quinta-feira, 8 de março de 2007

Ignorância

Há uns dias apareceu uma senhora no Serviço de Urgência, mal, com uma forma de apresentação atípica de uma doença comum.
Ficou internada.
Algumas horas depois, o estado agrava-se, e passa para o Serviço com um nível de vigilância superior. A dúvida inicial intensifica-se. A atipia afinal seria uma forma banal de outra coisa qualquer?
Mais uns passos nos exames complementares de diagnóstico, excluem-se outras hipóteses, e a senhora, que aliás é relativamente nova, continua a não melhorar. Está "estável", como se diz na gíria. Ou por outras palavras, não anda ainda nem para um lado (da cura), nem para o outro.
Passo os dias com a dúvida a assolar-me de vez em quando. Alguma coisa me passou ao lado, algum sinal, algum sintoma importante, quem sabe um raciocínio óbvio?
Hoje passo pelo tal Serviço. Anseio secretamente que a senhora não tenha perecido, e que afinal a coisa tenha seguido o curso normal rumo ao restitutio ad integrum. Nem uma coisa nem outra. Mantém-se por lá, sem que ninguém ainda tenha tido melhor ideia sobre o que se estará a passar realmente. A colega escalada está apreensiva.
Sento-me e revejo o processo, depois de cautelosamente lhe ter assegurado das minhas melhores intenções, cujo único propósito são ajudá-la a dar uma resposta à nossa dúvida existencial, não fosse ela julgar que estou à procura de uma falha (pormenor importante na profissão, a que chamamos Deontologia). Com mais uns quantos exames de imagem, analíticos e procedimentos invasivos, e com a evolução do caso, as coisas deverão estar mais compreensíveis.
Não estão, e continuo a não ter uma resposta inequívoca. Aumentou-se o espectro dos antibióticos, e pondera-se atirar agora em todas as direcções possíveis e imaginárias. A simples infecção já nos parece doença sistémica e auto-imune.
Saio, mas vou ler. Não encontro respostas, fico com ainda mais dúvidas, partilho o meu insucesso com a tal colega.
Oxalá a resposta surja.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Dor anónima

Cinco da manhã. Chamada do enfermeiro, que informa que um doente com neoplasia (vulgo cancro) do pulmão em estádio terminal está agitado. Está sim, agitado. Com falta de ar. Sozinho, ao lado de dois outros doentes, fartos de não conseguirem descansar nessa noite, virados no sentido oposto àquele em que se encontra o dito cujo. Assim como o doente parece estar farto de sofrer, a pensar naquele instante num corropio de hipóteses inviáveis de pôr fim ao suplício. O analgésico, misturado ao sedativo, já não chega, definitivamente. Em início de carreira, manuseava a coisa com imenso cuidado... aumentos paulatinos das doses, sem bólus (injecções pontuais) consideráveis. Agora, um bocado mais calejado, sei que posso insistir e exagerar nas quantidades, sendo que o melhor que pode acontecer àquele homem em sofrimento ser passar a um estado de consciência em que a situação dele deixa de ser triste realidade. E se morrer.... Se morrer? Bem, interrompo, já que isso não é francamente opção, nem tão pouco questões de prazo. Mas não morreu, adormeceu num sonoroso ressonar farfalhento. Não morreu AINDA, claro. Ou já morreu há tempos, quem sabe. Vida aquilo não era, pelo menos vida que se queira. Fumava, pois claro. Os que não fumam, infelizmente, não têm melhor sorte. Entenda-se: melhor morte. Subo para o meu gabinete, acendo um cigarro e vivo mais um pouco.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Ilicitudes X

A maior de todas as ilicitudes. Que é a frequência demasiado alta com que todos os médicos deste País se confrontam com todas essas ilicitudes. E conformam. Que é a manutenção vergonhosa do status quo destas ilicitudes, que se perpetuam no tempo. Que é o medo pelo facto de, por existirem estas ilicitudes, as mesmas se virem a repercutir nos que não as cometem. A maioria, felizmente. Creio. Esse engano terrível, que é recear o combate à vergonha inter-pares, pelo simples facto de se querer esconder essa mesma vergonha do grande público. Como se isso fosse possível, a prazo. Há que ser mais inteligente que isso, caríssimos colegas....

Ilicitudes IX

Aquele que só se mobiliza contra as carências quando disso advém interesse directo para o próprio. E não para terceiros sem significado em termos de auto-promoção.

Ilicitudes VIII

Aquele que atende fulano de uma determinada maneira, pior, ou de uma forma mais convencional, por ser desconhecido; e beltrano de outra, distinta, reverencial, por ser detentor de um qualquer cargo de poder.

Ilicitudes VII

Aquele ou aquela que faz x, quando é público, num determinado intervalo de tempo; e faz x+y quando é privado, no mesmíssimo intervalo.

Ilicitudes VI

Aquele e aquela que se esquecem demasiado frequentemente da posição de fragilidade em que se encontram os doentes que a eles recorrem, insultando, achincalhando, apoucando, ou simplesmente não empatizando com uma determinada pessoa doente, que não é médica. E que não se consegue defender, pelos piores motivos. A doença. A fragilização....

Ilicitudes V

Aquele e aquela que optam pelo atalho no dia-a-dia, pela mediocridade qualitativa, sem qualquer penalização relativamente a todos os que prezam prestar um melhor serviço, com maior qualidade, a outrém. À custa, claro, de mais trabalho.

Ilicitudes IV

Aquele e aquela que se propõem a tanto trabalho extraordinário em serviços de Urgência que se torna matematicamente impossível cumprirem o demais horário de trabalho. Assim lesando aqueles que cumprem honestamente o seu horário de trabalho, sem o acréscimo remuneratório dos primeiros (ilícito, já que às custas de horário que teriam contratualmente que cumprir).

Ilicitudes III

Aquele ou aquela que, tendo consulta aberta a um número limitado de doentes, opta por reencaminhar sempre os mesmos periodicamente à mesma, já conhecidos, e quantas vezes estáveis, por forma a não ter o trabalho de observar novos pacientes, mantendo assim artificialmente um número elevado de consultas, semelhante àquele que tem rotação de doentes e desse modo serve uma maior base populacional.