quinta-feira, 19 de julho de 2007

Armas silenciosas para guerras tranquilas - estratégias de programação da sociedade

1- A estratégia da diversão

Elemento primordial do controlo social, a estratégia da diversão consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e da mutações decididas pelas elites políticas e económicas, graças a um dilúvio contínuo de distracções e informações insignificantes.

"Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por assuntos sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar, voltado para a manjedoura com os outros animais".

2- Criar problemas, depois oferecer soluções

Este método também é denominado "problema-reacção-solução". Primeiro cria-se um problema, uma "situação" destinada a suscitar uma certa reacção do público, a fim de que seja ele próprio a exigir as medidas que se deseja fazê-lo aceitar. Exemplo: deixar desenvolver-se a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público passe a reivindicar leis securitárias em detrimento da liberdade. Ou ainda: criar uma crise económica para fazer como um mal necessário o recuo dos direitos sociais e desmantelamento dos serviços públicos.

3- A estratégia do esbatimento

Para fazer aceitar uma medida inaceitável, basta aplicá-la progressivamente, de forma gradual, ao longo de 10 anos. Desemprego maciço, precariedade, flexibilidade, deslocalizações, salários que já não asseguram um rendimento decente, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se houvessem sido aplicadas brutalmente.

4- A estratégia do diferimento

Outro modo de fazer aceitar uma decisão impopular é apresentá-la como "dolorosa mas necessária", obtendo o acordo do público no presente para uma aplicação no futuro. É sempre mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro porque a dor não será sofrida de repente. Segundo, porque o público tem sempre a tendência de esperar ingenuamente que "tudo irá melhor amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Finalmente, porque isto dá tempo ao público para se habituar à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.

5- Dirigir-se ao público como se fossem crianças pequenas

A maior parte das publicidades destinadas ao grande público utilizam um discurso, argumentos, personagens e um tom particularmente infantilizadores, muitas vezes próximos do debilitante, como se o espectador fosse uma criança pequena ou um débil mental. Quanto mais se procura enganar o espectador, mais se adopta um tom infantilizante.

"Se se dirige a uma pessoa como ela tivesse 12 anos de idade, então, devido à sugestibilidade, ela terá, com uma certa probabilidade, uma resposta ou uma reacção tão destituída de sentido crítico como aquela de uma pessoa de 12 anos".

6- Apelar antes ao emocional do que à reflexão

Apelar ao emocional é uma técnica clássica para fazer curto-circuito à análise racional e, portanto, ao sentido crítico dos indivíduos. Além disso, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para ali implantar ideias, desejos, medos, pulsões ou comportamentos...

7- Manter o público na ignorância e no disparate

Actuar de modo a que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para o seu controle e a sua escravidão.

"A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser da espécie mais pobre, de tal modo que o fosso da ignorância que isola as classes inferiores das classes superiores seja e permaneça incompreensível pelas classes inferiores".

8- Encorajar o público a comprazer-se na mediocridade

Encorajar o público a considerar bom o facto de ser idiota, vulgar e inculto...

9- Substituir a revolta pela culpabilidade

Fazer crer ao indivíduo que ele é o único responsável pela sua infelicidade, devido à insuficiência da sua inteligência, das suas capacidades ou dos seus esforços. Assim, ao invés de se revoltar contra o sistema económico, o indivíduo desvaloriza-se e culpabiliza-se, criando um estado depressivo que tem como um dos efeitos a inibição da acção. E sem acção, não há revolução!...

10- Conhecer os indivíduos melhor do que eles se conhecem a si próprios

No decurso dos últimos 50 anos, os progressos fulgurantes da ciência cavaram um fosso crescente entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dirigentes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" chegou a um conhecimento avançado do ser humano, tanto física como psicologicamente. O sistema chegou a conhecer melhor o indivíduo médio do que este se conhece a si próprio, permitindo deter um maior controlo e um maior poder sobre os indivíduos.

Ver Armas silenciosas para guerras tranquilas

Cepticemia

Um artigo publicado em Dezembro de 2003 no jornal britânico Guardian refere que centenas de artigos publicados em jornais médicos são escritos por autores fantasma e assinados por médicos ou académicos, preferencialmente conhecidos e com capacidade de influenciarem opiniões, a soldo das companhias farmacêuticas. Tendo essas publicações forte influência nos hábitos de prescrição e nos tratamentos providenciados pelos hospitais, há assim repercussão directa no lucro daquelas.

Esse estudo estima que cerca de metade dos artigos dessas publicações seja escrito por autores fantasma. Esta prática atinge até bíblias médicas como o New England Journal of Medicine, o British Medical Journal e a Lancet, sendo praticada por importantes companhias como a AstraZeneca e a Pfizer. O Dr. Richard Smith, editor do British Journal of Medicine, admitiu que esta prática é um problema grave, dizendo que são enganados pelas companhias farmacêuticas. “Os artigos chegam com o nome de médicos, descobrindo-se com frequência que alguns deles têm pouca ou não têm ideia do que escreveram”.

A deificada medicina baseada na evidência tem muito que se lhe diga, não é? A evidência é como a verdade: pode ter tantas cores e ângulos quantos os olhos que a vêem.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Numerus Clausus

Os dois gumes da faca:
-Se demasiado restritivo, torna refém o Estado (logo, os Cidadãos), dos caprichos corporativistas de uma classe;
-Se demasiado liberal, torna precário o exercício de uma profissão, deixando os profissionais à mercê de leis de mercado, o que em saúde é seguramente perigoso....
Ou seja, dever-se-iam formar profissionais qb que preenchessem os quadros do Estado no SNS, e mais uma determinada percentagem de supra-numerários, apenas para colmatar lacunas e não deixar que se apliquem critérios meritocráticos na ocupação dos cargos, bem como preencher um sector privado que se pretende competitivo, e "a puxar" pelo público.
Claro que pelo meio têm que ser alteradas as regras quase todas da função pública.
Em 1º lugar, deixarem de ser de nomeação partidária os postos administrativos, e estarem dotados de significativa autonomia na gestão.
Em 2º lugar, criarem-se condições e mecanismos para os Directores de Serviço serem nomeados, o desempenho dos serviços que os mesmos dirigem servir para avaliar a gestão das chefias, e os mesmos directores serem responsabilizados por aquelas pelo funcionamento do serviço.
3º: criarem-se condições para os elementos constituintes dos serviços estarem todos sob a alçada desse director, serem da escolha do mesmo, e flexibilizar-se essa constituição e escolha.
4º: separar de uma vez por todas o privado do público
Ou seja, tudo ao contrário do que vai sucedendo hoje em dia.
As administrações, boas ou más, lá se vão sucedendo ao sabor das cores governativas, incólumes na sua incompetência, não recompensadas nos méritos.
Os directores de serviço, bons ou maus, perpectuam-se ou são discriminadamente destituídos nos cargos, ao sabor dos mesmos critérios (partidários). E os elementos que constituem os mesmos serviços não estão sob a alçada do director, não são escolhidos pelo director e nem têm sequer que obedecer ou alinhavar com as linhas estratégicas que o director, se lhe apetecer, quiser traçar. E não estamos a falar apenas de médicos, mas de todos os elementos que constituem um serviço hospitalar. Cada grupo com o "seu" director. Cada grupo com a "sua" linha estratégica, quando essa existe. Cada grupo com as "suas" queziliazinhas e rivalidadezinhas bacocas.... Basta aliás passear por uns quantos blogs para se perceber isso.
Em suma, isto é tudo uma enorme bandalheira. E só pode melhorar.
Só espero que não a custo dos justos. Duvido.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Lei Anti-Tabaco IV

"Despesas"* do estado com o tabaco
Segundo uma estimativa divulgada pelo Infarmed, o tabaco foi responsável, em 2005, por custos na ordem dos 434 milhões de euros (434.000.000 Euros) em internamentos hospitalares, medicamentos, consultas e exames.
De acordo com um estudo realizado por investigadores da Universidade Católica Portuguesa e da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, os internamentos motivados pelo tabagismo custaram 126 milhões de euros, uma verba que acresce aos mais de 308 milhões gastos em medicamentos, consultas e meios complementares de diagnóstico.
Valor de receita do imposto de consumo sobre o tabaco inscrita no Orçamento de Estado de 2007: 1.395.000.000 Euros.
*Leia-se: lucro

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Séries Televisivas (Médicas)

Vejo apenas duas: o "House" e o "ER". Às vezes, geralmente em compactos que apanho casualmente nos fins de semana.
Mas gosto de ambos.
O House, um Internista por excelência (para os que não sabem o que é a Medicina Interna, finalmente existe uma referência globalmente conhecida para ajudar a fazer entender a coisa), retrata bem as virtudes e dificuldades das sua Especialidade. É a mãe de todas as Especialidades Clínicas, que trata o doente como ser global. É Cardiologia, Nefrologia, Neurologia, Psiquiatria, Gastrenterologia, Reumatologia, etc. Por vezes, em delírios próprios dos fazedores de séries menos conhecedores da realidade das coisas, até chega a ser Hemodinamista de intervenção, Cirurgião, Neuro-cirurgião, Imagiologista, Patologista Clínico, Anatomo-patologista, enfim, mesmo tudo, o que, convenhamos, rebenta com os limites do exagero, mesmo para um admirador como eu da Medicina Interna....
Mas lá transmite a mensagem: é a Medicina dos diagnósticos difíceis, dos diagnósticos raros, das doenças orfãs. É aquele a quem se recorre quando todos os outros desistiram. É uma Especialidade de intervenção, invasiva, iminentemente hospitalar. O "filho pródigo" do Intensivista (médico de Cuidados Intensivos). Lá como cá.
Claro que cá também trata Patologia de rotina de outras especialidades, e não apenas os casos difíceis. E sub-especializa-se em múltiplas áreas, conforme as carências locais dos diversos sítios. Aliás é interessante ver que a esmagadora maioria das sub-especialidades portuguesas tem como pais fundadores Internistas dedicados às respectivas áreas.
Também foca os grandes pontos fracos da Especialidade. O facto de ser iminentemente hospitalar, logo, pouco lucrativa porque sem saída na privada. O facto de não ser de todo rentável para qualquer administração que se preze, que preferem diagnósticos e tratamentos rápidos e lineares a grandes investigações (e investimentos) diagnósticos em doenças com tratamento prolongado. Pouco lucrativa para os próprios, dispendiosa para as administrações, e está encontrado o cocktail que leva à elevação do ego, condição sine qua non de quem opta pelo sacerdócio em causa. E que mais uma vez o House eleva ao exagero, com o seu espírito irrascível e cínico.
Mas é, sem dúvida, onde reside aquele "espírito" de Medicina que mora no subconsciente de todos.
O ER é também interessante, talvez uns furos abaixo do House (cujos diagnósticos são discutidos no dia-a-dia pela própria classe médica), e mostra um serviço de Urgência, caótico como os nossos, mas que em tudo o resto funciona bastante melhor.
As grandes diferenças?
Se no House residem essencialmente nas melhores condições físicas, e no exagero da exponenciação dos skillings do seu team, no ER tem a ver com quase tudo, no que ao trabalho médico diz respeito. Aqui não nos limitamos a ver o doente e a pedir os exames, que aparecem feitos depois. Aqui temos que ver o doente (e ver implica fazer tudo, desde medir a tensão até puxar o aparelho dos ECG, colher algumas análises, preencher os pedidos de análises e exames imagiológicos (quem me dera que fosse como na série, em que basta falar e alguém aponta essas coisas todas, e pode-se passar logo para o doente seguinte...), regatear os exames ou observações com os colegas com as esperas que isso implica (há que encontrá-lo primeiro...), .... No fundo, lá optimiza-se tudo, a acreditar da similitude da série com a realidade deles. O médico faz trabalho de médico, o secretário faz o trabalho de secretariado. Cá o médico faz tudo, e ninguém se importa que por fazer tudo, faça menos Medicina.
Bem, no fundo e em suma, séries boas de se ver para passar o tempo.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Greve

Eu não acredito em greves.... O fundamento da coisa está no incómodo que podemos causar ao cidadão comum, com a agravante de no nosso caso ser um cidadão potencialmente doente, incómodo de tal forma insuportável que o levamos a pressionar as instâncias x a vergarem-se perante uma reinvidicação (mais ou menos legítima) dessa forma, digna dos desígnios de certo Marquês do passado. Ou seja, chateamos uns para esses lá convencerem o outro a fazerem o que nós queremos. Ainda que o outro ache que não temos razão nenhuma, e que os primeiros gostassem na realidade é que nos obrigassem a trabalhar, quiçã com umas vergastadas com vara verde para nos deixarmos de caprichos. É perverso, já que os mais fracos é que sofrem, e ser pela exaustão dos mais fracos que se procura atingir um determinado fim. Quantos de nós não quiseram já passar com 8 carruagens por cima do maquinista da CP que se baldou numa greve, ou do motorista da Carris? Por aí depreendo que com os médicos não há de ser diferente, quando um doente chega ao almejado dia da consulta, muitas vezes marcada tardiamente relativamente à sua necessidade, e chegado o bendito conclui que por infelicidade esse calhou num dia de greve e o médico ficou em casa, com marcação posterior da mesma. Ou chega à Urgência e nota que as centenas de almas que deveriam ir ao SAP da zona (agora USF) acabaram por optar pelo serviço de Urgência Central, e estão à sua frente? E quem não tem capacidade para chatear, numa sociedade assim, lixa-se. Pois não pode fazer greve. Pena é que também se lixe quem tem esse poder e não o exerce. Bem sei que o autismo das entidades eleitas pode também levar ao desespero daqueles que lhes tentam fazer chegar a voz, por vezes razoável. Mas não devia ser assim. Ou só devia ser assim em último caso. E em último caso não é uma vez por ano. É uma vez por legislatura, ou menos ainda, e ter adesão total (senão revela que o protesto nem chega a ser consensual) e prolongada. E deve ser séria, ser explicada (a começar aos interessados na greve, o que raramente é o caso). E nunca coincidir com tangentes aos fins de semana (honra seja feita a esta...). Eu não vou fazer greve. Vou votar, daqui a poucos anos. PS: acabo aqui, já que bem sei que isso do "votar" teria mais uma bíblia de considerações pela frente, e uma conclusão triste. Mas olho para a França e espero um futuro melhor, nesse capítulo de Democracia participativa....

Friezas

Só quem nunca esteve na pele de um doente, nunca estranhou a brevidade (raramente mais que uns quantos minutos, algo mais na primeira visita) das passagens do médico pela sua cama.
De pouco vale saber que muito do trabalho dele consiste também na avaliação da parâmetros constantes do processo, de consulta de análises, de reavaliações da terapêutica em curso, de exames que se aguardam, etc....
Só quem nunca esteve na pele de um doente nunca estranhou essa constante adaptação que se tem que fazer às rotações pelas camas dos enfermeiros, para a higiene, para a alimentação, para a toma de fármacos, para a avaliação de parâmetros vitais.
De pouco vale saber que há mais x doentes para ele orientar, num espaço de tempo determinado.
Só quem nunca esteve na pele de um doente nunca estranhou o quarto partilhado, com convivas muitas vezes assaz barulhentos, sofredores, pré-mórbidos, ou simplesmente fraca companhia.
As camas desconfortáveis, a comida desensabida, a total ausência de privacidade, a indignidade da imobilização e da incapacidade, virtude de dependência total, para a realização autónoma das mais básicas necessidades.
A ausência de urinol que está longe ou já cheio, a necessidade da arrastadeira.
As horas que não passam, à espera de um exame, à espera de alguma melhora e autonomia, à espera de alguma visita.
E aqueles que nunca têm visitas, ou cujas visitas só parecem preocupadas com a data da alta?
E aqueles que, apesar destas incríveis condições que se verificam nos hospitais de hoje em dia, parecem temer o regresso a casa acima de tudo o resto?
Há vidas muito tristes, meus senhores. Ou que acabam a dada altura por se tornar muito tristes.
Eu chamo-lhe o "passar do prazo".
E pode acontecer a qualquer um....

terça-feira, 22 de maio de 2007

Técnicos de Saúde

Os estuprados.
Por exemplo, os Técnicos de Laboratório. Pela minha experiência, muitos laboratórios da actualidade limitam-se a lidar com máquinas (fruto do avanço tecnológico), nas quais introduzem o sangue (e outros fluidos) dos doentes. Já lá vai o tempo do microscópio e outros adereços que tal, até para exames microbiológicos. Hoje em dia, quem manipula os produtos, deste a sua colheita até à impressão do relatório, são os técnicos, cabendo aos meus colegas aferir da qualidade destes últimos. E dar o "carimbo" de aprovação.
Isto seria tudo muito bonito se os erros, perante centenas de relatórios diários, não fossem inevitáveis, com ou sem supervisão. E se todo o processo não fosse de sobremaneira "encalhado" por esta dinâmica burocrática (as análises surgem-nos nas mãos com inusitada velocidade a partir do momento em que o "carimbo" deixa de ser necessário). Por falar nisso, é interessante como todos se conformam com a ausência física, considerada portanto aceitável a partir de certa hora da noite, do médico analista, mas já não durante as horas do dia.
E o problema aqui não está na utilidade, que é obviamente real, do Médico Analista. Está na teimosia em insistir-se nessa função de "portador do carimbo", mesquinha, ridícula e absolutamente desprovida de qualquer efeito prático, além do nefasto atraso que provoca na obtenção dos resultados por parte do Clínico Hospitalar. Ele é necessário, sim, mas para outras coisas. Ou, visto de outra forma, provavelmente menos necessário do que aquilo que se pretende artificialmente fazer crer.
Idem aspas para técnicos de Imagem. Conheço uma, que faz ecografia, por sinal muitos mais ecocardiogramas que qualquer Cardiologista, muitos mais doppler dos vasos do pescoço e transcraniano do que qualquer Neurologista, e que resolveu, com a sua presença no apoio aos serviços, o problema do atraso, vide impossibilidade prática, de se obterem esses exames em tempo útil. Só que lá está, também ela precisa do "carimbo" de um "especialista" qualquer.
O argumentário para esta demência? Geralmente anda à volta da faculdade "interpretativa" desses exames, que estes últimos acrescenterão ao pacote. Claro que ninguém pergunta se o clínico que pediu o exame está sequer interessado em "interpretações", ao invés de descrições (deixando as interpretações para ele próprio). Claro que ninguém comenta ou investiga se o "olhar interpretativo" não introduz um viés à correcta descrição das imagens, que se quer mais denotativa, e menos conotativa, prejudicando assim a utilidade (e realidade) do exame. Claro que os erros se mantêm, quando existem. Claro que ninguém no seu perfeito juízo espera pelo relatório final, contentando-se com a informação verbal do momento (da técnica, claro está), muito mais dinâmica, e invariavelmente sinónimo daquilo que nos surge na mesa, fora de horas, vários dias depois.
Chega-se aliás ao cúmulo, neste caso que eu testemunho no meu dia-a-dia, da senhora até saber fazer outras técnicas ecográficas (que não existem na instituição), não as podendo porém realizar por falta de quem lhes dê uma "carimbadela". Lá as vai fazendo, a nosso pedido e a bem do doente, mas sempre off the reccord, já que susceptibilidades feridas, neste país, podem fazer muita mossa, até às gentes de bem....
Eu próprio descobri que o mesmo técnico que faz um ECG a um doente meu no Hospital (que eu depois interpreto, às dezenas por semana), com toda a competência (aliás a "dificuldade" da "coisa" está em saber onde se põem um conjunto de ventosas), não os pode fazer em ambulatório porque precisa de uma "interpretação" antes de chegar ao médico que o requisitou (mesmo que esse não tenha pedido qualquer relatório, note-se). Aliás, em ambulatório, nem eu estou tãopouco "habilitado" a interpretar um ECG (perco essa faculdade quando ultrapasso o portão do Hospital). Obviamente que no Hospital, onde as pessoas são pagas à hora (e ganham o mesmo que façam x, quer façam x ao quadrado), seria uma chatice (além de supérfluo) o Cardiologista opinar sobre todos os ECG. Claro que, fora do Hospital, ele não só não se importa como até faz questão (através da Sociedade que o defende).
Isto também é válido para uma série de exames (radiográficos, etc...), que, de um momento para outro, carecem de validação ao mesmo tempo que deixam de ser "Serviço Público".
Quanto mais velho fico, menos paciência tenho para este concentrado de estupidez.
Mas as coisas vão melhorando, julgo.... E isso há de mudar um dia, devagarinho.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Competências

Este é um problema recorrente nos tempos que correm.
Será um determinado autarca competente para gerir a autarquia? Serão certos Deputados competentes para orientar os destinos da Nação? Será um determinado médico competente a realizar técnicas ditas de outras Especialidades? Será um Enfermeiro competente para executar diversos actos ditos "Médicos"? Será o doente competente para avaliar cuidados de Saúde?
E quem determina a Competência, e com que critérios?
A Competência, e tal é tanto mais verdade quanto mais diferenciadas se tornam as técnicas ou actos em causa, deve ser avaliada, e estudada. A Competência, num país onde existem variados "vícios" de sistema, serve também para gerir monopólios, tornando exclusivas coisas que em alguns casos se poderiam generalizar mais, a bem do Mercado e logo, das populações.
A Competência é bem aceite, quando demonstrados os efeitos nefastos da sua atribuição a quem não a deveria ter. Da mesma forma, é mal aceite quando, mais ou menos claramente, veda o direito de outros a exercerem livre e adequamente.
Ou seja, quem sabe deve poder fazer. E quem faz deve deixar outros que saibam fazer também.
Passando ao concreto, num exemplo actual, os Enfermeiros devem poder "atender" as pessoas num determinado Distrito, substituindo um tradicional modelo que dantes seria personalizado por um médico, desde que cumpram adequadamente uma determinada função atribuída no novo modelo (que obviamente não seria a mesma que o médico desempenhava no velho), e que daí não resulte mal maior (ou bem menor) para quem precisa deste serviço.
Provadas estas premissas, é aceitável, ainda que arriscado (cabe aos responsáveis assumirem isso, mas a vida também se faz de riscos, desde que esperadamente controlados, neste caso), um período "experimental" de um novo sistema de orientação dos doentes. Deve ser controlado, e cuidadosamente avaliado.
Porque em última análise, o que realmente interessa é que o doente do tal Distrito veja o seu problema resolvido, com aqueles Enfermeiros, a funcionarem daquela maneira, e articulados assim como está planeado com o demais Sistema de Saúde local.
Com aqueles Enfermeiros, que são os nossos, e não os dos EUA. Com aquelas Competências, que lhes foram atribuídas, e não outras estudadas num contexto que não o nosso.
Se funcionar, nada a opor.
Até lá, cuidado com as generalizações, com as extrapolações e com as insinuações de parte a parte das corporações envolvidas. Isto para aqueles que se preocupam em não deixar de ter razão. E em manter legítima Competência para avaliações sociológicas futuras.

Síndroma Febril Indeterminado

Casos ingratos, e interessantes de um ponto de vista profissional.
Ou seja, febre isolada, sem diagnóstico, durante pelo menos 3 semanas segundo alguns critérios algo mal definidos internacionalmente.
Para o doente, a angústia da doença sem rótulo.
Para o médico um escalar de exames cada vez mais invasivos.
Quanto mais o tempo passa, menos a hipótese infecciosa (uma das 3 principais) se vislumbra, e mais se consideram as hipóteses neoplásica e de doença inflamatória sistémica de outra causa (do grupo de "doenças raras", se quiserem...).
Exames cintigráficos, biópsia hepática, da artéria temporal, óssea e mielograma, punção lombar, exames imagiológicos diversos, com ou sem arteriografia, análises e serologias menos comuns a acompanhar o corropio de ideias que vão surgindo à cabeça numa determinada circunstância, mais ou menos apoiadas em opiniões retiradas de artigos recentes ou das visitas médicas....
Até que às vezes se esgota a imaginação, e opta-se por um tratamento sem alvo certo (uma "prova terapêutica"), com imunossupressores ou antibióticos.
Os desfechos felizes, grandemente dependentes de uma enorme equipa estruturada (médico assistente, imagiologistas, endoscopistas, ecocardiografistas, analistas, patologistas, enfermeiros, outros médicos chamados a opinarem sobre este ou aquele sinal mais específico...), resultam geralmente numa bela recordação, quem sabe num paper.
Muitos outros, infelizes, quer pelo rótulo final de mau desfecho, quer por ausência total de rótulo até ao exitus, contam para a memória de insatisfação pessoal e sensação de dever não cumprido. Além da insatisfação de quem se recusa a compreender, e quem sabe se arrepende de não ter apostado noutro cavalo (vulgo médico, neste caso).
São casos crónicos, para com os quais a frieza da rotina e do contacto acelerado não protegem aqueles que acabam por conhecer demasiado bem a pessoa para se limitarem ao doente.
Bem sei que deverão estar todos a pensar que cada caso (revendo-se na pele de indefeso doente) deve ser para o médico um caso de vida ou morte, em que ele empenha naqueles curtos segundos de observação e actuação toda a sua concentração. Lamento desiludir-vos, pois felizmente, na grande maioria dos casos, aborda-se o doente com um organigrama mental mais ou menos sistematizado conforme as queixas ou sinais que se observam (ou seja, a participação do próprio doente é-lhe muitas vezes de crucial importância), sem empatia ou emoção pela dispneia, pela sensação iminente de morte, pela dor excruciante, pela tristeza, apenas focado em observar isso, tratar assim, excluir aquilo, e por aí fora. Com um toque pessoal e característico de cada um, bem se vê....
Isto tudo surge porque estou neste momento a viver um caso destes, em que começo a gostar e a empatizar mais do que queria com o meu doente, em que começo a ser seriamente detestado pelos seus familiares, e em que ainda não atingi a satisfação do diagnóstico, que não sei ainda se será de feliz descoberta ou não. Já lá vão vários meses de doença, as últimas três semanas (com muita morbilidade à mistura) ao meu cuidado.
No princípio queria ser bem sucedido por mim, era uma questão principalmente de super-ego. Cada vez mais quero ser bem sucedido pelo meu doente, que continua a sofrer com a incógnita da sua mazela.
Mas ainda estou cheio de ideias.
A ver vamos....