a assegurar descontrolo da doença, com inobservância manifesta de todas as recomendações, com o ar travesso do menino que chumbou no teste e nem quer saber.
Ninguém se interroga acerca da pertinência de tal pessoa estar a ocupar um lugar numa consulta onde poderia bem estar outro doente, mais interessado em seguir as indicações que nela são proferidas, e em controlar a sua doença, ao contrário da deste exemplo.
Aliás, alguns, em boa verdade, interrogam-se. Um Diabetologista francês disse, em conferência bem contestada, que no final das suas consultas dava indicação aos seus doentes para voltarem a partir de 3 meses daquela data, desde que pesassem menos dois quilos. Muitos consideraram tais palavras uma profanação da santidade da profissão... mas adiante.
Acima de tudo, questiono-me, e não raras vezes pergunto: qual a finalidade da presença daquela alma ali? As respostas, quando as há, variam dentro de um vasto e paranormal leque.
Também é assim, noutro exemplo, que o bêbado chega violento à Urgência, geralmente porque foi encontrado a fazer desacatos num local qualquer, e, pela alteração do estado de consciência da criatura, alguém julgou ser aquele serviço o indicado para o mesmo "curar" a bebedeira. Ou simplesmente porque alguém bebeu demais e está "sonolento", ou "enjoado" (não se riam, sucede mesmo isso, e com regular frequência...).
Não parece interessar nada que naquele serviço estejam pessoas a desempenharem supostamente bem a sua profissão, e que dispensavam os insultos, as grosserias ou simplesmente a perda de tempo com o energúmeno.
Não parece interessar nada que naquele serviço estejam pessoas a precisarem realmente de cuidados médicos urgentes, secundários a acaso maior que o entornar voluntário de excesso de álcool pelas goelas abaixo.
Não parece interessar nada que o alcoólico patológico seja responsável pelo estado em que se encontra, e que por isso deveria continuar a ser responsável pelo que faz no estado de inconsciência que ele próprio induziu. Poderia ser que no futuro, e proactivamente, ele pensasse duas vezes antes de voltar a ficar num estado semelhante.
O mesmo se aplica a um sem número de situações, em que se assume que a pessoa doente (muitas vezes a começar pela própria) não é responsável pela sua irresponsabilidade, e por isso carece de cuidados permanentes deste manã de bondade e paternalismo que é a figura clássica do médico dos dias que correm.
Julgo que só tínhamos a ganhar se passássemos a tratar pessoas que querem colaborar no seu prórpio tratamento, e na cura ou prevenção da doença.
Sou a favor do controlo de observância aos tratamentos.
Sou a favor da prevenção da aterosclerose em pessoas interessadas em prevenir a aterosclerose, e não no tratamento do "colesterol" de fumadores, e não no controlo da hipertensão de diabéticos indisciplinados.
Sou contra o lema: "mais vale prevenir o que se pode". Porque o lema sai caro, em recursos, em medicamentos e em acessibilidade aos cuidados por parte daqueles que têm uma ideia mais clara do que pretendem fazer com a sua própria saúde.
Ou seja, todos têm o direito, e os profissionais de saúde tem o dever, de informar a população para que se inteire das consequências dos seus comportamentos e status de risco.
Mas tratar, só se deve tratar quem quer.
E quem quer, trata-se.
Quem não quer ou quem não se trata, mesmo quando nem parecer saber que não se quer tratar, não se trata.
Sob pena de se perder, um dia, o direito à maioridade.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Morte Certa

Encontrei no site de um colega (MEMI) a seguinte notícia: "V.F.X: Família de grávida que morreu vai processar hospital
A família de uma mulher grávida do Carregado, cujo funeral se realizou no domingo, pretende mover uma acção judicial contra o Hospital Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, por alegada negligência na morte da familiar, mas hospital contrapõe. "Vamos até às últimas consequências, até perder as forças", relatou à agência Lusa Inês Baptista, irmã gémea de Alexandra Alves Baptista, de 31 anos de idade, que faleceu na quinta-feira, "A autópsia acusou que ela tinha uma hemorragia hepática e uma eclâmpsia, mas para mim não chega", disse a familiar, que admite recorrer aos tribunais. Inês Alves Baptista não compreende como a irmã faleceu, após passar "de uma hora para a outra" a sofrer de lesões hepáticas que lhe "rebentaram o fígado", quando não tinha quaisquer antecedentes clínicos e uma vez que "se fosse doente as análises que tinha feito há uma semana acusariam". Contactada pela Lusa, a directora clínica do Hospital Reynaldo dos Santos, Ana Alcasar, ainda sem conhecer o resultado da autópsia, revelou que, numa primeira avaliação preliminar efectuada ao longo de segunda-feira, "não terá havido negligência por parte dos profissionais", mas a unidade hospitalar vai abrir um processo de avaliação interna, como acontece "sempre que há uma morte inesperada", no sentido de apurar responsabilidades. Alexandra Alves Baptista, grávida de 31 semanas, deu entrada na quinta-feira pelas 10:30 no hospital vila-franquense com tensão alta a 15/8, onde ficou internada, tendo sido a segunda vez que recorreu à unidade (da primeira vez sentiu também contracções) devido a problemas de hipertensão, causada por um alegado nervosismo resultante da morte de um familiar. Foram administradas duas injecções para controlar a tensão, após receber medicação oral que não surtiu efeito (em vez de baixar, subiu a tensão para 22/12). "Não sei que injecções eram, mas dez minutos depois a minha irmã começou a piorar, queixando-se de dores mesmo muito fortes na barriga e nos rins, estava cheia de suores, aos vómitos e a querer revirar os olhos", contou Inês Alves Baptista, numa altura em que a tensão já tinha descido para 10/5. Por parte do hospital, "não há uma relação causa-efeito", explicando que os problemas de hipertensão com alterações no sistema renal (eclâmpsia) são "frequentes" no fim da gravidez, mas neste caso o problema "desenvolveu-se de forma mais ou menos abrupta". Face ao estado clínico reservado, os médicos decidiram transferi-la para o Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, a fim de retirar o bebé de dentro da mãe e colocá-lo na incubadora, já que o Hospital Reynaldo dos Santos apenas dispõe de incubadora a partir das 34 semanas. O agravamento da situação clínica obrigou os bombeiros a regressarem para trás [ quem deu a ordem?] de modo a antecipar a operação, conseguindo tirar ainda com vida o recém-nascido, que acabaria por morrer minutos depois. No momento da intervenção,"surgiu um problema porque ela estava com uma hemorragia hepática", contou Inês Alves Baptista, recebendo a informação do médico de que a sua irmã teria de ser reencaminhada para o Hospital Curry Cabral, para ser submetida a um transplante de fígado. Após dar aí entrada às 22:00 horas, acabaria por falecer meia-hora depois devido a uma hemorragia hepática e a uma eclâmpsia, segundo o resultado da autópsia, deixando duas filhas de sete e nove anos de idade. "Se ela estava com dores, se tinha a tensão alta desde há uma semana, porque não a mandaram logo para o São Francisco Xavier?", questiona a familiar, para quem "tem de haver um culpado". O Hospital Reynaldo dos Santos aguarda agora pelos resultados do processo de averiguações, que deverão ser conhecidos dentro de quinze dias, remetendo mais explicações para essa altura. Diário Digital / Lusa "
As reacções são de difícil controlo, mas de fácil explicação. Apesar de toda a gente o saber em teoria, ninguém está realmente preparado para os seguintes factos:
-Hoje em dia ainda se morre;
-Morre-se, mesmo que se seja criança, adolescente, mãe ou pai jovem, grávida, excelente pessoa, humanista, ...;
-Por vezes, por mais que essa pessoa seja (bem) assistida, morre na mesma.
Não sei o que se passou nesse Hospital e relativamente a essa senhora, mas sendo médico assolam-me inúmeras dúvidas quanto ao caso em particular. É uma situação delicada, para quem o dia-a-dia constitui-se de questões apesar de tudo parecidas,e que felizmente para todos nós acabam por resultar num "bem maior". Seja como for, sei o suficiente para, em atitude de "douta ignorância" dos factos, me escusar de falar sobre aquilo que desconheço.
Mas de duas coisas tenho a certeza:
1º: Devia ser considerado criminoso que, no rescaldo de uma situação traumatizante como esta, se entrevistem familiares que, por razões óbvias, não têm o estado de espírito ideal para emitir uma opinião ponderada sobre a matéria; esta é a altura inicial do luto, da negação e do inconformismo com a perda, e devia ser mais respeitado por aqueles que, com menores escrúpulos, imediatamente aproveitam as emoções mediatizadas para fazer subir um pouco mais o share da empresa privada para quem trabalham (ou as publicações, não interessa).
2º: A indignação e a desolação, são, mais que um direito, uma fatalidade para todos os que conheciam a vítima. O que não é sinónimo que exista, necessariamente, um "culpado".
Porque, e por menos preparados que possamos estar (cada vez mais) para aquilo que outrora era uma evidência, sim meus senhores, morre-se.
Morre-se sempre, e morre-se sempre mal.
O que distingue estes casos de morte precoce, no fundo, é que fica mais gente, e durante mais tempo, com saudades. É que não dá para desviar o olhar. É que não se trata de gente arrumada na prateleira dos excedentários da vida.
Aos 70 aninhos já ninguém se importaria muito com esta perda, em circunstâncias semelhantes.
Aos 80 até seria um alívio.
A morte é dura. E a vida não chega para nos prepararmos para ela, a nossa e a dos que amamos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Sentidos da Longevidade

A beleza de uma criança a crescer. A feiura de um velho a perecer. A comoção perante uma criança triste. A evicção da solidão do velho. O fanado castiço. O desdentado embaraçoso. A atracção pelo potencial futuro. O desprezo pelo desempenho passado. A dor pelo sofrimento. A indiferença. O esforço altruista pelo bem-estar. O medo da despesa. O cheirinho a bebé. O fedor a velho. O encanto da aprendizagem. A intolerância pela demência. A birra tolerada. As manias insuportáveis. O palrar encantador. O guinchar medonho. ... O mundo é das crianças, e pelas crianças. Questiono-me frequentemente: será que sabemos o que dizemos, quando queremos ser velhos, muito velhos? Julgaremos nós sequer imaginar o que nos espera? Como será estar perante contemporâneos decrépitos, perante filhos com "mais que fazer", perante uma sociedade que nos olha como um encargo, e daqueles que urge aligeirar? Perante a fragilidade da idade acrescida da doença, perante a invalidez e a dependência, perante funcionários de lares e de serviços de saúde como os de hoje...?. No viés óbvio da minha visão destas coisas, julgo preferir morrer cedo, rodeado de gente que me ama e que vai sentir a minha falta, ainda enquanto elemento reconhecidamente útil da sociedade, e protegido por aqueles da indiferença. Não vejo empenho em resolver este problema. E para o resolver, seria preciso primeiro assumi-lo. Para o assumir teríamos que nos envergonhar, muito. Ainda nem demos o primeiro passo....

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Consciências

O que diferencia, perante a sociedade, aquele médico que denuncia má prática de um colega altruisticamente, em benefício exclusivo do mais fraco e do que menos possibilidades tem de se defender daquele que é mais ignorante, incapaz ou negligente, daquele médico que denuncia má prática de um colega mesquinhamente, por quezília, inveja e má fé, com o intuito único de chatear alguém de quem não se gosta por este ou aquele motivo, que nada tem a ver com a matéria usada para lhe estragar a vida (a denúncia)?
Nada, meus senhores.
Por isso evita-se. Por isso é raro.
Daí eu julgar ser preciso muita coragem para se denunciar um (mau) colega. Daí não ser preciso apenas "alguma" virtude para se enveredar por algo do género, mas quase um estado de excelência de alma que, pela raridade da coisa, não deixa de me espantar. O que só por si é pena e sinal dos tempos....
Assisti pois, em tempos, a algo assim.
Conheço o denunciante, e sei que o fez gratuitamente. Não a pedido dos doentes, que pelas mais diversas razões nem conhecimento têm da atitude dele. Não a troco de qualquer reconhecimento, que o não teve, e antes pelo contrário, passou a ser alvo, no mínimo, de desconfiança por parte de todos aqueles que consideram tal acto como uma traição ao sagrado princípio do "não denunciarás" ninguém da irmandade, por menos fraterno ou recomendável que seja. Não sem a ameaça mais ou menos velada de golpe igualmente forte, ainda que não movido por razões humanistas como foi o dele, para não dizer mais, ou menos....
Implicitamente leia-se: sob pena de se sujeitar a denúncias torpes e falsas. A muita areia para os olhos. Que em última análise resulta num baralhar de factos que confunde inevitavelmente quem não pertence ao meio nem conhece as pessoas.
Se a isso juntarmos uma progressão na carreira infinitamente menor do denunciante, quando comparado com o denunciado, o quadro ainda se torna mais perigoso. Ou mais confuso, para quem um dia leia as linhas e entrelinhas do sucedido.
O que esse meu bom amigo tem a ganhar com isso? Nada.
A perder, seguramente alguma coisa.
Se não contarmos com essa outra "coisa", periférica, que é a consciência. A dele.
Ele merece contentar-se com isso, com o prazer de se olhar no espelho. Pouca gente se contenta, pouca gente sequer se importa. E ele não terá muito mais com que se satisfazer no final desta história, creio.
Um grande bem haja, pois, a esse meu corajoso e anónimo colega. Na gratuitidade do seu acto, e na excelência da sua virtude.
Há ainda pessoas assim, meus raros, mas por isso mesmo ainda mais estimados, leitores: inspiradoras.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Desabafo 2

Ao contrário do que por vezes se espera, os médicos são simples humanos, sujeitos por isso às contingências das imperfeições próprias desta condição. Como tal, têm também superstições. Há uma superstição relativa a doentes que são enfermeiros ou médicos ou seus familiares. Dizemos na gíria que isso constitui um factor de risco e acreditamos que esses doentes têm ad initio uma maior probabilidade de ter complicações graves da sua patologia. Outra superstição diz respeito aos doentes que, ante a angústia e o mau-estar da sua doença, seja ela um simples resfriado ou uma pneumonia grave, deixam escapar as infames palavras “eu vou morrer”. Mais que manifestações de desânimo, acreditamos que essas palavras são verdadeiras e enexoráveis premonições.

Acho que estou perto de criar uma nova superstição pessoal. Esta está relacionada com os doentes cujos familiares obrigam os bolsos das lapelas das nossas batas a engolir indigestas notas. Acontece que no contexto do estudo que foi feito a propósito do dito síndroma febril se descobriu um cancro no rim... Doravante só usarei batas sem bolsos.

Desabafo 1

Vivi há tempos uma das mais deprimentes experiências com familiares de doentes. Tive um doente internado com um síndroma febril indeterminado a quem se colocou a hipótese diagnóstica de endocardite. Após explicar à família que isto poderia justificar quer a anemia, quer a febre que ele carregava aos ombros há cerca de mês e meio, quer o estado consumptivo “que o tem deixado só pele e osso” – diz a esposa – encontrei-me subitamente actor num quadro verdadeiramente surreal. A esposa do doente abre pronta e determinadamente a carteira de onde, em décimos de segundo, saltou uma nota de 20 euros. Enquanto balbuciava uns atrapalhadíssimos “não, não, deixe estar, não é preciso...” e esbracejava freneticamente como se, sem saber nadar, tivesse caído no meio do oceano, tentando defender-me da mão portadora da nota que avançava ameaçadora, a esposa continuou determinada, impingindo-me a nota pelo bolso da lapela da bata adentro. Simultaneamente pediu-me “ tome-me lá conta do homem...”.

Senti-me algo que não sei definir, mas que se situa em terra de ninguém, algures entre a vítima de suborno e a puta de esquina. Não tenho dúvidas dos bons intentos da senhora. Interpretei o gesto como sinal de gratidão por se ter chegado a um diagnóstico e talvez pelo modo empático como lhe expliquei a situação do marido. Apesar disso, esta interpretação não me alivia o mau estar... Aquela nota queima-me as mãos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

A Metamorfose

Um dos fenómenos mais curiosos que me atropelaram na vida foi a metamorfose ocorrida há cerca de uma dezena de anos atrás. Eu era um aluno acima da média, os professores diziam que eu seria "alguém", e que tinha mérito. As notas eram boas, as perspectivas agradáveis, os incentivos qb. Tinha só que "continuar sempre a trabalhar". Acabou-se o liceu, e passei pelo fino crivo do numerus clausus das Faculdades de Medicina da época, que contrariamente ao que se julga, era de malha muito mais fina que o de hoje (acabavam o liceu mais alunos, e não entravam nas faculdades mais de meia dúzia de centenas, sendo que hoje há mais do dobro disso de vagas...; médias mais altas de entrada? Exames menos selectivos, pois claro). Os pais andavam orgulhosos. E continuei a trabalhar. Noutras faculdades passeia-se para passar e trabalha-se para brilhar. Nas de Medicina trabalha-se para passar, e brilha quem pode, e não podem muitos. Mais seis anos de Sacerdócio, com penitência reconhecida pela saciedade. Coitado, ainda estuda que nem um cão com esta idade. Coitado, sempre tão espertinho e a trabalhar tanto, e sempre na dependência dos seus progenitores. E finalmente acaba essa Via Sacra sem fim à vista. E dá-se a dita metamorfose. Uma minhoquinha esforçada? Meritosa? Inteligente? Acima da média? Trabalhadora? Qual quê, tornei-me numa bela borboleta corporativista, preguiçosa, desleixada e insensível para com (a sensibilidade de) terceiros, arrogante e privilegiada. O meu carácter preferido deste novo eu é sem dúvida o privilegiado. Dá-me a agradável sensação que a minha influência move montanhas. Que os meus professores deram-me boas notas com temor pela minha ira. Que entrei na Universidade após ameaçar desencadear um Holocausto se me negassem a ditosa. Que a acabei intimidando os académicos que me leccionavam as aulas acenando o Gulag. Dá a sensação que os meus pais não são as pessoas esforçadas e remediadas que sempre foram, e que não fizeram todos os sacrifícios que sempre fizeram para me facultarem as condições para todo este estudo, mas sim que afinal, e contra todo o conhecimento dos próprios e dos seus conterrâneos, pertenciam a uma qualquer Nobreza digna de "favores" de Estado capazes de imporem uma licenciatura destas aos seus descendentes. Quase que me dá vontade de pedir humildemente desculpas por ter sido tão indigno merecedor desta excelente condição inata. Até me esqueço que tive trabalho, e que tudo isto foi a custo de esforço. Mas aí entra então a tão propalada "arrogância". Arrogância de achar que estou onde cheguei por mérito próprio. Arrogância de julgar que precisei de ser melhor para estar onde muitos quiseram chegar e não conseguiram. Arrogância, por não estar humildemente grato por esta "dádiva" da sociedade à minha pessoa. Também sou arrogante porque uns quantos profissionais gostavam de ter sido médicos e não conseguiram. E como consegui, devo ter a mania que sou esperto. Também sou corporativista, agora. Ninguém me pergunta se concordo ou discordo desta ou daquela posição da "minha" OM. Ou de outras, o que até acontece com mais frequência, acerca das quais nem tenho sequer palavra a dizer (ministérios, ARS's, governos, de onde emana o grosso das orientações que, depois, acabamos por ter que acatar e seguir, pagando o preço dos erros de outrém, sendo que outrém nunca está "no terreno" para provar dos seus remédios). Sou corporativista porque pertenço "a eles". Sou mesmo, a bem dizer, "eles" (os privilegiados, os arrogantes, etc...). Esqueci-me de dizer que também sou rico. E sou rico porque tenho emprego garantido, porque tenho casa e carro (as notas de crédito todos os meses não passam de uma alucinação), e já nem sei por que outros motivos, mas que passam seguramente pelo facto da "Sociedade em Geral" não usufruir de boas condições socio-profissionais. O que faz de mim um chulo, e nem vale a pena discutir. Também sou rico porque meia dúzia de fulanos "da minha classe" têm uma privada florescente, e mais uns quantos conseguem avolumar quantias apreciáveis de horas extraordinárias. Não dou é pela partilha, mas enfim, nada disso interessa aos iluminados que, graças a Deus, povoam este país e banham-no com a sua imensa sabedoria acerca da realidade da minha existência. E também sou, finalmente, uma espécie de malfeitor, porque umas quantas abéculas da "minha classe" são corruptos (esse fenómeno que, como todos sabem, é inerente à Medicina), vendem remédios a troco de torradeiras ou congressos nas Maldivas, e exploram o povo doente das mais inusitadas maneiras, bem conhecidas de todos os espectadores diferenciados da nossa excelente, imparcial e anti-sensacionalista comunicação social. E esta foi a breve história da minha metamorfose, do que outrora fora uma minhoquinha virtuosa, para esta afortunada mas defeituosa borboleta que sou hoje....

quarta-feira, 25 de julho de 2007